Twin Peaks e os enigmas do nosso mundo

("Twin Peaks: Fire Walk With Me", 1992, Dir.: David Lynch)

Aviso: se não quiser saber quem matou Laura Palmer, pare por aqui.

Entre o final de 1989 e o começo de 1990, a TV americana lançou duas séries que mudariam tudo dali pra frente: a animada "Os Simpsons" e a cinematográfica "Twin Peaks". Foi um período mágico para quem, como eu, via muita TV na época, antes da popularização da TV a cabo, décadas antes dos serviços de streaming e antes de séries como "Família Soprano" determinarem novos padrões para o formato. Quem viu "Guerra nas Estrelas" no cinema em 1977 deve ter sentido a mesma coisa. São poucos eventos desse porte que testemunhamos durante a vida.

No meio de 1989 os americanos já viam "Seinfeld", sitcom de formato clássico e conteúdo revolucionário. No começo de 1988, eles tinham "Anos Incríveis", que já mostrava um cuidado mais cinematográfico na produção. Mas até termos acesso a elas por aqui levou um tempo. Na TV aberta, nós tínhamos que nos virar com as preciosidades da “Sessão Aventura” e da "Sessão Comédia" na Globo. Eram exibidas a esmo, de acordo com a necessidade da programação, coisas do tipo “A Ilha da Fantasia”, “Magnum”, “Profissão: Perigo”, “A Gata e o Rato” e os chamados enlatados, nada que pudesse ser levado muito a sério. Eu só fui aprender o conceito de "temporada" anos depois. Nunca passou pela minha cabeça que "Moto Laser" só teve uma temporada. Eu tinha até brinquedo da Glasslite, como aquilo podia ser um fracasso? Ninguém tratava o bom e velho seriadinho com respeito, não havia notícias na mídia, teorias malucas de fãs, spoilers, nada.

Então chegaram os Simpsons. Então, Diane, chegamos a Twin Peaks.

O desenho de Matt Groening está por aí até hoje batendo recordes de permanência no ar, a gente quase se esquece dele, faz parte do dia a dia. Já a série de David Lynch e Mark Frost, bem, ela passou como um cometa, foi embora brilhar em outras galáxias e deixou seu rastro de inovações nas séries que vieram depois. Tony Soprano e Don Draper em seus momentos mais loucos sabem do que estou falando.

Antes de ser exibida pela Globo, "Twin Peaks" já era notícia por aqui. Os rumores vieram de longe, os jornais começaram a fazer especulações: havia uma série nova nos EUA que era diferente de tudo que a gente já havia visto na TV. O hype era forte e os Estados Unidos se perguntavam “quem matou Laura Palmer?”. O whodunit não era novidade desde os tempos de Agatha Christie, já havia feito a fama da novelona "Dallas" e aqui no Brasil, um ano antes de Laura Palmer, todos nós queríamos descobrir quem matou Odete Roitman.

Porém, em "Twin Peaks" nada era o que parecia ser. O buraco era sempre mais embaixo e um clichê era sempre mais saboroso, principalmente porque havia um cineasta diferente como David Lynch ali brincando com ele, virando tudo do avesso. Aparentemente, um melodrama com um crime misterioso em uma pacata cidadezinha americana. Atrás da cortina, uma exercício cinematográfico com conteúdo capaz de subverter o estilo de vida americano em pleno horário nobre. "Twin Peaks" foi uma série “de autor”e Lynch abriu caminho para os outros Davids brilhantes que viriam depois: Chase ("Família Soprano"), Simon ("The Wire") e Milch ("Deadwood").

Equilibrando-se entre as limitações de um formato careta como a TV e seu estilo próprio, Lynch nos mostrou que tudo tem, no mínimo, dois lados. Do lado humano, todo mundo tem um segredo, na maioria das vezes um amante. A vida não é muito diferente de “Invitation to Love”, a novela cafona que muitos personagens acompanham: tramas banais com amores adolescente enfadonhos, intrigas no mundo dos negócios, dúvidas sobre paternidades e muita gente pulando a cerca. Mesmo quando são adicionados elementos policiais como tráfico de drogas, jogo ilegal, investigação de assassinatos e uma rede de prostituição, tudo parece um grande clichê de TV com um verniz cinematográfico por cima. Existem planos forçadíssimos dos policiais da cidade fazendo pose de heróis e o fato de um deles chorar toda vez que vê um cadáver indica que você não deve levar essa pose a sério.

