Os Goonies e o poder de uma turma

(“The Goonies”, 1985, Dir.: Richard Donner)

As minhas férias de verão na infância sempre incluíam uma viagem ao litoral sul de São Paulo, nas casas de parentes em Peruíbe ou na colônia de férias do Banco do Brasil em Itanhaém, com uma obrigatória passagem por São Paulo, porque naquela época ainda não existia o Rodoanel. São Paulo pra mim se resumia a Moema, onde meu tio morava, ao grandioso Shopping Ibirapuera e àquela pequena lojinha de brinquedos chamada A Miniatura, que está lá até hoje, sobrevivendo bravamente. Foi onde meus pais me compraram um boneco não-oficial do He-Man quando eu quebrei o braço numa aventura mal-sucedida no parquinho da colônia de férias, muito antes dos brinquedos oficiais do He-Man serem lançados por aqui. Praias eram aventuras , perigos e diversões. A cidade grande era consumismo e acesso facilitado à cultura, pois numa dessas breves passagens por São Paulo uma prima indicou um filme divertido pra gente ver no cinema. Uma aventura de cavernas e tesouros escondidos com uma molecada aprontando altas confusões.

Não dá pra falar de "Os Goonies" sem rechear todo o conteúdo com a mais cafona, safada e desgraçada nostalgia. Quem nunca quis encontrar um mapa do tesouro e ir atrás dele com seus melhores amigos de infância? Trata-se de um parque de diversões em forma de filme e não se tornou ícone da infância da minha geração à toa: é referência no subgênero “filme de turminha”, tão copiado e jamais igualado.

Infelizmente, esta mesma geração que tem dificuldades para amadurecer e abusa da nostalgia às vezes tem vergonha do passado e acha mais prudente avacalhar os anos 80 do que reverenciar o que havia de bom neles. Durante um tempo, um certo culto ao chamado "lixo" dos anos 80 tentou vilipendiar o território sagrado da nossa memória afetiva. Filmes como "Os Goonies" ajudaram a formar o meu caráter, portanto sempre me senti ofendido com aquelas coletâneas que juntavam fotos deles ao lado de kichutes, cubos mágicos e Bozos no mesmo arquivo de powerpoint. Odeio quando o elenco original se reúne para comemorar alguma data especial e alguém encaminha a foto do pessoal nos dias de hoje com comentários de espanto porque, veja só, o moleque gordo emagreceu. Felizmente essa praga passou, obras como “Super 8” e “Stranger Things” passaram a tratar os ícones dos anos 80 com seu devido respeito e podemos seguir em frente evoluindo enquanto humanidade.

A tal memória afetiva é uma armadilha traiçoeira, temos sempre aquele medo de o filme não ser tão bom quanto a gente considerava na época. Algumas decepções são inevitáveis, por exemplo, “Short Circuit — O Incrível Robô” é uma porcaria. Mas “Os Goonies”, não. Ele tem defeitos sim, mas ainda tem qualidades suficientes pra você mostrar pro seu filho sem ele rir da sua cara. Porque não há criança que resista a um grupo de amigos da mesma idade em uma grande aventura de férias, a menos, é claro, que a maior aventura do seu filho seja caçar Pokemons na rua. Sei que é difícil, mas tente não criar seu filho assim. Acredite na Cyndi Lauper quando ela canta que “os Goonies são bons o bastante para você”.

Lá na minha distante infância no interior, qualquer reunião de amigos ou primos era uma pequena tentativa de se recriar "Os Goonies": das brincadeiras no meio do mato–infelizmente a geografia lemense não inclui cavernas–às excursões ao Playcenter, passando por explorações de bicicleta pela cidade, tudo era motivo.

Ainda na mesma época li a novelização do roteiro e deve ter sido o livro que devorei mais rápido na vida. Depois cometi um grande erro: rever o filme na adolescência. Adolescentes são metidos a besta e nessa revisão não achei tão grande coisa assim, uma impressão devidamente superada por revisões posteriores. Vendo os outros filmes de turminha que vieram depois, notamos que não é fácil juntar uma molecada tão carismática quanto "Os Goonies". E por molecada eu não me refiro somente ao elenco, mas às crianças crescidas por trás das câmeras.

