Superman e o herói que não podemos ser

("Superman", 1978, Dir.: Richard Donner)

Super-heróis já foram bem raros. Hoje, eles estão por toda parte. Rara é a semana que não tem um deles em cartaz no cinema ou estreando em algum seriado. Você conhece a jornada do herói: seu filme é lançado, aí vem a sequência, aí vem outra, aí ele se junta a outros, aí eles brigam entre si, aí vem o reboot e começa tudo de novo. Porém, por mais divertidos que sejam esses filmes, não há um único exemplar recente que tenha gravado uma imagem na minha memória, uma trilha sonora para assoviar por aí, nada. Eu sou da época em que os super-heróis eram raros, marcantes, grandiosos, verdadeiras divindades.

Tenho várias lacunas na minha formação nerd, como o fato de nunca ter visto graça em RPG, em "Star Trek" e não ter lido muitos quadrinhos de super-heróis na infância. Aprendi a ler por volta dos 5 anos com gibis da Turma da Mônica, do Tio Patinhas, da Luluzinha e a providencial ajuda de duas irmãs com habilidades pedagógicas. Os gibis de super-heróis nunca fizeram parte dessa turma. Quando entrei em contato com eles, peguei alguma história no meio e notei que esse nicho exigia dedicação e uma porção de dinheiro. Parecia uma festa para a qual eu não havia sido convidado.

Eu conhecia os personagens da DC graças ao desenho animado dos Super Amigos nas manhãs da Globo. Da Marvel, era aquele desenho bem pouco animado, quase estático, que passava em outro canal qualquer que eu não assistia. Nenhum deles chegava aos pés do anime Menino Biônico, minha obsessão na época. A capa vermelha que minha mãe costurou podia enganar os incautos, mas eu sabia que era do Menino Biônico, o robozinho com síndrome de Pinóquio.

Aprendi a escrever rabiscando em cima de um álbum de figurinhas do filme do Superman. Aquele álbum gravou imagens no meu cérebro para sempre, como os gibis e as fábulas infantis costumam fazer. Até hoje não sei o que ele estava fazendo lá em casa, assim como um livro com a história do "King Kong" de 1976 que ficava no criado-mudo dos meus pais e eu sempre folheava. Crianças são como bichos, elas fuçam partes da casa que ninguém nota e fazem de qualquer pedaço de papel algo relevante. O super-bebê levantando a caminhonete dos pais adotivos, o super-adulto usando o próprio corpo para remendar o trilho do trem, tudo isso é relevante.

Cada exibição de Superman na TV nos anos 80 era um evento. Lembro de ter ido embora mais cedo da festa de aniversário de um amigo para ver uma das reprises, uma questão de prioridades. Eu não tinha a cultura das HQs, mas precisava ver e rever as figurinhas do álbum ganhando movimento.

Eu costumo gostar mais dos segundos capítulos de cada herói, quando as regras já foram estabelecidas e ele pode apenas executar seu trabalho sem maiores explicações: o segundo Batman do Tim Burton, o segundo X-Men do Bryan Singer, o segundo Homem-Aranha do Sam Raimi e o segundo Batman do Christopher Nolan são os melhores exemplares do gênero. Em comum, todos tiveram o chamado “filme de origem” para explicar como tudo começou, e todos esses filmes de origem foram influenciados pelo "Superman" do Richard Donner, o pioneiro entre os filmes modernos de super-heróis, o Poderoso Chefão da categoria— tem o Marlon Brando e história do Mario Puzo, não deve ser coincidência. O personagem nunca foi meu favorito. O seu filme, sim.

"Superman" é tão filme de origem que começa mencionando o contexto no qual Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o personagem: 1938, quando os EUA ainda sentiam os efeitos da Grande Depressão e a Segunda Guerra estava prestes a explodir. Antes de começar pra valer, ainda há uma subtrama que só seria reaproveitada na continuação: Jor-El (Marlon Brando) prende o General Zod (Terence Stamp) e seus comparsas na Zona Fantasma, eles são jogados no espaço e esquecemos deles lá.

