Rambo II e as brincadeiras de guerra

(“Rambo — First Blood Part II”, 1985, Dir.: George P. Cosmatos)

Aos 13 ou 14 anos de idade eu costumava juntar amigos em casa para fazer filminhos com Comandos Em Ação usando a filmadora da família. Sem estrutura para edição, filmado na ordem da história, inserindo efeitos sonoros gravados de videogames, coisa linda. Nosso projeto mais ousado foi o “POW — Prisioneiros de Guerra”, sobre uma equipe de soldados em uma missão de resgate pelo quintal da minha casa. Minha turma — assim como, eu suponho, todas as outras — curtia uma guerra de torrão ou de coquinho no clube, uma boa pancadaria no videogame, até no futebol tínhamos as modalidades soccer fighter ou “5 minutos sem perder a amizade” onde as cenas lamentáveis eram mais importantes do que marcar gols. Moleques, mesmo aqueles que não são psicopatas e não entram atirando na escola, gostam de brincar de guerra.

Quando comecei a frequentar locadoras de vídeo, minha meta era ver todos os filmes com homens carregando metralhadoras na capa e “Rambo II — A Missão” era o “Star Wars” do gênero. Fenômeno cultural, sucesso absoluto, definidor de uma era, ganhou até capa da revista Veja na época. Hoje em dia é motivo de piada, um produto imperialista e ufanista como só os EUA seriam capazes de realizar, um filme de ação inverossímil e exagerado em todos sentidos, uma avacalhação que começou com a paródia “Top Gang 2” ainda nos anos 90 e foi consolidada pelo próprio Stallone em sua franquia “Os Mercenários”, além do esquecível revival “Rambo IV”, aquele onde os inimigos parecem sacos de sangue explodindo. Ninguém mais leva o velho Rambo a sério.

Porém vale lembrar que o primeiro filme, “Rambo — Programado para Matar”, era bastante sério, além de um filmaço. Mostrava um veterano do Vietnã que não conseguia ser reinserido na sociedade. Rejeitado pelo país que jurou defender, o ex-boina verde descendente de índios e alemães John J. Rambo (Sylvester Stallone) levava um pouco do horror da guerra a uma cidadezinha do interior dos EUA e acabava preso. O filme é um drama pós-guerra e um alerta de Stallone para esta classe marginalizada pela sociedade americana, o veterano de guerra. Um peão descartável nesse imenso tabuleiro de War que é o mundo.

Stallone já havia resgatado o orgulho da América com seu Rocky Balboa, o underdog meio idiota que seguia em frente diante das maiores pancadas da vida, em uma filme lançado justamente quando os EUA se recuperavam da derrota na Guerra do Vietnã. No primeiro “Rambo” ele foi direto na ferida, meio como se o próprio Rocky tivesse voltado da guerra sem conseguir retomar a vida normal. Em “Rambo II — A Missão”, com roteiro escrito em conjunto com James Cameron, ele transforma seu personagem em super-herói e o leva de volta para o Vietnã para, de certa forma, terminar o que o exército americano inteiro não deu conta. Um Capitão América ou um Dr. Manhattan sem superpoderes. Tão herói que dessa vez o filme levava seu nome — o primeiro era só “First Blood”. Em entrevista recente, Stallone diz que o filme era uma fantasia: a forma como os americanos queriam que a Guerra do Vietnã tivesse terminado. Ou seja, uma brincadeira irresponsável de moleque.

A trama é de uma simplicidade linda: Rambo é tirado da prisão pelo Coronel Trautman (Richard Crenna) com a missão de voltar ao Vietnã e descobrir se ainda existem prisioneiros americanos por lá, uma década depois do fim da guerra. Ao aceitar a missão, Rambo pergunta:

“Nós vamos vencer dessa vez?”

O Coronel responde que dessa vez só depende dele, reforçando o caráter “exército de um homem só” do personagem. Lógico que os tais prisioneiros não só existem como estão sobrevivendo em condições desumanas entre ratos e aranhas. Lógico que Rambo vai libertá-los e exterminar todos os inimigos no processo, mesmo que as ordens fossem outras. A culpa é toda do Coronel, que plantou a ideia na sua mente: dessa vez ninguém vai te atrapalhar cara, vai lá e arrebenta! O Coronel é quem programa Rambo para matar.

