Um Drink no Inferno e os ratos de locadora

(“From Dusk Till Dawn”, 1996, Dir.: Robert Rodriguez)

Tendo passado a adolescência, completado 18 anos e entrado na faculdade nos anos 90, posso dizer que acompanhei de perto o auge do grunge e do britpop, a Era Telê no São Paulo e a ascensão de Quentin Tarantino. “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” marcaram época e podem ser considerados obras-primas, é verdade, mas foi com o roteiro de “Um Drink no Inferno” que o ex-balconista de locadora me conquistou de verdade. Pois foi nessa mistura de policial e terror quase sempre ignorada pelos adoradores mais intelectualizados do cineasta que ele falou a minha língua, o verdadeiro idioma do rato de locadora, como se estivesse fazendo um filme entre amigos só para outros amigos entenderem. Tarantino é o cineasta da piada interna que todo mundo gosta de dizer que entendeu, apesar de nem todos entenderem de fato.

“Um Drink no Inferno” é um filme trash disfarçado de alternativo, ou vice-versa. É tão B que Tarantino não quis dirigir, talvez para preservar sua imagem entre os conceituados membros do juri do festival de Cannes. O cineasta sempre caminhou entre Godard e Roger Corman, procurando se divertir como o segundo e conquistar o mesmo respeito artístico do primeiro. “Um Drink no Inferno” é, sem dúvida, seu lado Corman falando mais alto. Foi seu primeiro roteiro, escrito sob encomenda para Robert Kurtzman, dono de uma companhia de efeitos especiais que pensou em uma história maluca sobre policias e vampiros e precisava de um roteiro para que pudesse ele mesmo dirigir. O tal balconista nerd da locadora pegou o frila, ganhou um dinheiro, abandonou o emprego e foi fazer história. Mais tarde, o roteiro voltou para ele, foi lapidado e entregue para seu amigo Robert Rodriguez dirigir. Rodriguez também tinha alguma reputação na época graças ao fenômeno independente “El Mariachi”, mas como veríamos nos anos seguintes, ele nunca teve medo de sujar as mãos.

Vi “Um Drink no Inferno” na semana de lançamento em 1996, em uma pequena sala do Shopping Ibirapuera com cara de cineclube, tão acanhada que seria impensável em um shopping nos dias de hoje. Fui com amigos da faculdade em meu segundo ano vivendo em São Paulo, quando já tinha gente que eu podia chamar de amigo na faculdade. Talvez seja comum na capital, mas em Leme eu não tinha muitos amigos dispostos a encarar filmes podres com a devoção que eles merecem. Um ou dois, no máximo. Pensando bem, poder conhecer mais gente com esse perfil foi um dos motivos que me trouxeram até São Paulo.

No Brasil não tivemos a tradição dos drive-ins e dos grindhouses, as sessões duplas de filmes apelativos de baixo orçamento que Tarantino e Rodriguez resgatariam mais de uma década depois na dobradinha “À Prova de Morte” e “Planeta Terror”. Depois deles, Tarantino retomou seus projetos mais sérios e virou até figurinha carimbada no Oscar. Já Rodriguez, como eu disse, não tem vergonha na cara e lançou “Machete”, outra bomba apelativa. Mas o início dessa parceria conceitual foi lá em 1996, com “Um Drink no Inferno”, que já era uma sessão dupla em um mesmo filme.

Como nunca tivemos a cultura das sessões lado B por aqui, tive que me contentar com a programação das madrugadas na TV, com os VHS da América Vídeo, com aquelas maravilhosas compilações de contos de terror como “Contos da Cripta” e “Creepshow”, as adaptações nem sempre boas de Stephen King e até o saudoso “Contos de Thunder” da MTV, onde o VJ Thunderbird exibia sua coleção particular de clássicos da Troma. Você pode imaginar a satisfação de um fã desse subgênero esquecido por Deus quando o novo cineasta queridinho do universo coloca-se ao seu lado dizendo ei, eu sou um de vocês, eu vou colocar vampiros nesse filme e eu quero que se foda. “Um Drink no Inferno” veio ao mundo assim, como a versão kinder ovo de “Cães de Aluguel”. Um “Pulp Fiction” bem menos complexo, bem mais tosco e com um twist.

