Quase Famosos e a tentativa de ser legal

(“Almost Famous”, 2000, Dir.: Cameron Crowe)

“É um texto cabeça sobre um grupo médio lutando contra suas próprias limitações sob o duro olhar do estrelato.”

Apesar de romanceado, sabemos que "Quase Famosos" é um filme autobiográfico. Seu autor, Cameron Crowe, de fato foi o jornalista prodígio que cobriu uma turnê do Led Zeppelin ainda na adolescência para a revista Rolling Stone. Uma grande façanha. Eu não fiz nada disso, mas faz parte da magia do cinema você poder colocar grandes histórias na perspectiva do seu microcosmo particular, do seu mundinho. Diante disso, para mim, redator uncool que adora músicas e filmes, "Quase Famosos" foi o filme certo na hora certa.

No começo do milênio eu estava em mais uma daquelas fases de dúvidas e incertezas da vida, você sabe, elas acontecem muito. Formado em publicidade, sem emprego, sem saber se tinha talento pra coisa, tentando em vão algo na área de produção de vídeo e descobrindo que não tinha paciência para a arte de se fazer filmes, programas de TV, comerciais, nada disso. Lá pelas tantas, alguém me disse que meu lugar era na frente de um computador escrevendo. Não sei se foi um elogio, mas eu acreditei, arrumei um emprego como redator e assim começou a minha década. Aos poucos fui descobrindo que ser redator publicitário não era tão ruim assim, que me metendo nos meios corretos eu poderia continuar em contato com cinema, música, essas nossas paixões que insistem em não dar dinheiro.

Saiba que todo mundo na criação publicitária é um artista frustrado: um cineasta, um músico, um escritor, um fotógrafo, um roteirista, um artista plástico… estão todos escondidos por ali tentando sobreviver. E aqui estou eu entre eles, fazendo minhas coisas. Eu sempre tive a sorte de trabalhar com gente que gosta, faz ou vive de música.

Na época em que “Quase Famosos” foi lançado, eu estava lidando com “A Teoria Pedestáltica”, um texto sobre o amor platônico explicado por letras de rock que encontrou seu público fiel na era pré-redes sociais da internet, o que significa que minha vida sentimental estava um lixo e escrever sobre isso era uma boa terapia. Tinha descoberto o “Alta Fidelidade” do Nick Hornby e, coincidentemente, me aproximei de uma banda que crescia no cenário alternativo paulistano, o Maybees. Grande parte da banda tinha estudado comigo na faculdade, mas uma aproximação maior se deu quando meu amigo de fé e irmão camarada Vlad Rocha assumiu a vaga de baterista. Eles estavam lançando o segundo disco, “Picture Perfect”, e eu comecei a acompanhar o caminho da banda pra lá e pra cá. Como já conhecia a Vanessa, o Habacuque e o Edu da faculdade, não houve aquela mistificação tão natural na relação ouvinte/artista. Porém, o outro guitarrista, o Mauro Motoki, estudou em outra universidade e eu só fui conhecê-lo naquela época. A mistura de admiração com amizade que surgiu ali foi diferente, eu ouvia suas histórias sobre o Pulp, Beach Boys e seus processos de composição como um jovem padawan tentando assimilar tudo.

Em determinado momento, o Maybees resolveu acabar e começar de novo como Ludov, e eu fui convocado para escrever a biografia da extinta banda enquanto a nova nascia. Então eu, que nunca soube tocar instrumento nenhum, me tornei mais próximo de uma banda do que jamais viria a me tornar novamente. Nós saíamos à noite e eles me contavam histórias, compartilhavam segredos e era tudo muito divertido. Eu era paparicado, ganhava cerveja de graça, músicas dedicadas a mim nos shows e, numa época em que eu não tinha nem computador em casa, eles apareceram com uma máquina com partes coletadas entre amigos, montaram no chão do meu apartamento que não tinha nem escrivaninha e o Habacuque me disse: “agora você não tem mais desculpa pra não escrever”. Coisas que eu nunca vou me esquecer na vida.

O tempo passou, continuei escrevendo sobre música (mais sobre o efeito que a música causa do que sobre a música em si, é verdade) e principalmente sobre cinema em blogs por aí. Em 2007, uma resenha de filme do meu blog foi publicada em uma revista de cinema, a Pipoca Moderna. Foi um sonho de infância realizado, de moleque que consumia revistas de cinema com iô-iô crem desde o final dos anos 80. O responsável pela façanha foi o Marcel Plasse, um dos criadores da Set, justamente a revista que eu lia religiosamente desde 1989. Durante um tempo colaborei com a Pipoca Moderna em suas versões impressa e digital. Não sei se isso fez de mim algo parecido com um crítico de cinema, mas a sensação de saber que alguém leu e se importou com a minha opinião, como eu sempre fiz com os críticos de verdade, é algo que compensa qualquer frustração profissional que o mundo possa jogar em mim. Ah, e como ele joga. Sempre que pode, ele joga.