A partir daí, o filme segue o seu rumo: Krypton vira poeira estelar; o bebê Kal-El viaja para a Terra; acompanhamos a rápida adolescência de Clark Kent (Jeff East) em Smallville com os pais adotivos Jonathan (Glenn Ford) e Martha Kent (Phyllis Thaxter); a transição para a fase adulta (Christopher Reeve) com a construção da Fortaleza da Solidão no Polo Norte; a mudança para Metrópolis, o emprego como repórter do Planeta Diário, o chefe Perry White (Jackie Cooper), o colega Jimmy Olsen (Marc McClure) e o amor por Lois Lane (Margot Kidder); a identidade secreta que não pode ser revelada pois os inimigos podem machucar quem ele ama; a ameaça do vilão Lex Luthor (Gene Hackman); e então Superman salva um monte de gente, beija a mocinha, prende os bandidos e fim.

Uma trama simples, costurada por uma porção de roteiristas, consultores e palpiteiros creditados. Tem seus furos, mas ainda é o manual a ser seguido, o beabá do gênero e um exemplo clássico da jornada do herói de Joseph Campbell. Superman é o escolhido destinado a grandes feitos. Exilado aos 18 anos, ele conhece seu passado e a si mesmo, como Jesus Cristo, Batman, Luke Skywalker e tantos outros super-heróis. 12 anos depois, ele volta para a civilização para cumprir seu destino.

O pai é seu tutor póstumo. Marlon Brando é Deus enviando o filho para salvar a Terra porque os seres humanos precisam de uma luz, um guia. O diretor Richard Donner se destacou com o filho do capeta em "A Profecia" e foi direto para o filho de Deus em "Superman". Jor-El é também o cientista que profetizou o apocalipse de Krypton, desobedeceu o Conselho e despachou o filho em uma cápsula que lembra o cesto no qual o bebê Moisés navegou pelo Rio Nilo. A kryptonita é o seu calcanhar de Aquiles, porque é sempre bom lembrar que estamos falando de mitos. Como um bom deus mitológico, o espectro de Jor-El permanece presente dando conselhos como:

É proibido para você interferir na história humana!

O deus Brando e o diabo Gene Hackman se destacam nos créditos antes do messias Christopher Reeve, porque não é de hoje que os heróis da DC são coadjuvantes em seus próprios filmes. Apesar de ser a terceira força dos créditos, Reeve nunca encontrou adversário à altura na interpretação do Homem de Aço. O modo como ele muda o tom de voz e a postura entre Superman e o atrapalhado Clark Kent ainda é referência no quesito identidade secreta. Não são só os óculos.

Em 1978 ainda não havia a cultura do filme de super-herói, mas já havia o impacto de “Guerra nas Estrelas”, lançado no ano anterior. O “Superman” de Donner é um parente próximo do filme de George Lucas, especialmente nos cenários de John Barry e, é claro, na trilha de John Williams, até hoje responsável pelo maior tema da super-herói já criado. Às vezes prefiro os filmes de super-heróis aos quadrinhos justamente porque gibis não têm trilha sonora. Além de um arqui-inimigo, um superpoder, uma namoradinha e um ponto fraco, todo super-herói devia ter sua trilha sonora.

Alguns cenários de Krypton deviam ser sobras da Estrela da Morte que estavam perdidas em um canto dos Pinewood Studios. Tanto Krypton quanto a Fortaleza da Solidão envelheceram mal e parecem alegoria de escola de samba, assim como os figurinos de papel alumínio dos kryptonianos. Já o QG subterrâneo de Lex Luthor é uma maravilha digna de vilão de James Bond, uma pequena Grand Central Station com um cômodo alagado para virar piscina. Gene Hackman rouba todas as cenas e seu Luthor é tão Blofeld que não mostra o rosto em sua primeira participação, apenas as traquitanas que disparam armadilhas para matar policiais. Além da careca, ele ainda tem uma comparsa bem Bond Girl, a Senhorita Teschmacher (Valerie Perrine), que se derrete pelo nosso herói.