Steven Spielberg escreveu a história e, apesar de não creditado, também deu seus pitacos na edição e na direção da segunda unidade. Ou seja, ele mandou na coisa toda. Chris Columbus (um dos responsáveis por “Esqueceram de Mim” e pela saga Harry Potter no cinema) roteirizou e Richard Donner (de “Superman — O Filme”) dirigiu. Um trio de respeito. Um primor de casting e direção de crianças, habilidade notória de Spielberg. “Os Goonies” não deve ter feito muito sucesso entre seus amigos dos anos 70 — quer dizer, imagine a reação de Coppola e Scorsese — mas ainda é imensamente superior às porcarias que seu parceiro George Lucas produziu na mesma época, tipo “Howard, o Super-Herói”.

“Os Goonies” começa com um zoom silencioso em uma caveira de pirata e parte direto para os vilões, a família Fratelli. Mama (Anne Ramsey) e Francis (Joe Pantoliano) ajudam Jake (Robert Davi) a fugir da prisão num ritmo de aventura cômica a la Indiana Jones durante os créditos–o editor é o mesmo, Michael Kahn. Enquanto a família foge da polícia, somos apresentados aos goonies, cada um em um canto da cidade por onde passa a perseguição, e também à própria cidadezinha de Astoria, onde ficam as Docas Goon que batizam a turma.

Conhecemos os irmãos Mikey Walsh (Sean Astin, hoje mais famoso como o Sam do “Senhor dos Anéis”) e Brand (Josh Brolin, que se tornou um ator adulto respeitável). Mikey é quase loser, embora não caia no lugar-comum do moleque nerd. Ele é asmático, usa aparelhos nos dentes e está entediado. Brand é o irmão mais velho, atleta e popular. Logo chega o folgado Bocão (o lendário Corey Feldman, que não conseguiu repetir na vida adulta o sucesso que teve quando criança em vários “filmes de turminha” como “Os Garotos Perdidos” e "Conta Comigo"). Descobrimos que todos eles em breve vão se mudar dali, porque aquela parte da cidade, endividada, foi vendida para se tornar um clube de campo.

Bolão (Jeff Cohen) aparece no portão da casa. O gordinho vítima de bullying é proibido de entrar se não dançar o “truffle shuffle”. Na dublagem da TV, Bocão ordenava:

“Dança lambada, gordo!”

Hoje provavelmente a cena seria cortada, toda a equipe seria processada e Bolão teria que arrumar um apelido menos gordofóbico. Mikey aciona o dispositivo que ativa a engenhosa geringonça que abre o portão “automaticamente”, envolvendo uma bola de boliche, uma bexiga e uma galinha. Bolão chega contando da perseguição que viu, mas ninguém acredita nele, porque além de gordo ele é mentiroso.

Dado (Ke Huy Quan, recém-saído de “Indiana Jones e o Templo da Perdição”), o chinezinho dos gadgets (na verdade o ator é vietnamita), chega em grande estilo pela janela, com a trilha de seu ídolo James Bond. Lembrando que o 007 dos anos 80 era isso aí, Roger Moore, gadgets e entradas triunfais. Dado menciona que todos vão se mudar para Detroit, a cidade com maior índice de homicídios do país. Bocão informa que ao menos a Motown começou lá. Ele também usa uma camiseta do Prince, o que talvez explique porque o Corey Feldman era tão cultuado na época.

Bocão também tira sarro da empregada nova da casa, a mexicana Rosalita, que não sabe falar inglês. Ele traduz errado as orientações à moça, explicando que ela deve separar as drogas nas gavetas, enquanto Bolão tenta grudar o pênis de uma estátua que acabou de quebrar e, colando de cabeça pra baixo, cria uma ereção na mesma. Xenofobia, sexo e drogas em "Os Goonies", quem diria.

A molecada resolve desbravar o sótão onde o papai Walsh, historiador, guarda peças de museu. Começa a chover e a trovoar lá fora, lembrando a cena de “A História Sem Fim” em que Bastian se tranca para ler na escola. Ali eles encontram o mapa do tesouro do pirata Willy Caolho. Mikey parece enfeitiçado pela figura do pirata, contando toda sua história com um olhar fixo no nada — na real, a faixa de comentários do DVD entrega, é Sean Astin lendo o longo texto em uma cola posicionada ao lado da câmera. Eles também encontram uma notícia sobre Chester Copperpot, o explorador que desapareceu tentando encontrar o tesouro. Os goonies logo se interessam em ir atrás dele e usar o dinheiro pra salvar a cidade.

A molecada é desencorajada por Brand, porque ele é mais velho e portanto chato, sem fantasia no coração. Engraçado como Josh Brolin nem era tão mais velho assim, mas era muito mais velho pra nós, da idade dos goonies. Quando você é pivete, poucos anos são uma baita diferença de idade.