“Um Drink no Inferno” — pausa para louvar este título nacional lindo — tem a estrutura ousada de “Psicose”. Lá no clássico de Hitchcock, a estrela Janet Leigh aplica um golpe na praça, foge com o dinheiro e acaba se hospedando no lugar errado: o Bates Motel, estabelecimento administrado pelo psicopata Norman Bates. Então Janet Leigh morre na cena do chuveiro e o filme deixa de ser sobre um estelionato para se transformar em um filme de horror. Em “Um Drink no Inferno”, George Clooney e Quentin Tarantino são dois irmãos criminosos que estão fugindo da polícia e acabam passando a noite no lugar errado: o Titty Twister, um bar de motoqueiros e caminhoneiros na fronteira do México, infestado por vampiros. A transição não conta com a cena do chuveiro ou a trilha de Bernard Herrmann, mas tem Satânico Pandemonium com Tito & Tarantula, o que me parece uma troca justa.

O filme abre com uma brincadeira que faz mais sentido agora, duas décadas depois. É apresentado o personagem do xerife Earl McGraw, interpretado por Michael Parks. Autêntico representante da cultura redneck do interior da América, McGraw apareceria novamente nos dois volumes de “Kill Bill” e nos dois filmes do projeto “Grindhouse”, mesmo que morra logo no começo de “Um Drink” com um tiro na nuca. Ele estaciona em uma loja de bebidas na beira da estrada no Texas, onde bate papo com o balconista Pete (John Hawkes). McGraw conta sobre seu dia de merda até chegar no assunto que interessa: dois bandidos estão foragidos na região depois de assaltar um banco e matar policiais. O modo solene como o xerife se refere aos criminosos vem da tradição do western, das lendas do velho oeste que se espalham como a poeira do deserto antes mesmo dos bandidos darem as caras no filme.

Logos eles aparecem. Estavam escondidos na loja com reféns e surgem quando o xerife vai ao banheiro. Eles são Seth (Clooney) e Richie (Tarantino). Parceiros não-declarados dos criminosos de “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction”, eles usam os mesmos ternos pretos. O primeiro é o líder mais maduro, cool, centrado, dono das ordens e das melhores falas. O segundo é completamente louco, um maníaco sexual imaturo que depende do irmão para lembrá-lo que ele precisa usar seu aparelho móvel nos dentes. Richie é impulsivo e paranóico, mata o xerife por achar que Pete lhe fez um sinal pedindo ajuda. Começa um explosivo tiroteio, Pete acerta a mão de Richie e é incinerado em meio a garrafas de bebidas quebradas. Antes de morrer, um Pete em chamas ainda atira nos irmãos sem acertar uma única bala, em uma reedição de uma das cenas clássicas de “Pulp Fiction”. Naquele filme, o ato levava um dos personagens a se voltar para Deus. Aqui, diante do fogo e da fotografia avermelhada, parece mais uma previsão de que ambos estão indo para o inferno.

Neste ponto já sabemos que Richie não bate bem. Ele faz um curativo na mão com silvertape e cospe whisky para desinfectar. Caso ainda haja alguma dúvida sobre sua sanidade, temos toda a questão da refém Gloria Hill (Brenda Hillhouse), caixa do banco assaltado cujo nome, “a colina da glória”, é mais um item de conotação religiosa no filme. Sem TV a cabo e canal pornô no quarto do motel vagabundo onde se hospedam, Richie decide se divertir com a refém na ausência de Seth e o resultado, mostrado em flashes que revelam só parte do horror, é mais uma morte para a coleção da dupla. Pela TV um noticiário informa que Richard soltou Seth da prisão, o FBI está na caça dos dois e o placar de mortos está em 16: 5 Texas rangers, 8 policiais e 3 civis. São muitos pecados a pagar no inferno que está por vir.