Ciente de sua condição de astro e do poder que tem em mãos, Sly está sempre disposto a elevar a moral da tropa. Rocky, através do esporte, da superação, da persistência. Rambo, através da bala, da faca e da flecha, apesar de em determinado momento ele dizer que “a mente é a melhor arma”. Vindo dele parece sacanagem, mas faz algum sentido, já que é a mente que Stallone está usando e são as nossas mentes que ele está invadindo ao criar obras como esta, fazendo a criançada pirar no conceito. Pare pra pensar como um personagem desse, um veterano de guerra solitário, calado, meio sociopata e visivelmente perturbado teve até desenho animado no programa da Xuxa. É como se hoje tivéssemos um desenho do Capitão Nascimento no Discovery Kids.

No primeiro filme, Rambo mata apenas um sujeito e por acidente. No segundo, ele manda não apenas um, mas dois exércitos inteiros pelos ares: o vietnamita e o russo que está por ali controlando a região. Ainda assim, o pior inimigo não é estrangeiro, e é aqui que “Rambo II — A Missão” começa a deixar de ser o filme idiota que você imaginava. O pior inimigo é o burocrata engravatado Murdock (Charles Napier), o responsável pela missão, um filho da puta mentiroso, conspirador, cercado de ordens superiores, documentos secretos e computadores de última geração. É o representante do governo Reagan ali, com direito a foto do presidente no escritório.

Será então que fomos injustos com o filme esse tempo todo? Será que, assim como “Born in the USA” do Bruce Springsteen, “Rambo II” virou símbolo da própria era que ele pretendia criticar? Será que não prestamos atenção nas letras e nas entrelinhas? Rambo representa a truculência e o conservadorismo da Era Reagan ou é apenas um patriota injustiçado pelo xerife do primeiro filme, pelo governo no segundo e pelo público a vida toda? Rambo está ao lado do homem comum, nunca do poder. Rambo é tão underdog quanto Rocky. Em determinado momento, em diálogo com sua contato local, Co (Julia Nickson), ele se define como “dispensável” (expendable, nome que batizaria o grupo de mercenários em fim de carreira de Stallone décadas depois). Quando ela pergunta o que é isso, ele responde:

“É como se alguém te convidasse para uma festa e se você não fosse não faria diferença.”

Já Murdock é o representante de Ronald Reagan ali na sala de controle, suando em bicas como todo mundo que aparece no filme. É com ele que o Coronel Trautman se desentende o tempo todo, a ponto de ter o único diálogo realmente sério do roteiro, sobre as reais intenções do governo dos EUA no Vietnã para enganar a opinião pública, economizar uma grana e evitar que a guerra, que evidentemente foi um erro grotesco, recomece. O resto é Trautman enchendo a bola de seu protegido Rambo como fez desde o primeiro filme, com frases de efeito como:

“O que você chama de inferno, ele chama de lar.”

Apesar da pose de Obi-Wan Kenobi, o Trautman é um baita canastrão. O fato do Rambo confiar tanto nele só comprova seu eterno papel de trouxa.

Alheio às ordens superiores, o simplório Rambo quer apenas libertar os prisioneiros e acaba ele mesmo preso, torturado, queimado, eletrocutado, rasgado, banhado em bosta de porco e, o que realmente o machuca, traído pela pátria que tanto ama. Os russos estão lá, comandados pelo cruel Tenente Coronel Podovsky (Steven Berkoff), porque afinal estamos no auge da Guerra Fria e um vilão russo é muito mais imponente que os coitados dos vietnamitas, meros sacos de pancada para o nosso herói anabolizado. Quantos moleques não entraram na musculação pra ficarem iguais ao Stallone e ao Schwarzenegger nesse época, hein? Bom, eu não.