Acompanhar bandas e escrever para revistas, aquilo nunca me rendeu um centavo, mas era tudo muito cool. Aquilo era "Quase Famosos". Em alguns momentos da minha vida, tudo estava acontecendo.

Para aqueles que, como diz a groupie Sapphire (Fairuza Balk), gostam tanto de uma música ou de uma banda a ponto de doer, “Quase Famosos” também é uma dádiva. Um parente próximo de “Alta Fidelidade” que se aproxima mais de quem faz música, ou pelo menos de quem faz a engrenagem da indústria musical girar: bandas, empresários, jornalistas e, é claro, os fãs, representados pelas figuras mitológicas das groupies. Lá pelas tantas, a líder das groupies Penny Lane (interpretada por Kate Hudson com conhecimento de causa, já que a atriz tem uma certa predileção por músicos) diz ao jovem William Miller (o alter-ego de Crowe na tela) que ele é doce demais pro rock’n’roll. Talvez seja mesmo, porque Crowe fez de um filme sobre sexo, drogas e rock’n’roll uma doce declaração de amor ao rock. Porque o rock pode ser pesado, sujo e podre, mas é a doçura de um Elton John cantado em coro que faz da música essa forma de arte que todos nós amamos.

“Quase Famosos” já começa doce, em San Diego no ano de 1969, ao som de Alvin e os Esquilos. Doce, mesmo que a relação da mãe superprotetora (linda atuação de Frances McDormand) com o pequeno William seja quase doentia. William é tão superprotegido que nem sabe sua idade real. Cabe à irmã Anita (Zooey Deschanel, perfeita como a roqueirinha rebelde e defensora da liberdade) lhe contar as verdades da vida. E as verdades da sua vida estão em LPs de The Who e Simon & Garfunkel, porque ela se comunica com música até quando vai contar à mãe que está saindo de casa, tocando “America” pra ela — nenhuma partida pode ser mais doce do que essa. Antes de partir para San Francisco, Anita diz ao irmão:

“Um dia você vai ser cool. Olhe debaixo da cama, vai te libertar.”

Embaixo da cama estão os discos que ela deixa de herança para salvar a vida do irmãozinho. Todo mundo tem aquele irmão mais velho, primo ou tio que o orienta nos primeiros passos no rock.

Ao som do rock do final dos anos 60 e início dos 70, William cresce, chega à adolescência e passa a ser interpretado por Patrick Fugit, um rapaz que é a cara do Jeff Tweedy, do Wilco. Ao contrário de outras autobiografias que apelam para a autopiedade, Crowe sabe rir de si próprio e não tem medo de se retratar como um moleque que usa frases decoradas de críticas musicais para se comunicar e se atrapalha até pra andar. Os ingressos e os pôsteres espalhados pelo quarto não deixam dúvida: William é um nerd da música. Em 1973, ele escreve sobre rock em fanzines e consegue encontrar seu ídolo, o lendário crítico musical Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman dando show), o mestre jedi, o guru supremo da crítica de rock. Ele vai ajudar Miller na sua primeira grande missão como jornalista freelancer: cobrir a turnê de uma banda em ascensão, o Stillwater, primeiro para sua revista Creem, depois para a mitológica Rolling Stone. Ele lhe dá conselhos fundamentais para a vida profissional e pessoal:

“Seja honesto e impiedoso!”
“Você vai encontrá-los novamente em seu longo caminho rumo à mediocridade!”

Este último, sobre os colegas da escola que o odeiam, porque nerds de música (e críticos de arte em geral) são perdedores por natureza, mas também são absolutamente esnobes. Décadas depois eles se transformariam nos indies, mas isso é uma outra história.

O roteiro de Crowe, vencedor merecido do Oscar, flui naturalmente entre diálogos memoráveis, personagens densos e complexos, situações cômicas, episódios baseados em fatos reais e os adoráveis clichês do rock. Assim, depois de passar vergonha com a mãe na porta do show do Black Sabbath com avisos do tipo “não use drogas”, William se vê tentando entrar nos bastidores do concerto para conseguir uma entrevista com a banda de abertura, o Stillwater, e acaba conhecendo ali as groupies (elas preferem o apelido band-aid, já que “ajudam” os artistas) lideradas pela musa Penny Lane, uma presença iluminada. Nem aí o filme se torna vulgar. Cameron Crowe trata as tietes com um respeito que beira a devoção, mostrando-as como sereias sedutoras, maliciosas porém ingênuas em suas declarações de amor às bandas. Quando elas surgem no topo da rampa de acesso aos bastidores, primeiro você ouve os risos, depois você vê as silhuetas e plumas esvoaçantes. Na cena em que elas tiram a virgindade de William, elas flutuam ao redor dele feito ninfas, fadas, algo de outro mundo. O mantra das meninas, “está tudo acontecendo”, deixa claro a cada um ali presente: você está fazendo parte de um momento mágico. Você está na história do rock.