Somos então apresentados à família Fuller, que viaja em um trailer e é formada pelo pai Jacob (Harvey Keitel) e o casal de filhos Kate (Juliette Lewis) e Scott (Ernest Liu). Jacob é um ex-pastor que perdeu a fé após a morte trágica da esposa em um acidente de carro. Mesmo que “Um Drink no Inferno” não seja lá um grande estudo de personagens, Jacob é o mais interessante deles, com o trágico destino de ter que se envolver com demônios — criminosos e vampiros — para recuperar a fé perdida.

A família Fuller chega ao motel vagabundo da mesma maneira que os irmãos Gecko: Richie e Kate, as crianças, reclamando da falta de TV a cabo ou piscina; Seth e Jacob, os adultos, dizendo que só querem uma cama para dormir. Logo Seth coloca a família em seu plano de fuga, já que o trailer é um bom esconderijo para que eles consigam atravessar a fronteira. Mais que um veículo, o tal trailer é uma pequena casa, o lar dos Fuller que os Gecko vão invadir.

O primeiro encontro entre Kate e Richie mais uma vez demonstra o lado animal e vampiresco dele. Ela está voltando do banho com pouca roupa, os Gecko acabaram de render Jacob e Scott no quarto do motel e Richie, mesmo acordado, tem sonhos eróticos com ela. O erotismo alucinado, neste caso, ganha contornos de horror, porque nós já sabemos como Richie encara o sexo. Com ele, o sexo sempre acaba em sangue e morte. Já no trailer a caminho do México, os dois travam um daqueles diálogos irônicos que Tarantino adora:

“Para onde vocês estão nos levando?”
“Para o México.”
“O que há no México?”
“Mexicanos.”

Na sequência, Richie Tarantino desfruta de seu tradicional momento podólatra cobiçando os pés da moça — e o resto do corpo também. Seu olhar vai subindo até parar no crucifixo que ela carrega no colar e no pescoço, dando mais uma dica de que Richie é algum tipo de vampiro adormecido. Talvez todos os maníacos sexuais sejam, no final das contas.

Richie é um monstro descontrolado, mas Seth também é um pecador recorrente. Ele costuma fazer promessas que não pode cumprir. Primeiro ele promete a Gloria Hill que, se ela se comportar, tudo ficará bem. Depois, promete ao irmão perturbado que, quando eles chegarem ao México, tudo vai melhorar. E mais tarde, ao sequestrar a família Fuller para atravessar a fronteira, ele promete a eles que todos estarão bem pela manhã. Nenhuma promessa se cumpre, porque Seth não tem lastro moral para prometer nada a ninguém.

Chega o momento de atravessar a fronteira. Seth, Richie e Kate vão se esconder no banheiro. Jacob e Scott discutem sobre os próximos passos. Scott diz que eles devem entregar os bandidos para a polícia porque ele viu algo assim em algum programa de TV. Jacob diz:

“Eu estou no controle do show!”

Scott rebate, apontando para o banheiro:

“ELE está no controle do show!”

O diálogo ultrapassa os limites do filme e aponta para as carreiras de Harvey Keitel e Tarantino. Sabe-se que, se não fosse por Keitel ter abraçado o roteiro de “Cães de Aluguel”, o filme não teria saído do papel e Tarantino não seria quem é hoje. O cineasta sabe disso e reconhece a importância do ator na sua carreira. O papel de Keitel em “Pulp Fiction”, o infalível Sr. Wolf que resolve problemas, é uma das provas disso. Então é irônico que no momento de maior suspense de “Um Drink no Inferno” haja essa discussão sobre quem está no controle da trama justamente quando Jacob está no volante, ciente de suas ações, e Richie, pelo contrário, está no banheiro todo descontrolado, tendo chiliques porque o irmão o chamou de maluco. Podemos criticar muita coisa no Tarantino, mas ele sabe rir de si mesmo e demonstrar gratidão.

O policial da fronteira que aborda o trailer é vivido por Cheech Marin, lendário integrante da dupla Cheech & Chong. O bando atravessa a fronteira e enfim chega no Titty Twister, local do twist da trama onde a segunda parte do filme se desenrolará. Ali eles devem passar a noite e esperar pela chegada de um tal de Carlos, o contato que vai resolver a vida dos Gecko em território mexicano. Um aviso em neon em sua fachada que mais parece um castelo de terror de algum parque de diversões fuleiro comunica que o bar está aberto do crepúsculo ao amanhecer.

