III. A Caveira Peruana da Morte

Fufifu Fifufi

Daniel Rogers corria o mais rápido que podia, sentindo as pernas queimarem e o coração batendo tão rápido e tão forte que parecia abafar os ruídos do exterior. Desviando de pedras, buracos e poças de água estagnada, ele sabia que seria apenas uma questão de tempo até finalmente ser alcançado.

Quando isso acontecesse, seria o seu fim e, se não tivesse tão aterrorizado com sua situação atual, ele certamente cairia no riso.

Que lugar mais adequado para seu último descanso do que dentro de um túmulo?

Parou por um instante, com dificuldade forçando seu corpo a recuperar o fôlego e, ao mesmo tempo, tentando iluminar o caminho para decidir por onde continuar a correr. Todas as paredes pareciam iguais e, no seu desespero, não conseguia se lembrar exatamente do caminho percorrido na ida.

Apalpou o bolso do casaco novamente, como para certificar-se que o objeto ainda estava lá, e sem perceber tocou o peito, onde o envelope fechado continuava no bolso interno da jaqueta.

Daniel nunca se julgou imortal, sabia que sua hora fatalmente chegaria, assim como qualquer outra pessoa, mas nunca pensou que encontraria seu fim em uma pirâmide perdida no Peru, escondida sob toneladas de terra, entulho e areia, a 200 km de Lima.

Fufifu Fifufi

Virou a cabeça sobressaltado, iluminando sombras que pareciam tomar vida e aterrorizar seus pensamentos. Ele tinha certeza do que tinha visto naquela tumba subterrânea, logo depois de tirar o objeto do altar de sacrifícios. Daniel não era supersticioso, não acreditava em lendas e nem em estórias de fantasmas. Riu quando o primeiro guia o deixou na entrada da cidade, e ignorou quando o segundo guia o deixou sozinho, assim que encontraram o caminho para a Pirâmide de Chupacigarro. Atribuiu a ignorância e a intensa religiosidade dos povos latino americanos o pavor que viu no rosto dos guias, antes que o deixassem sozinho naquela cripta de pedra.

Daniel não era arqueólogo, tampouco historiador. Não era um sujeito metido a Indiana Jones, nem um crente. Era apenas um pai, desesperado com a condição médica da filha e que já tinha esgotado todos os recursos a seu dispor.

Tinha nascido em Iowa e, em seu coração, ainda se sentia um garoto do campo. Se casara com a namoradinha do colégio, Anna, seguindo o esperado clichê. Ele era Quarterback do time do colégio, ela era Cheerleader. Recebera uma proposta de bolsa de estudo para jogar pela Universidade de Iowa, mas desistira da promissora carreira de jogador (ele era muito bom) para entrar no exército.

Seu avô tinha sido militar, seu pai crescera em bases do exército espalhadas pelo mundo, e não queria isso para a família. Estabeleceu-se na fazenda da família e prosperou no agronegócio. Queria que Daniel se juntasse aos irmãos mais velhos e assumisse a plantação de milho, mas o sangue do avô nas veias falou mais alto.

Depois do ataque às Torres Gêmeas, nem seus pais e nem sua noiva tinham argumentos que pudessem se opor ao desejo de Daniel de servir à seu país. Ficou quase três anos fazendo o treinamento de fuzileiro naval na Carolina do Norte, até que em 2003 os EUA decidiram atacar o Iraque.

A guerra, claro, foi muito diferente do que Daniel imaginava. Como marine, suas ordens vinham diretamente do Presidente, e não tardou para Daniel perceber que as “armas de destruição em massa” que George Bush dissera que estavam no Iraque eram só uma desculpa para uma exibição de poderio militar. Mas Daniel não discutia as decisões políticas, seguia as ordens com exatidão e se preocupava unicamente em fazer seu trabalho e em proteger seus colegas soldados. Logo chamou à atenção dos superiores por sua inteligência, lealdade e pensamento estratégico.