O Stillwater é a banda “quase famosa” com carreira promissora que vê no jovem jornalista uma oportunidade de ganhar destaque fácil na mídia e adota o garoto, mesmo que ele ganhe o apelido de “o inimigo”. O Stillwater também sonha em marcar seu nome na história do rock e quer aparecer na capa da Rolling Stone. Como toda boa banda, tem conflitos de egos e problemas mal resolvidos: o principal deles é que o genial guitarrista Russell Hammond (Billy Crudup) está se tornando uma estrela maior que seu vocalista, Jeff Bebe (Jason Lee). William sabe disso, logo descobre que Russell também tem algo mal resolvido com Penny Lane e assim, sem muito esforço, o guitarrista cool se torna seu maior ponto de interesse, apesar de todo o empenho do vocalista falastrão em tentar chamar a atenção. A cena do camarim em que Jeff discursa sobre a beleza do rock enquanto Russell simplesmente afina seu instrumento define bem esse ponto de vista. Quem tem carisma não precisa de muito para se destacar.

Quando a banda sobe ao palco para tocar seu grande hit “Fever Dog”, William fica nos bastidores na companhia de Penny Lane. E quando ele sai do show cumprimentando todo mundo, chamando os roadies pelos nomes e marcando encontro com as novas amizades, ele já está completamente inserido no universo do rock, entorpecido pelo glamour e, pela primeira vez na vida, se sentindo parte de algo. Está tudo acontecendo para ele. É quando ele recebe uma ligação de Ben Fong-Torres (Terry Chen), editor da Rolling Stone que o contrata para acompanhar o Stillwater.

Forma-se uma bonita amizade e um triângulo amoroso entre William, Penny Lane e Russell, que confessa:

“Estou contando segredos para o único cara a quem eu não deveria contar segredos.”

O ápice da amizade se dá após mais uma briga de egos do Stillwater, dessa vez por conta de uma camiseta que coloca o guitarrista como principal membro da banda. Russell resolve abandonar aquilo tudo e passar a noite com “pessoas de verdade”, escolhendo William como parceiro. Os dois acabam numa festa com bebidas batizadas e Russell chapado no telhado da casa gritando “eu sou um deus dourado” antes de pular na piscina, fato que, segundo consta, ocorreu com Robert Plant.

Na manhã seguinte, cheia de ressaca, autoavaliações e arrependimentos, temos um daqueles momentos sublimes do cinema onde imagem, som, edição e interpretação se alinham em uma conjunção cósmica maior que a vida. Na calçada da casa da festa, fãs com flores no cabelo estão acenando e mandando beijos para o ônibus do Stillwater. Eles foram abençoados pela presença de um astro do rock entre eles e estão demonstrando gratidão. O ônibus parte enquanto começa a tocar “Tiny Dancer”, do Elton John.

Parece uma trilha ocasional, mas aos poucos, pelo balançar das cabeças e pelas batidas do baterista na poltrona, você percebe que eles estão ouvindo a música no ônibus. O baixista começa a cantar, Penny Lane o acompanha e de repente estão todos cantando. A crise acabou, as rusgas foram perdoadas, os problemas ficaram para trás, a ressaca de Russell foi-se embora e tudo isso com uma simples canção. William quebra o clima dizendo:

“Eu tenho que ir pra casa.”

Penny Lane rebate:

“Você está em casa!”

É a cena que define o filme e o mundo de fantasia do rock — aquele mundo do qual Russell tentou fugir sem sucesso, aquele mundo que Penny Lane, que não usa nem seu nome verdadeiro, define como lar.

A partir daí, o mundo de fantasia começa a ruir. A preocupação da mãe de William (a personificação do mundo real) deixa de ser cômica e começa a atingir outros personagens, como o próprio Russell. Ben Fong-Torres começa a cobrar resultados — é a vida profissional de William batendo na porta. E ver as bandas apostando suas groupies em um carteado é um choque de realidade para ele. A própria Penny Lane cai na real ao encarar a esposa de Russell em Nova York e se entope de remédios com álcool. No exato momento em que deveria estar se formando no colegial, William está salvando a vida da amada chapada e declarando seu amor a ela. Tem coisas que nenhum diploma garante na sua vida.

