RoboCop e o futuro distópico

(“RoboCop”, 1987, Dir.: Paul Verhoeven)

Um título irresistível, com todo o jeitão de filme vagabundo ou daquelas séries da Sessão Aventura. A promessa de ultraviolência proibida para menores, com muito sangue, membros decepados, vilões derretendo em ácido. Um personagem com design arrojado, um C3PO com cara de mau, um Exterminador do Futuro programado para ser o Dirty Harry, um Homem de Ferro dark, um super-herói que te convence ao primeiro olhar. É só ver o cartaz do filme e você já sabe do que se trata: é um tira andróide, é o RoboCop.

Era para ser um filme B com um título idiota, segundo os roteiristas Edward Neumeier e Michael Miner. Revisto hoje, você percebe que tinha muito mais conteúdo por trás daquela máscara de metal. “RoboCop — O Policial do Futuro” é uma sátira social, uma crítica à Era Reagan, à mídia manipuladora e ao capitalismo selvagem, e seu cinismo talvez faça mais sentido hoje do que quando foi lançado. Você vê coisas como o protótipo do drone entregador de encomendas da Amazon ou aqueles animais robóticos da Boston Dynamics e tem a certeza de que aquilo tudo é obra da OCP, a Omni Produtos de Consumo, a megacorporação que controla tudo, hospitais, prisões, exploração espacial e até a polícia privatizada na Detroit do futuro. Ainda não temos robôs armados na força policial, mas estamos vivendo em algo muito próximo daquele futuro distópico cafona, violento e hipócrita antecipado por “RoboCop”.

Vejamos o cenário: a privatização dos principais órgãos públicos não resolveu os problemas da cidade e o crime toma conta das ruas. Os homens que estão no poder querem aproveitar o caos para construir a nova e moderna Delta City no lugar da velha e decadente Detroit. Pelo que vemos da maquete, Delta City lembra aqueles imensos condomínios fechados que aparecem todo dia em São Paulo, com seus prédios ecologicamente corretos que filtram o cocô dos moradores e o transforma em energia sustentável. Não vai ter crime em Delta City, porque os criminosos ficarão do lado de fora do muro ou serão exterminados. A população apoia, porque bandido bom é bandido morto. O tom é de chorume reaça do Facebook: o policial Frederickson foi baleado e agoniza no hospital enquanto o seu agressor, Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) está solto por aí, cometendo crimes. Alguém precisa fazer alguma coisa. Acorda Detroit.

A mídia faz a sua parte. A TV é responsável por contextualizar a época como Frank Miller fez em “O Cavaleiro das Trevas”, HQ lançada enquanto “RoboCop” era produzido. Os telejornais são absolutamente cretinos e as notícias piores ainda: conflitos explodem em todo o mundo, o presidente dos EUA está em uma estação espacial do programa Guerra nas Estrelas (criação de Reagan), um satélite militar dá tilt e dispara contra a Terra matando dois ex-presidentes que curtiam a aposentadoria na California. Há tecnologia avançada, mas não há o menor controle sobre ela. Jornalismo e publicidade se confundem. Os comerciais de TV anunciam corações artificiais, jogos de guerra onde a criançada explode bombas atômicas (uma versão mais poderosa do clássico War) e o novo 6000 SUX, o carro do momento — afinal estamos em Detroit, berço da indústria automobilística. O programa mais assistido é a sitcom imbecil de Bixby Snyder (S.D. Nemeth), um homenzinho nojento de bigode, óculos e smoking que usa o bordão “eu pagaria um dólar por isso” no meio de umas peitudas.

No telejornal conhecemos o presidente da OCP, Dick Jones (Ronny Cox). Segundo ele, o policial baleado sabia do risco que corria. “Se não aguenta o calor, saia da cozinha”, é o ditado que ele usa. Jones é o segundo homem da OCP, respondendo a um chairman sem nome, chamado de “Old Man” (Daniel O’Herlihy) pelos demais. O velho lembra aqueles conspiradores de “Arquivo X”, os anônimos que controlam o mundo nos bastidores, nas sombras, sem sujar as mãos. É o representante máximo do sistema, uma forma de mostrar que o verdadeiro vilão é inatingível. Na sede da OCP, executivos estão ansiosos para uma reunião importante. Algo novo vai ser apresentado. O yuppie Bob Morton (Miguel Ferrer) tem planos ambiciosos: ele quer o cargo de Dick Jones. Ele está esperando o homem falhar. O assunto é segurança pública na Velha Detroit, mas para eles são apenas negócios e a vida humana não vale um dólar.