Como Blofeld, Luthor também faz questão de contar seu plano ao herói antes de (tentar) matá-lo. Luthor é um gênio do crime de ego inflado e pinta de gângster que está preparando o crime do século: ele pretende desviar mísseis do exército para a falha de San Andreas, separar a California do continente e faturar com os terrenos que comprou a preço de banana no meio do nada. É como se alguém resolvesse jogar o Rio de Janeiro no oceano e Minas Gerais ganhasse praias super valorizadas. Hoje, qualquer vilãozinho vagabundo quer destruir a galáxia inteira com artefatos do além. O plano de Luthor era simples: especulação imobiliária.

Há toda essa inocência das antigas em "Superman". A incrível sequência do helicóptero pendurado no topo do Planeta Diário, quando o herói se revela para salvar a amada em perigo, trocando de roupa na porta giratória, é toda clássica. A montagem seguinte com as resoluções de vários crimes inclui o estratégico resgate de um gatinho na árvore. Nada pode ser mais pueril do que isso, talvez apenas a ideia de que o jornalismo seja a única profissão possível para um defensor da verdade e da justiça. Bons tempos, hein? Mais adiante Superman vai voar romanticamente com a amada Lois, enfim usando seus poderes para impressionar uma gatinha depois de anos de repressão. A criançada de hoje, acostumada a heróis irônicos, psicóticos e de caráter duvidoso não deve nem entender o que isso tudo significa.

Na minha jornada particular no universo dos quadrinhos, levei um tempo para ter acesso às graphic novels, essas maravilhas encadernadas com começo, meio e fim. Então adotei Batman como meu favorito graças a Alan Moore, Frank Miller e Tim Burton — a Batmania foi implacável em 1989. Batman é um super-herói todo errado, seu superpoder é uma herança, ele é sombrio, traumatizado e quebrado. Ideal para adolescentes deslocados com necessidade de terapia. O Superman é o oposto. Ele é insuportavelmente perfeito, indestrutível, colorido, o escoteiro bonzinho que não mente, não bebe, não fuma, respeita as autoridades e ajuda a velhinha a atravessar a rua. Ideal para crianças que precisam de um bom exemplo para a vida. E também para os ufanistas da América, é claro.

Estou aqui para lutar pela verdade, pela justiça e pelo modo de vida americano!

Dizem que o Superman não mente, o que não impede que seu filme minta à vontade. Pra começar, Metrópolis é apenas o nome fantasia de Nova York; Jor-El, cientista brilhante de uma civilização evoluída, precisa citar o humano Einstein pra explicar as regras de uma viagem espacial e isso não faz o menor sentido; quando Clark atende o chamado de Luthor e pula da janela do Planeta Diário, ele se transforma em pleno voo, sem precisar se trocar. O filme muda suas próprias regras e isso é lamentável.

A sequência final, com Jimmy e Lois em perigo, muitos desastres acontecendo e Superman tendo que resolver tudo ao mesmo tempo é bem angustiante, principalmente porque comete a ousadia de matar a mocinha soterrada em uma cratera. Então temos a mãe de todas as mentiras, a cena que eleva a suspensão de descrença a novos patamares e desgraça a cabeça dos professores na aula sobre rotação da Terra: é quando Superman gira o planeta ao contrário, fazendo o tempo voltar e salvando a vida da amada.

Eu avisei que o Superman era pra criança. É um filme de super-herói que usa cueca em cima da calça, não é ficção científica.