Atrás da máscara de cartão postal há um outro mundo, o lado desumano da dimensão paralela que vai se revelando aos poucos entre sonhos e sinais do além, entre filosofia budista e metafísica. É onde o bicho pega de verdade. Personagens bizarros, doppelgängers, frases de efeito enigmáticas, poemas com profecias, aquela sala com cortinas vermelhas e um anão que fala ao contrário… Até hoje, tantos anos depois, você se pergunta como uma grande emissora de TV aprovou e veiculou aquilo.

Há ainda aqueles incríveis personagens que fazem a ponte entre os dois mundos, como a Senhora do Tronco, a Senhora Tremond e seu neto, entre outras figuras que não deveriam andar soltas na rua, mas que neste universo específico são tratadas com respeito. Talvez o louco seja só uma pessoa que sabe demais.

No mundo humano, é importante saber quem matou Laura Palmer, pois há saudade, desejo de vingança e a justiça dos homens precisa prevalecer. No lado desumano, nada disso importa. Ali Laura Palmer ainda vive e o mal que existe no mundo jamais será aprisionado. Pelo contrário, ele está cada vez mais forte se alimentando do nosso medo como um bicho papão de adultos.

"Twin Peaks" começa com o descobrimento do cadáver de Laura Palmer (Sheryl Lee). Linda, loira, rainha do baile de formatura, namorada do capitão do time de futebol, estudiosa, religiosa, dedicada, um exemplo para a cidade. O crime choca Twin Peaks e parece ter ligação com outros assassinatos. O FBI entra no caso, enviando à cidade o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan), que se encanta com a vegetação e a gastronomia locais, possui métodos não muito convencionais de investigação, deixa a polícia local atordoada e começa a descobrir segredos sórdidos da vida de Laura e dos demais moradores. A doce menina, quem diria, poderia estar tomando drogas, prostituindo-se, ligada a magia negra e participando de orgias com metade da população masculina local.

Nós não chegamos a conhecer Laura Palmer em vida. Sabemos quem ela é através dos relatos e das memórias dos outros. São os habitantes de Twin Peaks os storytellers e os showrunners responsáveis por construir uma das personagens mais fascinantes da história da TV. E mesmo sem conhecê-la, sentimos sua morte graças a um episódio piloto impecável que é uma hora e meia de puro luto e sofrimento.

A cidadezinha é um microcosmo particular, com regras próprias. Os personagens que viajam para fora dela não são mostrados, como se tivessem saído da brincadeira. No máximo vemos as rodovias ao redor ou o Jack Caolho, puteiro e cassino logo do outro lado da fronteira com o Canadá. No geral, o mundo exterior não interessa. Interessam o Great Northern Hotel, o Double R Diner, o Roadhouse, a delegacia, a escola, as casas suburbanas que escondem terror em cada espelho, acima da escada, atrás da cama ou do sofá. Bastam alguns episódios para você começar a se sentir em casa nesses cenários, a salivar com os donuts e tortas de cereja e a apreciar um bom café preto como a noite sem luar.

"Twin Peaks" estreou nos EUA pela ABC em 1990 com audiência recorde. A febre varreu o mundo. Exibida pela Globo nas noites de domingo, repetiu o êxito por aqui. Porém, a emissora mutilou a série, reeditou episódios e não exibiu tudo, um desrespeito absurdo. Anos depois, a Record comprou os direitos e exibiu a série na íntegra, na ordem correta. Foram ao todo 29 episódios divididos em 2 temporadas. A filha de Lynch, Jennifer, aproveitou para lançar o livro “O Diário Secreto de Laura Palmer” e em alguns países, inclusive no Brasil, o episódio piloto foi lançado em vídeo acrescido de um final improvisado que servia de consolo para quem nunca viu a série.

A primeira temporada é irretocável, apresenta seus fascinantes personagens, estabelece as regras do jogo e lança uma infinidade de mistérios no ar. O começo da segunda mantém o nível lá no alto até o tiro sair pela culatra: o whodunit responsável pela fama da série acabou sendo também sua ruína. Se dependesse de Lynch, provavelmente nunca saberíamos quem matou Laura Palmer. Porém, os executivos da ABC pressionaram os autores para que eles revelassem logo a identidade do assassino e depois disso tudo foi ladeira abaixo.