A novidade é um projeto de pacificação urbana, o ED-209 (Enforcement Droid série 209), um robô autônomo com cara de tubarão, som de leão e duas metralhadoras fumegantes como braços. A apresentação dá errado, o ED-209 metralha um dos yuppies puxa-sacos que simbolicamente se estatela na maquete de Delta City e Dick Jones, o pai da criança, tem a moral abalada. Bob Morton vê uma oportunidade e apresenta o projeto RoboCop. Seu robô é meio humano. O filme dá a ideia de que o ser humano é mais fácil de ser controlado do que uma máquina.

Um detalhe importante no ED-209 é que ele não tem olhos. A justiça é cega. Paul Verhoeven, o diretor, diz que é porque ele não vê nada, só segue ordens. Ele também diz que, em seus filmes, gosta de mostrar o diabo matando Jesus. Verhoeven é um provocador, como todo artista deveria ser. O holandês é um desses gênios incompreendidos e marginalizados do cinema, do tipo que pode se dar ao luxo de fazer sucesso em Hollywood, lançar a maior sex symbol da década de 90 (Sharon Stone em “Instinto Selvagem”) e depois ganhar um Framboesa de Ouro (por “Showgirls”) que ele fez questão de ir receber. Sua carreira é toda baseada em paradoxos como este. Seus blockbusters têm cara de filme B (“O Vingador do Futuro”, “O Homem Sem Sombra”). Quando ele critica o autoritarismo, é chamado de fascista (“Tropas Estelares”). Mesmo quando parece errar feio, ele está acertando em cheio.

Claro que nada disso é observado quando você é um pré-adolescente que só quer ver um bom filme de ação (ou de ficção científica ou policial) com bandidos tomando tiros de um herói cool usando uma armadura reluzente. “RoboCop” sobrevive às armadilhas da memória afetiva e mantém o respeito intacto mesmo depois de sequências bem inferiores (sendo o “RoboCop 3” com roteiro de Frank Miller completamente trash), desenhos animados, série de TV, HQs e até o “RoboCop Gay” dos Mamonas Assassinas. A inteligência de um roteiro, mesmo que disfarçada, é capaz de influenciar sua percepção de maneira subliminar. Ela planta uma semente ali para que você colha no futuro, quando compreender melhor. Enquanto isso, o culto ao redor do filme faz o seu trabalho de manter a chama acesa.

Tem um prédio na Marginal Pinheiros que a população paulistana apelidou de RoboCop. Deveria ser OCP, mas não vamos exigir tanto da população paulistana. O edifício tem aquele design que era futurista e arrojado nos anos 80 e que hoje parece cafona. Já estive em reuniões de clientes lá e acho o apelido válido, até para homenagear o legado estético do filme. Nele, os carros e os uniformes da polícia são decadentes mas muito legais, naquele padrão futurista “Mad Max” que nos diz que algo deu errado no mundo. No geral o filme evita grandes exercícios de futurologia: é tudo bagunçado e sujo como uma metrópole costuma ser. A delegacia da Zona Oeste de Detroit, por exemplo, é uma pardieiro com bandidos gritando por seus direitos e policiais planejando uma greve. Quando Alex Murphy (Peter Weller) chega transferido da Zona Sul, com cara de bom moço, Frederickson acabou de morrer. Anne Lewis (Nancy Allen), sua nova parceira, está dando uma surra em um bandido folgado. Não há muita distinção entre homem e mulher na força policial, como não há no exército de “Tropas Estelares”. O vestiário é o mesmo, todos se trocam junto. Nancy Allen deixa para trás seu passado de scream queen do De Palma. Sua personagem tem cabelo curto e parece homem. Em nenhum momento haverá tensão sexual entre ela e Murphy. Nem há tempo pra isso.

Rapidamente aprendemos que Murphy é um bom sujeito, pai de família, herói do seu filho e tem um bordão:

“Vivo ou morto você vem comigo.”

Murphy parece brincar de polícia e ladrão sem se dar conta da realidade que logo dá as caras. Já na primeira missão, Murphy e Lewis são chamados para perseguir a gangue de Boddicker até uma siderúrgica abandonada que é um primor de locação. Nessa sequência notamos pela primeira vez a trilha absolutamente fantástica de Basil Poledouris. Solene, trágica, misteriosa, heróica, triunfante, futurista, tudo ao mesmo tempo. Eu costumava gravar trechos dela do alto-falante da TV para usar como trilha de meus filmes caseiros com Comandos em Ação.