O mestre de cerimônias do Titty Twister, segundo papel de Cheech Marin, abre esta segunda parte do filme com um longo, divertido e politicamente incorreto discurso sobre bucetas, com ZZ Top rasgando na trilha sonora. Se até então a trilha, este elemento tão importante nos filmes de Tarantino, estava tímida, no Titty Twister ela vai ter seu devido destaque. Quando o host vira seu discurso para a buceta adolescente de Kate, Seth e Richie descem o cacete nele. Depois de atravessar a fronteira, os Fuller e os Gecko não são mais núcleos antagônicos, eles são praticamente da mesma família.

A apresentação interna do Titty Twister é uma beleza. A câmera de Robert Rodriguez passeia pelo local mostrando muitas mulheres gostosas seminuas, muitos homens feios, sujos e malvados saindo na porrada, bebidas e chamas por todo lado, decoração medieval, uma banda de mariachis roqueiros cantando sobre baratas fumando maconha… e o mito Danny Trejo como barman. É a própria visão do inferno, não aquele de Dante, mas o inferno cool das fantasias masculinas alimentadas pela cultura do sexo, drogas e rock’n’roll. Todo bar de macho quer ser o Titty Twister. Ou pelo menos deveria querer.

Nesse passeio conhecemos novos personagens que, assim como o Razor Charlie de Danny Trejo, são gratas homenagens ao lado mais podre (no bom sentido) da sétima arte. Sex Machine é interpretado por Tom Savini, “The Godfather of Gore”, lendário maquiador que tem seu nome ligado a inúmeros clássicos slashers. Seu personagem tem uma pistola automática estrategicamente localizada na região do pau, um fetiche que Rodriguez reciclaria em “Planeta Terror” ao instalar uma metralhadora na perna de Rose McGowan. Outro novo personagem é o gigante Frost, vivido por Fred Williamson, “The Hammer”, ex-jogador de futebol americano que construiu uma carreira de ator em filmes de blaxploitationdos anos 70. Os dois vão se unir aos Gecko e aos Fuller quando, como eles dizem lá, all hell breaks loose.

A turma enfim toma seu drink no inferno para comemorar, apesar de Seth estar louco para arrumar uma briga. Jacob lhe passa um sermão:

“Será que você é tão perdedor que nem percebe quando venceu?”

Jacob confirma seu nome bíblico e assume o papel de patriarca da gangue. Então as luzes do Titty Twister se apagam e Razor Charlie anuncia a performance de Satânico Pandemonium (Salma Hayek), simplesmente a mais sensual encarnação do capeta que o cinema já teve os dons de mostrar. Seu nome imponente e ameaçador vem de um filme de terror mexicano de 1975.

O maior talento de Robert Rodriguez não é ser multitarefas ou realizar filmes de baixo orçamento no quintal da sua casa. Seu grande talento é dirigir sequências de danças sensuais absolutamente embasbacantes sem ao menos mostrar um mísero peitinho. Salma Hayek em “Um Drink no Inferno”, Jessica Alba em “Sin City” e Rose McGowan em “Planeta Terror” são protagonistas de falsos stripteases onde a moça não tira nenhuma peça de roupa mas nenhum marmanjo é capaz de reclamar. Satânico Pandemonium só precisa de seu rebolado, uma cobra, uma garrafa de whisky e o som de Tito & Tarantula, “After Dark”, que já deveria ter batido “You Can Leave Your Hat On” como hino universal do striptease se o mundo fosse justo. Ela vai até Richie, talvez reconhecendo nele um semelhante, coloca o pé em sua boca e derrama whisky pela perna. Mais pés para satisfazer o fetiche de Tarantino.

Passado este momento de catarse erótica, o host Cheech Marin ressurge para se vingar e começar uma daquelas brigas generalizadas de bar. Richie sangra com uma facada de Razor Charlie, despertando Satânico Pandemonium e revelando sua verdadeira face demoníaca. Vampiros começam a aparecer por todo lado e “Um Drink no Inferno” se torna o filme B que estávamos esperando. Mocinhos e bandidos mudam de lugar e montam seus times, cada um com seu oponente e suas armas específicas: um crucifixo, os pés de uma mesa, um taco de sinuca. Seth trata de vingar o irmão eliminando Satânico Pandemonium e Sex Machine realiza o sonho de nove entre dez frequentadores de bares com música ao vivo:

“Agora vamos matar aquela maldita banda!”