No fim de seu segundo turno no Iraque, assim que desembarcou, foi convocado para ir a Washington.

Lá, visitou a Casa Branca, conheceu o Presidente e o Secretario de Defesa e, no final da visita, foi convidado a fazer parte do Serviço Secreto. O treinamento, muito semelhante ao dos fuzileiros navais, foi bem mais fácil para Daniel, que já concluiu em posição de destaque.

No ano que foi designado para ser segurança pessoal do Presidente, ele se casou com Anna e se mudou para Washington. A casa em que viviam não era luxuosa, mas era confortável, e Anna podia ir a pé até a escola onde dava aulas. Na eleição seguinte, o comando do país trocou de nome, mas o novo Presidente manteve os seguranças do anterior, devido às recomendações do Diretor do Serviço Secreto, e Daniel continuou no comando da equipe que atendia ao Presidente Obama e sua família.

No ano seguinte, sua filha nasceu. A pequena Julia trouxe mais júbilo e alegria para sua vida do que ele achava ser capaz de sentir. Nos anos seguintes, acompanhou a reeleição do Presidente Obama e, desejando um cargo administrativo, onde não correria tantos riscos, abriu mão da proteção pessoal do Presidente, assumindo a chefia da equipe que protegia o Vice Presidente Joe Biden e sua família.

Tudo corria às mil maravilhas para Daniel. Até o ano passado. Julia estava agora com cinco anos, chegou um dia da escola tossindo. No dia seguinte, estava ardendo em febre. Enquanto corria para o pronto socorro com a filha, Anna ligara para o marido, gritando que a menina “tinha desmaiado”.

Julia não acordara mais. Chegara desfalecida ao Pronto Socorro, os médicos fizeram o possível para reanima-la, mas ela estava em coma desde então.

E ninguém sabia exatamente a razão.

As tomografias indicaram um inchaço no cérebro, que inicialmente foi diagnosticado como uma meningite. Os médicos tentaram todos os tipos de tratamento. O inchaço diminuiu e voltou a níveis considerados normais, mas ela não acordava.

Daniel dedicou-se a uma busca exaustiva para curar a menina. Gastou todas as economias que tinha, levando-a aos mais variados especialistas. Vendeu o carro e hipotecou a casa para pagar consultas e tratamentos de todos os tipos, sem sucesso algum. O Vice Presidente Biden, de quem Daniel se tornara próximo o suficiente, chegou a indicar pessoalmente amigos e instituições de pesquisa do governo para tentar curar Julia.

Sem sucesso.

Desiludido com os métodos científicos, Daniel começou a pesquisar e investir em todo tipo de medicina alternativa. Tentou curas orientais, meditação, curas espirituais, ocultismo… Procurou padres, rabinos, pastores… Todos tinham palavras de salvação e consolo na ponta da língua, mas sem efetividade nenhuma.

Desesperado, Daniel apelou para seu último recurso. Os arquivos confidenciais do Governo Americano. Ele tinha acesso ao Presidente e ao Vice Presidente durante anos, sabia senhas, códigos militares, VPNS e linhas seguras para qualquer lugar do mundo. Tinha acesso a contas bancárias do governo, até mesmo a conta pessoal do Vice Presidente… Mas mesmo financeiramente arruinado, jamais lhe passou pela cabeça utilizar qualquer tipo de recurso para um benefício pessoal.

Mas pela vida da sua filha? Por isso ele seria capaz de qualquer coisa.

Sabia que se fosse pego acessando os arquivos do Governo, poderia ser acusado de espionagem, traição e até de coisa pior.

No melhor cenário, seria despedido. No pior, seria preso pelo resto da vida.

Mas ele não se importava. Ele acessou os arquivos.

E isso o levou ao Peru.

Daniel descobriu muitas coisas nos arquivos confidenciais. Quem realmente matou Kennedy, a verdade sobre Roswell e a Área 51, o que aconteceu com Jimmy Hoffa e muitos outros segredos que, certamente, acabariam com sua carreira (se conseguisse fazer um bom acordo).