Escapando da prisão, Rambo reboota sua Guerra do Vietnã particular e sai matando sem medo de ser feliz. Em um raro momento de ternura, ele ainda beija a garota, combina de fugir para a fronteira com ela, faz planos… em uma fração de segundo ele ama de verdade. Dois segundos depois, ela morre metralhada. Porque Rambo não nasceu para amar, ele nasceu para matar — poderia ser uma frase do Trautman, mas é só minha mesmo. Depois disso, com o cordão da sorte da falecida no pescoço e a indefectível faixa vermelha na cabeça, o homem fica ainda mais puto. A partir daí “Rambo II” assume seu lado mais exploitation com tudo que se convencionou chamar de “filme de menino”: tiros, explosões, corpos voando pelos ares, vingança, correria no meio do mato, travessias de riachos, armadilhas, disfarces, enfim… é Rambo à vontade, dominando seu ofício e dando show. Uma longa sequência em que o personagem mata seus inimigos um a um em silêncio, acompanhado apenas da retumbante trilha de Jerry Goldsmith. Após explodir o assassino da amada, a ação migra para um duelo entre helicópteros, sendo que a máquina russa pilotada por Podovsky é uma besta de metal imponente e ameaçadora, enquanto o teco-teco de Rambo e seus amigos mal consegue levantar voo. Sempre underdog. Naturalmente, só sobram os americanos pra contar a história.

Então temos o epílogo onde Rambo vai encarar Murdock, o vilão final, o homem que o abandonou em território inimigo. A velha luta do homem poderoso que determina os destinos da humanidade atrás da mesa do escritório contra o soldado que coloca a própria bunda na linha de frente da batalha. Rambo sabe que não pode matá-lo, mas pode ensinar uma lição e mandar pro inferno todos os computadores, arquivos, tecnologia, burocracia, enfim, o sistema podre que ele metralha com gosto. “Missão cumprida”, diz ele ao cravar sua faca na mesa de Murdock, a poucos centímetros de sua orelha. É nessa cena que deveríamos focar, não na fantasia de guerra, não naquela brincadeira de moleque que dominou o filme até então. Foco no cidadão mal tratado pela própria pátria que desabafa no final:

“Eu quero o que todos querem, que meu país me ame tanto quanto eu o amo.”

Pro inferno com a citação do John Kennedy, “não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”. Eu sou mais o Rambo. Eu quero que meu país me ame tanto quanto eu o amo. Cansei de amor não correspondido nessa vida.

Rambo pode ter se tornado instrumento de propaganda ideológica dos EUA, mas George P. Cosmatos não é nenhuma Leni Riefenstahl e Stallone é, antes de mais nada, um astro de Hollywood que sabe o que seu público quer ver. É preciso entender o contexto e apreciar a beleza da complexidade toda. Por exemplo: sem querer, Rambo representa até as trapalhadas que a América apronta mundo afora, seja no Vietnã, no Iraque ou no Afeganistão, onde em “Rambo III” nosso herói vai dar uma forcinha pra turma do Bin Laden. Rambo nasceu polêmico e virou piada, talvez agora seja a hora de encontrar um equilíbrio e entendermos qual a sua função na história recente do mundo.

Enquanto escrevo este texto, em algum lugar da cidade uma tropa de choque está batendo em estudantes que querem manter suas escolas abertas. Quer dizer, Rambo é uma donzela perto disso. Lá do outro lado do mundo, um país está bombardeando o outro usando drones, ninguém mais precisa treinar um sujeito para fazer o trabalho sujo. Então vamos pelo menos louvar o patriotismo de alguém que ainda consegue amar seu país mesmo que ele só o decepcione. Um pouco mais daquele patriotismo do republicano Stallone ou do democrata Bruce Springsteen cairia bem no nosso Brasil, que anda com a moral tão baixa. Aqui dependemos de uma seleção de futebol pra reerguer nossos ânimos, e da última vez que prestei atenção estávamos levando sete da Alemanha.

Por outro lado, não podemos nunca nos esquecer de que Rambo é, em essência, um trouxa enganado por todo mundo. E o fato de ele amar incondicionalmente sua pátria talvez seja só mais uma demonstração do quanto ele é trouxa. Somos todos, afinal. Pagamos nossos impostos, tentamos levar uma vida correta, acreditamos que as eleições são capazes de melhorar alguma coisa, defendemos partidos políticos, temos esperança de que tudo vai melhorar, agora vai dar tudo certo, acreditamos quando o Trautman diz que dessa vez só depende da gente… Trouxas.

“Rambo II — A Missão” foi um dos filmes que eu mais vi na vida, mas eu cresci, eu não brinco mais de guerrinha e meus heróis agora são outros. Nós continuamos precisando deles para nos mostrar o caminho correto, alguns bons valores e quem são nossos verdadeiros inimigos — não são aqueles contatos do Facebook com quem a gente briga todo dia, pode ter certeza.