O lado B de “Um Drink no Inferno” revela pontos positivos e negativos. O positivo é a abordagem do tema vampiro. Rapidamente os personagens entendem que aqueles monstros são vampiros, embora Seth não acredite neles. Como autênticos personagens de Tarantino, todos ali viram filmes de vampiros, então eles fazem um check list sobre o tema para não restar nenhuma dúvida. Questionando a relevância educativa do cinema em relação à literatura, Jacob pergunta:

“Alguém aqui leu algum livro sobre vampiros ou estamos apenas lembrando o que alguns filmes disseram?”

De qualquer forma, é ótimo quando os personagens sabem contra o que estão lutando graças a um conhecimento prévio adquirido, é claro, no cinema. Odeio quando aparecem zumbis e vampiros em um filme e os personagens nunca ouviram falar daquilo na vida. Em que mundo vocês vivem, imbecis?

Outro ponto positivo é que os vampiros apresentados são apenas monstros do inferno que precisam ser aniquilados. Na época, foi uma resposta do Tarantino aos vampiros existencialistas de Anne Rice, porque “Entrevista com o Vampiro” fazia um baita sucesso. Imagine então o que ele tem a dizer sobre os atuais vampiros emos e vegetarianos de Stephenie Meyer. Haja estaca.

Como ponto negativo temos o tradicional descontrole de Robert Rodriguez, um diretor cheio de boas intenções mas que muitas vezes se empolga demais. O maior exemplo aqui é a breve cena da banda tocando com instrumentos feitos com pedaços de corpos humanos, um artifício completamente desnecessário que leva o humor negro do filme para o perigoso território do pastelão. Em outras palavras, Rodriguez não é Sam Raimi. Proponho um exercício besta: perca alguns minutos imaginando como “Um Drink no Inferno” seria se Bruce Campbell estivesse nele.

Richie renasce vampiro para ser morto definitivamente pelo irmão. Seth diz:

“Aqui está a paz na morte que eu não pude lhe dar em vida.”

Em um momento de oportuna espiritualidade, ele ainda tenta fazer com que Jacob recupere sua fé:

“Esses filhos da puta vieram direto do inferno, e se existe um inferno tem que haver um ceu!”

Um pastor, neste momento, seria a melhor arma. Mais do que um soldado de verdade, como comprova o discurso inútil de Frost relembrando seus traumas de Vietnã enquanto Sex Machine se transforma em vampiro e o ataca. Jacob também é vítima do ataque, porque em filmes de vampiros e zumbis sempre tem que haver o bom personagem contaminado que deverá ser sacrificado. Jacob se vê acuado com uma arma e um taco de beisebol formando uma cruz, recuperando a fé na marra para sobreviver por mais alguns minutos. Não é a redenção que a gente esperava. Enquanto mata alguns vampiros, Jacob declama um salmo sem impacto que, no roteiro original, era o mesmo “Ezequiel 25:17” consagrado por Samuel L. Jackson em “Pulp Fiction”.

Em um depósito de cargas roubadas de caminhoneiros, Seth, Kate, Scott e Jacob preparam armas e munição anti-vampiro no melhor estilo “Os Garotos Perdidos”. Jacob exige que Kate e Scott façam uma promessa: matá-lo quando ele se transformar em vampiro. Eles prometem, mas Jacob não acredita. É mais uma promessa não cumprida no filme. De fato, quando ele enfim se transforma, Scott não cumpre a promessa e é mordido pelo pai. Scott, o personagem mais inútil do filme, tem então o destino mais trágico, sendo devorado por vários vampiros-zumbis ao mesmo tempo, implorando para que a irmã acabe com seu sofrimento. Kate enfim cumpre uma promessa, mandando seu pai e seu irmão para os ares. É esse tipo de horror gráfico e violento que Rodriguez não sabe dosar com seus elementos de humor de gosto duvidoso, como a arma fálica de Seth que parece um vibrador-estaca gigante.