Penny Lane é a gatinha rock'n'roll pela qual todo rapaz interessado em música já se apaixonou pelo menos uma vez na vida. A gatinha que parece cool, bem resolvida, descolada, vivida e acima de todos, mas que não demora muito para se revelar frágil, triste, solitária, cheia de traumas, frustrações e tão ou mais derrotada que você, amigo loser apaixonado. E então você se arrepende por não tê-la conhecido antes, quando ela era real, antes desse mundo doido causar danos irreversíveis na sua personalidade, quando você poderia abraçá-la e cuidar dela como a pequena dançarina delicada que ela é.

Mas é tarde demais para William e Penny Lane e desse mato, todos sabem, não vai sair cachorro. Tenho certeza de que o moleque tem várias músicas sobre amor platônico para ouvir pensando nela e portanto ele vai ficar bem. Eles se despedem no aeroporto e Crowe emociona no clichê, botando o garoto pra correr atrás do avião em uma cena que guarda semelhanças com outro belo trabalho do cineasta, “Jerry Maguire”.

É também em um avião que acontece a discussão de relacionamento final do Stillwater, desta baseada em fatos reais do The Who. Quando o jatinho da banda passa por uma turbulência brava e a morte parece inevitável (Russell até canta Buddy Holly, a mais famosa vítima de acidente aéreo do rock), todos os pecadores confessam seus pecados e o baterista sai do armário no momento mais engraçado do filme. As turbulências nunca mais foram as mesmas depois de “Quase Famosos”.

De volta à vida real, William reencontra a irmã aeromoça e promove uma reconciliação familiar, mas ainda tem que lidar com a pressão da Rolling Stone. Buscando a ajuda de Lester Bangs, ele encontra o guru deprimido e sozinho em casa divagando sobre arte e o talento das pessoas que não são cool. Uma mensagem a todos os perdedores, a todos os oprimidos que não são convidados para as festas, a todos que já se pegaram sozinhos em casa num fim de semana sabendo que o resto do mundo inteiro está se divertindo:

“Eu estou sempre em casa, eu não sou cool.”

Bangs, que até então era sinônimo do cool, mostra sua verdadeira face justamente quando William volta para casa e para a realidade. Acabou a magia. No final das contas, ninguém é 100% cool em "Quase Famosos", nem em lugar nenhum. Nem mesmo Russell, que vai visitar William em sua casa no final do filme e finalmente encontra o que estava procurando: pessoas de verdade (a mãe, a irmã, uma família). William então consegue fazer a pergunta que tentou durante o filme todo:

“O que você ama na música?”

Russell gira a cadeira, se senta, encara seu entrevistador e responde:

“Pra começar… tudo!”

Final feliz, todos estão de bem e seguindo suas vidas. William tem sua matéria publicada na Rolling Stone e o Stillwater, mesmo com todas as suas crises, ganha a capa da revista. As vidas reais são abençoadas pelo toque mágico do rock e as vidas de mentira colocam um pé na realidade para não perder o equilíbrio.

“Quase Famosos” é um filme de grandes temas como amor familiar, amor pela arte, amizade, crescimento e reconciliação. Mas o filme é capaz de te ganhar, mesmo, nos momentos singelos como a dança solitária de Penny Lane na pista suja depois de um show, ou nos pequenos gestos como o abraço reconfortante de Anita na mãe. Cada uma dessas breves cenas vale por um abraço.

O tempo passou e eu nunca consegui viver de escrever sobre música ou cinema, mas não posso reclamar. A agência de publicidade onde trabalho há anos, a DPTO., divide a casa com o Showlivre.com, um site de música que recebe artistas o tempo todo. Parar o trabalho de vez em quando para ver um showzinho no estúdio ou bater papo com figuras como o Clemente no café valem mais do que muitos direitos trabalhistas para pessoas xaropes como eu. Porém vivo nesse meio e tenho contato o suficiente com os bastidores da coisa toda para saber que aquele sonho pré-adolescente de trabalhar na MTV ou escrever para revistas de cultura pop, ser cool e ganhar dinheiro com isso era tão ilusório quanto a vida da Penny Lane. No final do dia, não há glamour e estão todos ralando pra pagas as contas.

Talvez a gente não consiga viver de música, entre bandas, artistas e gurus. Talvez a vida não seja uma festa, nossos empregos sejam chatos e nossas rotinas maçantes. Talvez a gente nunca consiga ser cool de verdade. Mas se a tal da vida real não estiver tão bacana, ouça suas bandas preferidas, preste atenção nas letras, passe a noite escrevendo sobre elas, vá a um show, encha a cara e pule na piscina de roupa. Se nada mais der certo, comece a cantarolar “Tiny Dancer”. Até alguém te acompanhar.