Cyndi Lauper aparece na TV cantando o irresistível tema do filme, “The Goonies ‘R’ Good Enough”, meio que para avisar a todos que a aventura começou: os goonies amarram Brand em seu próprio equipamento de ginástica e partem em suas bicicletas com o mapa e um amuleto. Descer ruazinhas suburbanas de BMX, mesmo que elas não voem com um E.T. na cestinha, é uma marca registrada spielberguiana.

Os goonies encontram um restaurante abandonado na beira da praia, lar dos Fratelli, onde Mikey vê de relance o personagem mais marcante do filme, o monstruoso Sloth (o falecido John Matuszak cheio de maquiagem). Sloth é um irmão Fratelli renegado, amarrado com correntes no calabouço, um Homem Elefante dos anos 80. E ele gosta de chocolate.

Brand e as duas goonies femininas, a feinha Stef (Martha Plimpton) e a gatinha Andy (Kerri Green), logo completam a turma. Os Fratelli voltam e obrigam a molecada a fugir pelo túnel embaixo da lareira, a não ser Bolão, que fica preso no freezer com um cadáver, dividindo a narrativa nestes dois núcleos a partir daí.

No subterrâneo, os goonies encontram tubulações e puxam os canos para pedir socorro à superfície, mas só conseguem causar estragos nos encanamentos do clube de campo. Ali estão os outros vilões de trama, diminuídos pelo corte final do filme: é a elite da sociedade, os proprietários, a gente diferenciada que quer expulsar a gentalha. Essa classe dominante inclui Troy (Steve Antin), playboy que disputa o coração de Andy com Brand. Sem maiores detalhes desse núcleo, o filme perde a chance de ser mais maduro, mais John Hughes e menos Walt Disney. Ainda assim, na breve cena dos canos, os goonies revelam-se criaturas do underground. Eles atacam o sistema por baixo, pelo esgoto, demonstrando que ainda havia alguma rebeldia setentista no sangue de Spielberg/Donner.

Enquanto isso, Bolão é torturado e confessa seus mais podres segredos de infância, sob o olhar atônito dos bandidos. Confirma-se o estereótipo do gordinho que todos alopram, mas que todos adoram. Bolão é colocado no quartinho de Sloth, que está vendo um filme de capa-e-espada do Errol Flynn. Logo eles descobrem que compartilham o amor pelo chocolate com um providencial Baby Ruth e assim nasce uma bela amizade. Bolão consegue escapar com Sloth e ligar para a polícia, mas, pobre gordinho mentiroso, os tiras também não acreditam nele. Eles citam outra mentira do garoto, sobre bichos que se multiplicam se você jogar água neles, porque “Gremlins”, outra produção de Spielberg, fazia um sucesso danado naqueles dias e a troca de referências entre os filmes deste mesmo universo era comum.

As aventuras no underground se atropelam: o esqueleto de Chester Copperpot é encontrado, artefatos acionam engrenagens, armadilhas, ataque de morcegos, tudo muito Indiana Jones. Tem também o poço dos desejos pelo qual eles ameaçam sair, mas o idealista Mikey convence a todos a seguir em frente com um belo discurso que inclui slogans como “Goonies never say die” e:

“Aqui embaixo, quem manda somos nós!”

Tem filme girl power, tem filme black power, “Os Goonies” é um filme kid power.

Numa pausa para um xixi, Andy arma um esquema para beijar Brand mas acaba beijando Mikey por engano. Difícil acreditar que, naquela época, o pessoal mais velho do filme ainda estava dando os primeiros beijos, mas é o tal despertar da sexualidade, ainda que bem contido. O primeiro beijo de Mikey, desajeitado e poético com a cascata caindo ao fundo, é um momento bonito em seu processo de amadurecimento.

Os Fratelli se aproximam da turma, seguidos por Sloth e Bolão. Os goonies chegam ao clássico tronco com água respingando por todo lado. Os escorregões dos vilões no tronco dão uma dica do que o Chris Columbus faria alguns anos depois em “Esqueceram de Mim”. Joe Pantoliano e Robert Davi são patetas, mas também sabem ser cruéis: o primeiro ainda seria um membro da "Família Soprano" e o segundo um vilão de 007. Já a Mama voltaria a ter destaque em "Jogue a Mamãe do Trem", cujo título explica tudo.

