Escuridão

A ansiedade é escura. Não que ela tenha cor, é que quando ela chega é difícil de enxergar.

Nesse exato momento minha cabeça dói e eu olho de incontáveis em incontáveis segundos para as minhas mãos. Elas estão tremendo, eu sinto. Elas não estão tremendo quando eu olho. Elas estão tremendo sem que eu consiga ver. Será que eu não estou vendo? Eu pisco. De incontáveis em incontáveis segundos eu pisco forte, pisco fraco, devagar e depois rápido. A vista escurece. Escuro. Eu vejo, mas não vejo nada. Não enxergo a mão que ainda sinto tremer. Será meu coração palpitando acelerado? Eu aproximo a mão que antes tremia invisível e agora acompanha o batimento descompassado. Está muito lento? Está muito rápido? Eu conto, mas não sei contar o tempo que leva pro barulho no meu estômago me fazer parar de contar. A mão, o olho, o coração, o estômago. Tudo errado. Escuridão.

Agora eu devo estar tremendo. Eu balanço a mão e tento parar de repente. Não sei se treme, não com o olho que piscou tantas vezes até ficar embaçado. Respiro e o escuro fica turvo, fica roxo, fica tudo, mas não fica claro. O coração não acompanha a respiração e continua acelerado. Concentro. Percebo a força de cada um dos músculos apertados. Encaro a mão e dessa vez vejo algo: o punho firme, fechado, endurecido, desajustado. Preciso soltar os músculos, a força e a tensão me deixam mais tonta, e a tontura me faz tremer mais. A mão, o olho, o coração, o estômago, os músculos, o punho, o cansaço, a escuridão.

Eu não vou pedir ajuda porque não precisa. Tá tudo bem. Eu pediria se precisasse, não? Não adianta gastar energia pensando nisso, são 2 da manhã e não tem ninguém. Os cachorros observando, cada um de um lado. Cachorros, eles precisam que eu esteja bem. Eu preciso. Preciso de ajuda? A cama é enorme, mas não tem ninguém. É quarta-feira e não tem ninguém. Lembro que não comi nada. Tontura. Preciso comer algo salgado.

Geladeira, microondas, suor frio, corpo quente. Talheres, prato, copo, um enjoo persistente. Respiração ofegante, dor na barriga, andar me apoiando nas paredes, cólica, pernas e pés que parecem não reconhecer o chão. A mão, o olho, o coração, o estômago, os músculos, o punho, a tontura, a tremedeira, a falta de ar, os nós por dentro, a instabilidade, os hormônios, as pernas, os pés, o silêncio, a cama vazia, a solidão. Escuridão.

Fico deitada. Fecho os olhos. É como voltar pra casa e tentar dormir depois de passar o dia num parque de montanhas-russas. Tudo gira. É exaustivo. É desesperador. Quase 3 da manhã. Preciso dormir. Não consigo desligar. Preciso dormir. Não consigo parar. Preciso dormir. Ela não deixa, ela não quer deixar.

Preciso de ajuda? Não importa. Não tem ninguém além dela. Não hoje, não aqui, não nessa quarta-feira de madrugada. Não na cama vazia em que estou deitada. Só eu e ela. E a força que eu faço pra ela ir embora. E a fé que eu quero ter de que vai passar. E as lágrimas que mal consigo arrancar dos olhos. Será que é de tanto piscar?

Eu não sei se já escrevi tão no meio de uma crise como agora. Eu poderia perguntar pra alguém do meu lado. Não tem ninguém.

Ela não me encontrava há um bom tempo. Eu quase acreditei que seria assim pra sempre. Não é tão simples, não é tão fácil. E nesse momento eu não enxergo mais as letras, a tontura se intensifica, eu sinto dores no tendão. Na mão. No olho. No coração…

Eu sinto e olho, mas não vejo. Escuridão.