Mas também descobriu sobre a Cidade Perdida de Caral, no Peru. E sobre os estudos do arqueólogo Richard Schaedel, que estudou a cidade em 1949. Ele descobriu que Caral era uma “cidade sagrada”, contemporânea da Mesopotâmia e anterior até as pirâmides do Egito. Entre mais de 19 pirâmides diferentes, a principal seria a de Chupacigarro, onde eram realizados os rituais de sacrifício no Altar do Fogo Sagrado.

Segundo os relatos de Schaedel, logo abaixo do altar do sacrifício, onde o sangue caia na terra, iluminado diretamente por uma abertura no topo da pirâmide, nascia uma planta “especial”. A raiz dessa planta tinha propriedades curativas, e era utilizada unicamente para manter a saúde do Imperador.

A essa altura, Daniel não tinha condições de duvidar de mais nada. Cobrou favores, gastou cartuchos que nem tinha mais, mas conseguiu falar com os mais renomados arqueólogos do país.

Um deles o colocou em contato com o reitor do curso de arqueologia da Pontifica Universidade Católica do Peru, com quem soube que a Cidade Perdida de Caral tinha sido decretada como uma patrimônio da humanidade pela Unesco, e teve acesso a todos os estudos relacionados sobre as pirâmides.

Feliz por ajudar o “Governo Americano”, o reitor não hesitou em enviar para Daniel os vários estudos realizados sobre Caral, incluindo os diários do Dr. Max Uhle, o primeiro arqueólogo a escavar a Cidade Perdia, em 1905.

Nos vários cadernos, o Dr. Uhle falava sobre a civilização que ali viveu, sobre as cerimônias religiosas, os sacrifícios e, claro, a saúde do Imperador.

Os diários diziam que as inscrições dentro da Pirâmide indicavam que o Imperador “viveu mil anos” e que sua saúde era mantida graças a “yuca dorada”, um tubérculo que nascia embaixo do altar de sacrifícios e que teria “a magia da juventude” e da “vida eterna”.

A Pirâmide de Chupacigarro, onde eram realizados os rituais de sacrifício, era também o cemitério da cidade de Caral. Ali era onde eles enterravam seus mortos, onde realizavam os rituais pedindo sucesso na lavoura, afastando os mau agouros e protegendo a alma de seus cidadãos no além vida.

O diário também dizia que o cemitério e a Yuca Dorada eram protegidas pela Calavera de la Muerte, e que se você ouvisse o som dela tocando flauta, você já estaria morto.

Daniel não acreditou na maldição da Caveira da Morte e, honestamente, não acreditava na Yuca Dorada e seus milagres.

Depois de séculos, mesmo se existisse uma planta, ela não estaria mais dando frutos, de qualquer forma.

Mas a visão de Julia na cama, sem esboçar estímulos, o corroía por dentro.

Tinha um último compromisso com o Vice Presidente, que discursaria na ONU no dia seguinte, e depois poderia sumir.

Raspou as contas bancárias e viajou para o Peru.

Ele precisava descer na Pirâmide. Chegar ao altar e escavar o solo, só para ter certeza.

Fufifu Fifufi

O som da flauta o tirou dos devaneios. Recuperara o fôlego o suficiente para continuar correndo, para tentar sair dali. Estava em uma bifurcação. Tinha que escolher um caminho e, em seu íntimo, sabia que se fosse para o lado errado, estaria morto.

Ele tinha encontrado o cemitério, repleto de ossos. Tinha encontrado o que deveria ter sido o altar. Tirara as pedras, escavara o solo.

E encontrara a yuca dorada.

Perfeitamente preservada.

Tirou-a do solo, sem acreditar no que estava vendo. Todos os seus instintos, todo o seu treinamento lhe dizia que aquilo não tinha como ser verdade, que deveria ser uma pegadinha, um golpe de alguém.