Independente do que aprendemos na escola, vamos usar o supertrunfo da licença poética e tentar focar no significado da coisa toda. Ao voltar o tempo, Superman desobedece a ordem do pai e interfere na história humana, deixando de ser o escoteiro perfeitinho. Além disso, ele contraria o pai da mesma forma que o pai havia contrariado o Conselho de Krypton, assumindo a sua história, a sua genética e o seu destino. Superman testa os limites dos seus poderes e da nossa capacidade de acreditar. Só assim, executando um milagre, ele pode se provar um Deus.

A maior mentira do filme talvez seja a sua primeira linha de diálogo, quando Marlon Brando diz:

Isso não é fantasia.

O personagem nos diz isso como uma mãe tentando provar ao filho que Papai Noel existe. O filme todo pede para que você acredite em alguma coisa. "Você vai acreditar que um homem pode voar", dizia o pôster. Entre tantos atrativos que poderiam ser explorados na superprodução do herói mais famoso de todos, o marketing escolheu a ingenuidade de um homem voando, um sonho infantil. Acredite na utopia.

Como diria o finado super-herói David Bowie, nós poderíamos ser os outros heróis: basta uma picada de inseto radioativo, um treinamento ninja intensivo, uma simples mutação genética e você está pronto para combater o crime. Esses heróis têm suas vidas humanas e de vez em quando vestem um uniforme para defender os fracos e os oprimidos. O Superman não, ele é um super-herói natural. Sua identidade principal é aquela de capa e uniforme. Ele não precisa se esforçar para ser super. O filme de Donner tem uma aura de magia que transmite isso em cada tomada/figurinha/quadrinho, fruto do lindo trabalho do diretor de fotografia Geoffrey Unsworth, a quem o filme é dedicado (ele morreu antes do filme ser lançado). Volto para o plano do bebê levantando a caminhonete, tão simples e diz tanta coisa.

Tudo parece simples no "Superman" de Donner, aí você vê a DC apanhando para relançar o personagem para as novas gerações e conclui que: a) não há mais espaço para a honestidade do Superman nos dias cínicos de hoje; ou b) quatro décadas depois, o filme ainda ofusca qualquer nova empreitada. Esse é o poder de um mito. J.J. Abrams foi humilde e esperto ao reciclar "Guerra nas Estrelas", o episódio IV, no seu episódio VII. Zack Snyder foi menos esperto ao abandonar as lições de Donner e criar um Superman escuro e amargurado. São poucos os cineastas capazes de entender a importância da mitologia e criar algo novo em cima dela — M. Night Shyamalan deu aula disso em "Corpo Fechado", mas nem todos estavam prestando atenção.

Jor-El tinha razão, a humanidade precisa de super-heróis. Eu já encarei jogadores do meu time de futebol e músicos das minhas bandas favoritas como super-heróis. Pra mim eles nunca foram meros atletas ou músicos, mas sim criaturas superpoderosas à prova de balas capazes de salvar a humanidade das garras do mal. Quando criança, eu tinha instrumentos de brinquedo e empunhava uma guitarra de papelão como se fosse uma espada. Adorava ver os clipes do Globo Esporte com meu time entrando em campo com músicas triunfantes e até hoje odeio ver jogador inseguro, medroso e com cara de choro vestindo a camisa dele. Se eu quisesse encarar a fragilidade do ser humano, ficaria em casa olhando pro espelho e refletindo sobre a minha vida. É uma maneira doentia de encarar pessoas de carne e osso que só estão lá desempenhando suas funções profissionais? Lógico. Mas nós precisamos das mitologias. Precisamos acreditar em alguma coisa.

Ninguém acredita em super-heróis, está bem claro que eles pertencem a um mundo de fantasia. Talvez, com o tempo, a humanidade passe a acreditar neles da mesma forma que acredita em horóscopos e duendes. Eu espero que aconteça. Já que não dá pra acreditar nos seres humanos, nas suas religiões fajutas e nos seus líderes vilanescos, vamos acreditar em super-heróis. Pelo menos eles não querem nos fazer acreditar que são de verdade.