Lewis logo é nocauteada e Murphy acaba encurralado pela gangue em uma cena fortíssima: é quando Verhoeven faz o diabo matar Jesus. É a cena que elevava a censura de “RoboCop” além do recomendável para a Sessão da Tarde. Cada um dos bandidos mutila uma parte do corpo de Murphy com tiros de escopeta. Ainda hoje a violência e o sadismo impressionam. O protagonista do filme agora sabe que a vida não é um programa de TV com mocinhos vivos e bandidos mortos. Com meia hora de filme, ele, o mocinho, está acabado. Kurtwood Smith ganhou uma fama de mau que foi expandida para outros níveis anos depois, como pai do protagonista de “That 70’s Show”. É ele, Boddicker, que dá o tiro de misericórdia na cabeça de Murphy. Feito Jesus, ele morre para ressuscitar logo em seguida.

O que restou de Murphy se torna cobaia no projeto de Bob Morton e assim nasce o RoboCop. Murphy não tem mais identidade, agora ele é um produto da OCP. Sua primeira visão na outra vida é estática de TV. Sua própria visão é uma tela de TV. De novo, a TV é importante para se ver o mundo — ou uma forma distorcida dele. Cientistas calibram sua visão. Verhoeven mostra a ressurreição de Murphy — ou o despertar do monstro de Frankenstein — em câmera subjetiva, alimentando a expectativa até revelar por completo a armadura de titânio revestida de kevlar, com design baseado nos robôs dos clássicos “O Dia Em Que a Terra Parou” e “Metrópolis”. Sabemos que ele se alimenta com papinha de bebê e que ele foi programado para respeitar algumas diretrizes básicas. Na delegacia, RoboCop é recebido com espanto e admiração pelos colegas humanos, incapazes de ver o óbvio: se os tiras são operários que falham, fazem greve e morrem, RoboCop é a tecnologia que os torna obsoletos. Um ser humano programável, o melhor de dois mundos. Lewis reconhece seu ex-parceiro nos trejeitos do robô. Mais do que isso, ela é a única a notar que ainda restou alguma humanidade nele.

RoboCop sai às ruas para combater o crime em uma típica sequência de filme de super-herói: há o assaltante armado no mercadinho, uma tentativa de estupro , um doido que mantém o prefeito como refém e torna a ação do herói mais midiática. Quando o bandido é jogado de cima do prédio e se estatela no chão, a imprensa está lá embaixo para recolher o cadáver. “Quem é ele, o que é ele, de onde ele veio?” são as perguntas de Globo Repórter feitas no dia seguinte. Na matéria completamente superficial, ele manda seu conselho para as crianças:

“Fiquem longe de problemas.”

Bob Morton, agora VP da OCP, colhe os louros do sucesso e promete o fim da criminalidade em 40 dias. Homem-Aranha, Batman e Superman nunca tiveram metas de desempenho no combate ao crime, porque nunca tiveram superiores. A vida é difícil para o nosso Homem de Lata. Dick Jones está nervoso, seu ED-209 virou sucata, um produto obsoleto, um Windows Vista feio, lento e meio idiota. O arrogante Morton é a imagem do yuppie anos 80 cheirando coca com duas putas quando recebe a visita de Boddicker e é assassinado a mando de Dick Jones. Crime organizado (Boddicker) e megacorporação (Jones) estão unidos, ora, quem diria?

RoboCop não deveria sonhar nem ter memórias, mas tem pesadelos com sua vida passada e com seus assassinos e isso dispara um gatilho no seu subconsciente. Outros gatilhos serão disparados na sequência, principalmente quando ele visita sua antiga casa que está à venda em Primrose Lane. Ali ele lembra da família, em uma cena tocante sobre memórias resgatadas e passados que não vão voltar. São as memórias que definem quem somos, nossa identidade, como chegamos até aqui.

Boddiker e sua turma estão negociando drogas em uma refinaria, RoboCop derruba a porta na porrada e acaba com a porra toda feito Eliot Ness na batida bem sucedida de “Os Intocáveis”, mas com muito mais mortes. Segundo Verhoeven, o Jesus americano deve ter armas. RoboCop é Jesus expulsando os camelôs do Templo de Jerusalém. O massacre no meio de toda a cocaína que voa pelos ares é daquelas cenas que você comemora como um gol do seu time. É um exército de um robô só contra a rapa. Um autêntico tiroteio delícia que termina com RoboCop aplicando o castigo que Boddicker merece. Mas Boddicker é malandro e entrega que trabalha para Dick Jones, o segundo homem da OCP. Preso, mas ciente da impunidade reinante, Boddicker ri da lei e cospe sangue na papelada da delegacia. Um cuspe na cara da sociedade.