Mas ninguém sabia que ele estava ali. Ninguém sabia o que ele estava procurando.

Então ele ouviu. Um som de flauta.

Fufifu Fifufi.

Depois ouviu o som dos ossos. Como um xilofone. Levantou a lanterna, iluminando a escuridão. E a viu.

A Caveira Peruana da Morte.

O crânio alongado. Vestindo um poncho apodrecido e empoeirado. Com uma flauta de bambu nos ossos finos das mãos, tocando uma melodia impossível sem pulmões.

Daniel fez sua escolha e correu. Virou para o lado direito. Tropeçou duas vezes, levantou-se espalhando poeira no ar e continuou a correr.

Chegou ao fim do caminho, logo depois. As paredes pareciam reduzir de tamanho, cada vez mais, até acabar em uma parede de ângulo reto.

De alguma forma, chegara ao fim da pirâmide. Não tinha mais por onde correr.

Ouviu primeiro o som da flauta. Depois o som dos ossos batendo.

Sentiu todo o ar escapar dos pulmões, enquanto se deixava escorregar, encostado na parede da pirâmide, recusando-se a acreditar nos seus olhos, ou que realmente aquele seria seu destino.

Levantou a lanterna, quando o som da flauta ficou alto demais para ser ignorado.

A caveira estava de frente para ele, segurando sua flauta com as duas mãos.

Daniel não ouvia mais a música. O som do seu coração e da respiração ofegante abafava qualquer ruído.

A caveira abaixou a flauta, interrompendo a música. Levantou a mão direita, os ossos amarelados pelo tempo, e apontou para Daniel.

A caveira se aproximou dele, com a mão esticada. Daniel sentiu o dedo frio tocando seu peito, e achou que a caveira arrancaria seu coração, mas isso não aconteceu.

A caveira só tocou o peito dele, e recolheu a mão, esperando.

Daniel demorou alguns segundos para entender. Então colocou a mão no peito, dentro do bolso interno da jaqueta, e tirou o envelope.

O exame. Ele reconheceu o carimbo do Hospital Geral de Washington.

Há quanto tempo estava com aquele envelope no bolso?

E porque tinha tanto medo de abri-lo?

A caveira continuava em silencio, apenas balançado a cabeça, indicando o envelope, que Daniel amassava em um punho fechado.

Subitamente, percebeu que aquele exame o apavorava muito mais do que estar na presença de uma caveira que tocava flauta.

Fufifu Fifufi

A caveira voltou a tocar. A música era baixa e suave. Tranquilizadora.

Daniel rasgou a lateral do envelope. Abriu o papel amassado, fechou os olhos com força, tentando acordar de um pesadelo, e iluminou a folha que segurava.

Era um atestado de óbito. Em nome de Daniel Rogers.

Morto com três tiros no peito.

Fechou os olhos.

Em um lampejo de sobriedade, viu o cortejo do Vice Presidente parado diante da ONU, onde ele faria um pronunciamento. Viu o homem de boné e moletom de capuz parecendo se destacar na multidão. Viu o reflexo prateado nas mãos do homem, e pulou na frente do Vice Presidente antes de ouvir o primeiro estampido.

Seu corpo, desfalecido e perdendo sangue, estava estendido na calçada das Nações Unidas.

Sua mente, presa em um pesadelo impossível, dentro de uma pirâmide no Peru.

Abriu os olhos, entre lágrimas. A caveira desaparecera por completo, assim como a total escuridão.

Em algum lugar indefinido, ele escutou alguém gritar “Estamos perdendo ele”.

Ouviu um barulho, uma voz suave. Levantou a lanterna, não tinha mais medo da Caveira, mas ela não estava mais lá.

A voz era de sua filha, Julia. Ela estava sorrindo, com a mão estendida para ele.

Daniel sorriu. Não tinha mais medo. Segurou a mão da sua filha, largou a lanterna quebrada e andou devagar em direção a luz.

A música da flauta continuava a tocar.

Fufifu Fifufi

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