Diz a lenda que Frank Silva, um dos técnicos da equipe de filmagem, apareceu sem querer no reflexo de um espelho enquanto a mãe de Laura chorava a morte da filha. Lynch corrigiu a falha criando um papel para ele: Bob, o espírito maligno que assombra a família Palmer há anos, chegando a possuir o corpo de Leland para matar. Um demônio que se alimenta de dor e tristeza (Garmonbozia), o tal do bicho papão. Então segura esse spoiler de 25 anos atrás: quem matou Laura Palmer foi seu próprio pai possuído pelo espírito de Bob. Foi meu primeiro grande spoiler, já que a Folha fez o favor de contar antes.

Por mais que o mistério tenha sido resolvido sob pressão, há que se louvar um enredo baseado em possessão e incesto no horário nobre.

Com o grande mistério elucidado no meio da segunda temporada, "Twin Peaks" perde o rumo entre subtramas sem graça, algumas delas bem embaraçosas e outras que desafiam os limites do bom senso. Roteiristas perdidos, David Lynch longe da direção e uma trama que sobrevive na inércia graças ao carisma de seus personagens. Até a trilha maravilhosa de Angelo Badalamenti é mal utilizada, servindo de muleta para tentar imprimir emoção em cenas completamente inúteis. Do pouco que se salva dessa fase tenebrosa, destaca-se a presença de um jovem David Duchovny pré-"Arquivo X" no papel de um agente crossdresser do departamento de narcóticos. Seu Fox Mulder herdaria muito de Dale Cooper poucos anos depois. Quando "Arquivo X" foi lançado nos EUA, a Folha divulgou uma nota dizendo algo como: "as viúvas de 'Twin Peaks' já têm uma nova série para abraçar", o que despertou meu interesse na hora. Sempre sonhei com Fox Mulder e Dana Scully investigando a cidade de Twin Peaks, deve haver uma fanfic assim em algum lugar obscuro da internet.

Essa fase ruim é um teste de paciência que deve afastar muitos incautos. Eu posso até reclamar, mas passaria mais uns 20 episódios só vendo Cooper tomando café e se encantando com a beleza do interior, Audrey Horne saracoteando pelo Great Northern, Gordon Cole xavecando Shelly Johnson, Ed Hurley encarando suas mágoas como se vivesse em alguma música do Bruce Springsteen… Você se apega a esses personagens.

Lá pelo final da segunda temporada, quando a vaca já tinha ido pro brejo, a coisa melhora com os jogos mortais de um novo vilão, novos personagens com função exclusiva de ocupar vaga de par romântico e uma imersão maior no black lodge, onde as entidades do além habitam, onde há sempre música no ar. A partir daí, a temporada deslancha até a volta de David Lynch em grande estilo no antológico episódio final. Talvez ciente de que sua criatura caminhava para a cova, Lynch adotou o lema "tá no inferno, abraça o capeta" e entregou o episódio mais insano de toda a série. Em vez de responder a todos os mistérios pendentes, ele deixa ainda mais perguntas no ar. Entre outros motivos mais ligados ao enredo e aos destinos de muitos personagens importantes, o final da série é chocante por te tirar abruptamente de uma experiência única, como ser acordado por um despertador chato durante um sonho fascinante. E assim, melancolicamente, "Twin Peaks" saiu do ar para entrar para a história.

Em 1992, quando ninguém mais se importava com "Twin Peaks", David Lynch lançou o filme "Twin Peaks — Os Últimos Dias de Laura Palmer", que mostra a última semana de vida de Laura e tudo que ela aprontou no período. Ninguém entendeu nada. Não tinha vários personagens importantes, não tinha a querida Audrey Horne, outra atriz interpretava Donna Hayward, núcleos inteiros foram devidamente ignorados. Apesar de todo o sucesso que a série teve em seu início, o filme ficou pouquíssimo tempo em cartaz no circuito alternativo e depois sumiu. Só consegui assistir quando a Revista Caras (?) deu de brinde. A crítica odiou, parecia um exercício de sadismo, quem é que quer passar mais de duas horas acompanhando o calvário de uma linda moça rumo à morte certa? Do topo do sucesso no mainstream da TV ao underground do cinema independente, "Fire Walk With Me" é o filme mais maldito de um diretor que não é conhecido por fazer filmes fáceis.