Nosso herói agora tem provas contra Dick Jones e se torna uma ameaça. Ao enfrentar o sistema, começa sua ruína: uma diretriz secreta em sua programação o impede de prender um superior da OCP. A diretriz 4 representa muita coisa errada, as famosas carteiradas, a imunidade parlamentar, a impunidade dos poderosos, todos aqueles subterfúgios jurídicos que fazem com que só os pobres sejam presos. Na OCP, diante de um RoboCop sem ação e dando tilt, Dick Jones declama a frase clássica enquanto solta a besta fera ED-209 pra cima dele:

“Tive que matar Bob Morton porque ele cometeu um erro, agora é hora de apagar esse erro.”

RoboCop toma uma surra e vemos seu olho por trás do visor de LED quebrado, a prova de que ele ainda é humano. ED-209 não tem olhos, não tem sentimentos e também não consegue descer escada, rolando e esperneando feito um bebê chorão. Após deixar pra trás o inimigo cibernético, RoboCop tem que enfrentar o inimigo humano: seus colegas policiais que o fuzilam sem dó. O plano do herói rastejando com as metralhadoras pipocando atrás é emblemático. Todo herói tem que ter seus dias de vilão, ser perseguido por aqueles que o exaltavam, provar sua honra oferecendo a outra face. Cada herói tem sua cruz para carregar.

Lewis o salva e ambos voltam à velha siderúrgica onde tudo começou, enquanto a polícia entra em greve e a cidade abraça o caos. Tinha que ser uma siderúrgica, símbolo da Revolução Industrial que, em última instância, criou o policial de metal. É ali que Murphy morre e é ali que, coberto de metal, ele vai revelar seu antigo rosto humano, desparafusando o capacete, e renascer. A ótima maquiagem cria uma confusão mental: o rosto de verdade é que parece falso, como se fosse uma máscara para o corpo metálico, esse sim realista. Não se sabe mais se ele é um homem com corpo de máquina ou uma máquina com restos humanos.

No clímax, a gangue de Boddicker parte para a caça e vai sucumbindo um a um: Leon Nash (Ray Wise, o pai da Laura Palmer) explode em um guindaste; Emil (Paul McCrane) tem o destino mais trágico no lixo tóxico, derretendo e sendo atropelado em uma cena fantástica de filme de terror; RoboCop até caminha sobre a água antes de mandar Boddicker para o inferno com uma espetada na jugular. Eliminada a bandidagem do nível inferior, RoboCop vai acertar contas com o verdadeiro chefão, Dick Jones. Um ED-209 está na porta da OCP, mas RoboCop o manda pelos ares sem cerimônias, como Indiana Jones na clássica luta contra o espadachim árabe.

O filme começa e termina na sala de reuniões da OCP, onde as decisões são tomadas. RoboCop apresenta as evidências contra Dick Jones, mas ainda não pode matá-lo. Dick Jones comete um erro: toma o “old man” como refém e é demitido, anulando a diretriz 4. Eliminada a burocracia, RoboCop se vê livre para descarregar a arma nele. Sim, sua demissão foi a sua morte. É tudo tão genial que Jones ainda despenca do prédio, uma queda simbólica, suicida, para um alto executivo que acabou de ser demitido. O “old man” então diz:

“Belo tiro, filho. Qual o seu nome?” 
“Murphy!”

Nesse último diálogo aparentemente simples muita coisa fica nas entrelinhas: o velho assume a paternidade de RoboCop ao chamá-lo de filho, mostrando quem manda de verdade na OCP; a morte de Dick Jones é tratada com o mesmo desprezo com que a morte do voluntário do começo do filme, porque executivos são todos iguais, todos substituíveis, todos puxa-sacos sem personalidade como Johnson (Felton Perry), eles são mais robôs que o próprio RoboCop; e finalmente Murphy reassume sua identidade e, portanto, sua humanidade.

Martin Scorsese diz que os filmes que você vê por volta dos 13 anos são os que mais impressionam para o resto da vida. “RoboCop” chegou até mim nessa fase facilmente impressionável, via locadora de vídeo. Perdi as contas de quantas vezes revi e de quantas vezes repeti algumas de suas citações clássicas, mas o filme vai além desse sentimento nostálgico e é mais relevante para os dias atuais do que parece. Estão fazendo uma estatua para ele em Detroit, como a Filadélfia tem seu Rocky Balboa. O nosso José Padilha lançou um remake em 2014 que, entre erros e acertos, já foi devidamente esquecido. Já a força do original continua viva. E nossa sociedade cretina continua por aqui, prontinha para ser esculhambada. RoboCop, super-heróis, capitalismo, violência, criminalidade, população em pânico, grandes corporações sem escrúpulos e crises existenciais nunca saem de moda.