Próximas fases: o piano feito de ossos, o sensacional toboágua que desagua no Inferno, o navio pirata onde Mikey encontra o que restou de Willy Caolho e tem um momento intimista com sua obsessão. Mikey o respeita, o idolatra e se reconhece nele. O pirata não tinha um olho, Mikey tem sua bombinha de asma e seu aparelho nos dentes. É uma analogia besta, mas os dois são aventureiros imperfeitos. Assim, vale o título dado por Mikey ao nobre pirata:

“Você foi o primeiro goonie.”

Os Fratelli chegam para acabar com a alegria e Sloth salva o dia de diversas formas, seja emulando Errol Flynn ao descer pela vela do navio, seja revelando uma camiseta do Superman por baixo da roupa, com direito à trilha do John Williams e auto-homenagem do diretor Richard Donner. Sloth é um sujeito de repertório, de boas referências, um nerd das antigas, daqueles que literalmente ficavam acorrentados no porão sem ver a luz do sol e sem contato com a sociedade.

Na praia do lado de fora, com direito a participação especial de Donner como policial, os goonies reencontram seus pais sem nenhuma joia do tesouro, somente os aprendizados de toda aquela experiência. Mikey joga sua bombinha de asma fora, confirmando que agora passou de fase e se tornou um homenzinho.

Os vilões são presos e, num exemplo de timing preciso que só acontece no cinema, o pai de Troy aparece para pedir a casa dos Walsh. Surge então Rosalita, a empregada que não fala inglês. Ela encontra uma pedra preciosa remanescente que resolve todos os problemas: as dívidas serão pagas, as casas ficarão onde estão, a crise imobiliária acabou. Quer dizer que, por mais que representem a classe média norte-americana branca, quem salva os goonies pra valer são dois representantes da minoria excluída: um deficiente (Sloth) e uma imigrante mexicana (Rosalita). Que sirva de lição para todos os Donald Trumps do mundo.

O navio pirata escapa da caverna e segue rumo ao horizonte enquanto todos comemoram a permanência dos goonies em Astoria. Fim de "Os Goonies" como filme de aventura infanto-juvenil, começo de "Os Goonies" como lenda. Não houve continuação, remake, nem prequel contando as aventuras de Willy Caolho ou os primeiros crimes da família Fratelli. Pelo menos Steven Spielberg não relançou o filme com cenas inéditas e novos efeitos digitais — nos extras do DVD existe uma cena deletada tenebrosa envolvendo um polvo gigante, que sem dúvida foi excluída porque o bicho parecia um monstro de filme B dos anos 50.

“Os Goonies” tem esse charme de Indiana Jones para crianças. Seus vilões matam gente, mas são caricatos, trapalhões. O monstro Sloth, com sua maquiagem de Halloween, revela-se uma criatura dócil e gentil. O humor muitas vezes é pastelão. As assombrações não existem de fato, são só caveiras ameaçadoras. O medo em "Os Goonies" é aquele medo de trem fantasma, do esqueleto que assusta, da armadilha surpresa. Mas em algum lugar ali no meio existe aquele outro medo mais sério de perder a casa, a vizinhança, as amizades, a própria infância. O medo da turminha se desfazer para sempre.

Na filmografia de Spielberg dessa sua fase Peter Pan, com grande intensidade ou mascarado por aventuras mirabolantes, ninguém quer crescer. Crescer é chato. Crescer é ter que lidar com responsabilidades, pagar hipoteca, abandonar amigos do espaço sideral, parar de perseguir OVNIs e de seguir mapas do tesouro.

Se a perda da inocência é bem melhor trabalhada em “Conta Comigo”, uma espécie de filme-irmão que trocava toda a fantasia do tesouro do pirata pela dura realidade de um cadáver ao vivo, “Os Goonies” é mais uma daquelas obras bacanas sobre o valor da amizade, da importância de pertencer a um grupo e de assumir uma identidade própria. No filme, Andy e Stef aprendem o que é ser um goonie e passam a valorizar isso. Elas aprendem a ter orgulho da sua natureza, das suas origens, de quem elas são. Rir de si mesmo e do seu passado é bacana, é saudável, mas ter vergonha disso tudo é apenas triste.

Fazer parte de uma turma é uma questão de ser aceito, de ter com quem contar nas horas difíceis, com quem comemorar nas horas boas e com quem lutar quando for preciso. Já fiz parte de turmas do clube, da escola, da faculdade, dos amigos de bar, de cinema, do trabalho, da arquibancada do futebol e tantas outras, e espero continuar sendo aceito nesses grupos de gente como a gente até minha última turma ser a da galera que joga dominó na praça, relembrando de maneira bem sem vergonha as aventuras, os filmes e os brinquedos da infância.