#003 - O menino no espelho, de Fernando Sabino

(Ou “A doce e provinciana BH”)

Quando se tem escritores do porte de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa em seu estado, chega a ser heresia escolher outro como seu preferido. Admito, sou um pecador. Que a igreja da grande literatura me puna, mas prefiro Fernando Sabino e seu irretocável O encontro marcado.

Ainda não chegou a hora de falar sobre ele. Hoje vamos conversar sobre outro, um que só surgiu na minha vida quando o filme O menino no espelho foi lançado. Fiz questão de assistir ao longa no cinema, carregado do melhor espírito de Sessão da Tarde. Coloquei minha capa de criança e me diverti como ao assistir O menino maluquinho pela primeira vez. A sensação de voltar à infância foi tão intensa que saí do cinema decidido a comprar meu exemplar do livro na mesma hora.

Então descobri que ele é muito mais do que a simples história mostrada na telona. Ao ler, percebi uma ligação fundamental a unir meus dois livros do autor. Se em O encontro marcado precisamos lidar com as dores do crescimento e o autoflagelo da vida adulta, O menino do espelho deixa o personagem principal aproveitar a infância em sua plenitude. As histórias dos dois se mesclam de uma forma inexplicável. Apesar de não são o mesmo protagonista, eles ao mesmo tempo o são. Eduardo Marciano e o jovem Fernando são apenas retratos de épocas diferentes de uma mesma pessoa: o próprio Sabino.

Em uma Belo Horizonte bucólica do início da década de 1920, o menino Fernando adota uma galinha, aprende a voar, invade uma casa abandonada, se apaixona e ganha um duplo que deixaria Dostoiévski orgulhoso. O clima infantil não é perdido em nenhuma das pequenas histórias contadas. As preocupações de O encontro marcado ainda não chegaram. Fernando não precisa ser adulto, deve apenas continuar com suas histórias fantasiosas. Há uma aura de inocência que cerca o livro. O mundo é bão, Sebastião. A magia está a nossa volta.Tudo vai dar certo.

E a melhor parte está logo no prólogo, chamado de O menino e o homem. Ele traz uma conversa do garoto com a sua versão do futuro, em um diálogo imaginado por todos nós em algum momento da vida.

“Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto da sua vida?”, pergunta o homem. “Pense nos outros.”

O menino se espanta, acha o segredo sem graça. Também achei quando li, confesso. Mas ele me fez pensar. E quanto mais penso sobre ele, mais tenho certeza que o adulto Fernando estava certo. Fazer algo pensando em alguém é gratificante demais. Hoje o menino Bruno só se sente plenamente feliz quando faz alguma coisa dessa forma. Acho que isso é amadurecer. Ou espero que seja.


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