Sobram Seth, Kate, poucas balas e muitos vampiros. A luz do sol os salva, junto com Carlos, que arrebenta a porta do Titty Twister. Carlos é o terceiro personagem vivido por Cheech Marin. Já salvos do lado de fora, Seth renegocia com Carlos enquanto Kate, em estado de choque e toda ensanguentada, percebe que deixou de ser uma menina e se tornou uma mulher. Como Kate, Juliette Lewis de certa forma revive suas duas personagens mais famosas: a ninfeta inocente de “Cabo do Medo” na primeira parte e a assassina maluca de “Assassinos por Natureza” na segunda.

Ela se oferece para partir com Seth. Ele responde:

“Vá para casa, Kate. Eu posso ser um filho da puta, mas não sou um fucking filho da puta.”

Se fosse antes dessa madrugada dos mortos, Seth poderia ter adotado Kate como filha. Depois que ela virou mulher, não dá mais para vê-la como uma criança. Portanto, Seth adquiriu algum senso moral ao longo do filme. Ele não poderia, jamais, se tornar um vampiro sexual como seu falecido irmão. Seth parte e a carreira de George Clooney no cinema começava a decolar, depois de anos na TV com “Plantão Médico”. Kate também parte e Juliette Lewis se perdeu por aí entre filmes pouco expressivos e uma banda de rock alternativo sem muito brilho.

A última cena lembra o recurso da casa construída sobre um antigo cemitério indígena em “Poltergeist”, revelando que o Titty Twister na verdade era o topo de uma pirâmide asteca cercada por um ferro velho com carros de várias épocas, dando a entender que aquele lugar tem muita história para contar e criando uma espécie de mitologia explorada de maneira bem vagabunda, como não poderia deixar de ser, por uma sequência e uma prequel lançadas direto em vídeo — a parte 2 tem até a participação de, vejam vocês, Bruce Campbell. Temos também uma série bem safada na Netflix, cheia de atores ruins revivendo e expandindo a saga.

“Um Drink no Inferno” cumpre seu papel de ser meia-boca usando temas recorrentes da obra de Tarantino. Não é só o sangue, a violência, as referências pop e as tiradinhas irônicas: temos lá conceitos como a perda da fé e a luta pela redenção, além da tradicional vingança sangrenta das mulheres contra a tirania dos homens maus, como “Kill Bill” e “À Prova de Morte” também fariam depois. Satânico Pandemonium, a viúva negra que mata depois de seduzir, se vinga do maníaco sexual Richie e abre as portas do inferno no processo. Devido a toda a preparação do roteiro para transformar Richie em um monstro humano, podemos deduzir que esta vingança é o ponto crucial do filme. Já a aparição dos vampiros funciona melhor sem a explicação da pirâmide asteca: é uma resposta à violência dos tais homens maus. Como “Os Pássaros” de Hitchcock, é uma reação inexplicável da natureza. Todos devem pagar por seus pecados ou por sua falta de fé.

Não se trata, porém, de um grande filme de vampiros. Pouco tempo depois, em 1998, John Carpenter conseguiu resultados muito superiores em seu “Vampiros” com James Woods, que Tarantino e Rodriguez devem ter assistido de joelhos, fãs que são de Carpenter. “Um Drink no Inferno” não, ele é uma alegoria de sexo, drogas e rock’n’roll que não tem nem sexo e nem drogas. Apesar da sensualidade da lolita Juliette Lewis e da femme fatale Salma Hayek, ninguém faz sexo no filme. É um filme violento, sanguinolento e gore, mas tem essa pegada adolescente quase boba, mirim, do virgem que não sabe muito bem o que fazer diante de uma mulher. Do tipo que ri na sala de aula quando a professora fala “vagina”. Ou quando o Cheech Marin grita “buceta”.

Deve ser por isso que Richie mata mulheres e Seth termina o filme fugindo de uma delas. E deve ser por isso que nós, jovens imaturos criados em locadoras de vídeo e começando a desbravar o mundo lá fora, curtimos tanto aquela sessão de cinema em 1996.