Mas o tempo, ele faz maravilhas por uma obra de arte. Depois de obras-primas como "Estrada Perdida" e "Cidade dos Sonhos", que elevaram as estranhices de "Veludo Azul" a novos patamares, passamos a compreender melhor o que se passa na mente sonhadora de David Lynch. Assim, uma revisão de "Os Últimos Dias de Laura Palmer" ganha muitos outros significados. Ele não foi feito para agradar fanboy de seriadinho. Que se danem a Serraria Packard e os negócios do Ben Horne. É um filme de David Lynch, com todo o senso de humor, de terror e de semiótica onírica que se espera dele. Uma oportunidade para nós enfim conhecermos Laura Palmer e seu caminho rumo à libertação, materializando o que havia sido sugerido na série. E é um filme desgastante que acaba com a sua raça, cheio de Garmonbozia como os melhores episódios da TV.

"Os Últimos Dias de Laura Palmer" começa dando um drible no subtítulo nacional ao recuar 1 ano no tempo. Os créditos aparecem sobre uma TV fora do ar que é destruída pelo assassino, uma forma nada sutil do diretor sepultar a linguagem televisiva e se vingar do canal que atrapalhou seu trabalho. A TV terá outro papel significativo mais adiante, quando o agente Cooper confrontar sua própria imagem presa dentro de um monitor de segurança. Ele está preso ali como se a TV fosse o próprio black lodge.

Como a série, o filme começa com o cadáver de uma moça loira enrolado em plástico e boiando no rio, mas a loira dessa vez é Teresa Banks (Pamela Gidley), a primeira vítima do assassino de Laura. São 33 minutos de um prólogo lindo que aborda a investigação do caso sem chegar à conclusão alguma, é lógico. O agente do FBI Chester Desmond (o cantor Chris Isaak) e o legista Sam (Kiefer Sutherland) vão investigar o mistério em uma cidade que é uma doppelgänger da própria Twin Peaks. Lá o xerife local está longe de ser receptivo e generoso como Harry Truman e sua turma, a garçonete do diner local é uma bruxa longe da doçura de Norma Jennings e, no lugar do exuberante Great Northern Hotel, temos um parque de trailers nojento tocado por um Harry Dean Stanton todo desgraçado.

O FBI de David Lynch, que aparece novamente como o agente Gordon Cole, é uma instituição muito louca onde todos os agentes têm métodos pouco ortodoxos, os briefings são passados por meio de códigos em mímicas, arquivos X fazem parte da rotina (aqui eles chamados de “casos rosa azul”) e um agente desaparecido, Phillip Jeffries, reaparece do nada dizendo coisas sem sentido para logo depois desaparecer novamente. Seria só mais um personagem maluco no universo de Twin Peaks, se não fosse interpretado por David Bowie. Você tinha alguma dúvida de que Bowie era um desses gênios com acesso a dimensões paralelas, um dos loucos que sabem demais?

Cooper, que tem uma conexão espiritual com Laura Palmer na vida e na morte, sente que o assassino de Teresa Banks atacará novamente, não se sabe quando, nem onde. Um ano depois, o tema de Angelo Badalamenti e a placa na entrada da cidade avisam que estamos em Twin Peaks. Enfim começam os últimos dias de Laura Palmer.

Em poucos minutos, Laura se apresenta e dá o seu show: cheira coca no banheiro da escola, manipula todos os homens ao redor, trai o namorado e paga peitinho (na TV pré-domínio da HBO não podia). Sexo, drogas, autodestruição. Ela é aquilo que as jovens de hoje chamariam de "intensa". Atrás dessa aparência, porém, está a menina amaldiçoada que convive com a presença maligna de Bob desde os 12 anos e sabe que está com os dias contados. Durante o filme ela vai descobrir que seu pai está mesmo possuído e que eventualmente ele irá matá-la.

Laura foi criada para ser uma moça recatada do lar, mas não consegue se sentir segura e feliz em lugar nenhum, especialmente em casa. Levando-se em conta apenas o filme e o começo da série, "Twin Peaks" poderia ser a história de uma menina molestada constantemente pelo próprio pai, com uma mente traumatizada e destruída pelas drogas que criou toda uma fantasia de horror para fugir da dura realidade. Um conto de fadas sem final feliz, uma forma de aguentar a vida até a morte chegar.

E enfim ela chega, em mais uma noite que já havia sido reconstruída passo a passo na série: as despedidas dos descartáveis Bobby e James, respectivamente namorado e amante; a orgia com Leo, Jacques, Ronette e o pássaro Waldo na cabana da floresta; e o assassinato brutal no vagão de trem. Laura faz a transição e assume seu lugar no black lodge, onde encontra Cooper e um anjo. Descanse em paz, Laura.

Apesar do descaso pelo filme, o culto a "Twin Peaks" só cresceu nos anos seguintes. Uma legião de fãs doidos fez o possível para manter o fogo aceso e continuou caminhando ao lado dele. Depois que séries ganharam status de obra de arte, alguém precisava lembrar a humanidade que quem começou com isso foi "Twin Peaks". Durante um bom tempo, fanáticos nus se enrolavam em sacos plásticos e se deitavam nas margens do lago onde o cadáver de Laura Palmer foi encontrado para homenageá-la na data de sua morte. Não sei se eles ainda fazem isso, espero que sim.

A internet fez sua parte para aumentar o culto e 25 anos depois, seguindo uma profecia da própria Laura e campanhas de redes sociais, algum executivo iluminado resolveu deixar o David Lynch brincar de novo. O chiclete que a gente gosta vai voltar à moda com estilo. Vem aí a terceira temporada mais atrasada da história, com 18 episódios dirigidos pelo homem, coisa que nem a série original conseguiu. Tem tudo para marcar época novamente ou ser um tremendo fiasco, parte da graça de “Twin Peaks” é não saber o que se esperar dela. A nova temporada vai responder o que foi deixado no ar há 25 anos? Bem provável que não, mas quem se importa? Quem quer resposta é fã de "Lost", nós queremos é ver o circo pegar fogo.

Na primeira coletiva sobre a série nova, um jornalista perguntou se o filme "Os Últimos Dias de Laura Palmer" fazia parte do "cânone", tratando o novo "Twin Peaks" como o "Star Wars" da Era Disney. Pense bem: tem prequel odiada, fanboys xaropes, uma espécie de religião envolvida… faz sentido. A resposta é óbvia: claro que faz. Uma breve cena de Annie (Heather Graham) visitando a cama de Laura até explica parte do final da segunda temporada! Por mim também teríamos brinquedos a rodo no shopping, camisetas na Renner, até um parque temático… talvez eu tenha que me contentar com uma visita à região de Seattle um dia. Não é só o grunge que veio de lá.

"Twin Peaks" foi a única série que vi várias vezes, em diferentes décadas. A primeira foi ainda em família, minha mãe e minhas irmãs ainda se lembram daquela noite, durante um episódio particularmente tenso, em que a torneira da cozinha abriu sozinha e nós quase morremos de coração. Isso é muito “Twin Peaks”. Use esse jargão toda vez que algo de muito bizarro acontecer em sua vida, quando pessoas sinistras cruzarem seu caminho, quando alguém soltar uma frase sem sentido e sair correndo, quando um sonho ajudá-lo a resolver um problema. O mundo faz mais sentido se você aceitar alguns mistérios e seguir em frente apreciando pequenas alegrias como um bom café.

Em minha longa jornada caminhando ao lado do fogo, eu já tive até um site pesadíssimo feito em flash e hospedado em algum extinto servidor gratuito. Tive uma cachorrinha chamada Audrey e, com todo o respeito à Hepburn, não foi por causa dela. No meu aniversário de 2016, pedi para o simpático Kyle MacLachlan me dar parabéns no twitter e ele atendeu meu apelo, ganhei um feliz aniversário com direito a emoji de café do próprio agente Cooper, você tem noção do que isso representa?

Cooper é um espírito evoluído que acredita nos seus instintos, um romântico incurável que tem lá seus traumas nessa vida, um homem curioso que está sempre disposto a viver uma nova experiência, que segue seus princípios mesmo que vire motivo de piada, que sabe reconhecer a beleza das pequenas coisas. Uma mistura de Sherlock Holmes, Eliot Ness, Fox Mulder e algum mestre jedi. Cooper também é um personagem da cidade grande que chega para mudar a cidade pequena e acaba sendo mudado por ela. Ele acaba ficando por lá, porque ninguém sai de Twin Peaks. Eu nunca saí.