
A jornada da louca: como a leitura de textos heréticos me salva.
Esses últimos dias foram abundantes em me gerar situações onde o sentimento mais presente foi o de me sentir lesada. E falo no sentido de usurpação, de apropriação indébita do que é — em teoria — meu. Foram várias circunstâncias que mexeram profundamente com a minha noção de posse, propriedade, território pessoal e segurança. Em situações assim, fico andando numa corda bamba mental que ora bandeia para o lado do “que se dane o mundo”, ora se volta para uma noção quase visceral que me inunda os olhos de sangue e me põe uma faca simbólica nos dentes, sussurrando no meu ouvido que tenho que zelar por aquilo que conquistei, que tenho responsabilidade sobre certas coisas e processos. Senão pelo meu bem imediato, pelo futuro da minha filha. Diz a voz no comando. É uma voz muitas vezes tirana, sem piedade. Tento aquietá-la com meditação, mas a danada é eloqüente. Tenho procurado com toda a força do meu enraizado e teimoso ser a aprender a desapegar, a não dar valor para o que não vai fazer a menor diferença em minha vida no final das contas. Mas nem sempre é fácil.
Pois bem: depois que morei por um tempo com móveis de segunda mão, roupas surradas de brechó, tendo como mesa de centro um caixote de verduras virado de cabeça pra baixo e um sofá achado na área de descarte de um prédio, achei que tinha tomado uma espécie de vacina contra o apego desnecessário àquilo que não levaremos quando o caixão um dia se fechar sobre nós. De qualquer forma, quando essas minhas dicotomias pulam de um extremo olhar desbundado para o mundo para uma nostalgia materialista que se esconde nas minhas veias, tenho investido num antídoto que é muito eficaz na maior parte das vezes. A leitura de textos heréticos. Desvairados. Fora da ordem. Desencaixados. Ins-piradores.

Limonov: uma estrada para lugar nenhum
Existe um livro arrebatador e profundamente masculino: a biografia de “Limonov”. Além de escrito por um homem, Emmanuel Carrère, traz as histórias de um outro varão, com pouquíssima presença de mulheres na trama. Pulem a parte em que achariam isso misógino ou preconceituoso pra mergulhar comigo no que eles têm de mais bundalelê e ousado na experiência da testosterona. Essa que já foi medida em meu sangue e, curiosamente, foi detectada como elevada.
É que esses escritos provocam. Não que mulheres não possam ter essa postura ou vivência. Óbvio que podem. Mas é que aos homens foi dada essa bênção do wanderlust desde a saída do útero. Uma espécie de adoção imediata da ética do bicho solto somada à postura de vida louca que me comovem e me fazem lembrar de uma canção igualmente libertária, composta, vejam vocês, por um outro homem, o Sufjan Stevens. Alguns dos versos dele incitam assim:
(…) If I was crying/ In the van, with my friend
It was for freedom/From myself and from the land
I made a lot of mistakes/You came to take us
All things go, all things go/To recreate us
All things grow, all things grow(…)
O mundo contemporâneo, apesar de parecer virado do avesso, sobretudo para a burguesia acanhada à qual pertenço, ainda continua careta, prescritivo, linear, carregado de bom-mocismo, inoculado pelo politicamente correto e encurralado pela sensação arrogante de que sabemos pra onde estamos indo. Simplesmente NÃO SABEMOS. Lamento informar. É é por isso que precisamos, nem que seja once in a blue moon, sair do script, jogar o roteiro fora e improvisar, deixar que algo nos arrebate e varra as nossas certezas pro lixo que já está, inclusive, carregado delas.
Se essa música do Sufjan Stevens já estiver rolando na rádio-cabeça, como fortemente sugiro, aproveitem e mergulhem comigo nessas lições mágicas e torpes que um anti-herói como Limonov nos ensina (sem querer e esperneando de revolta, é claro). Ele faz isso meio que mostrando o lado invertido das coisas, de uma maneira não tão convencional, nos instigando a ficarmos em sintonia com as nossas vísceras, a calibrarmos nosso batimento cardíaco com o rufar das árvores e o ranger dos trens sobre os trilhos.
Fazendo do limão um Limonov
Ao tentar descrever o figuraça russo, Carrère diz o seguinte: “Limonov foi deliquente na Ucrânia, ídolo underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido dos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Enquanto esse personagem verídico de fato fez tudo isso que foi descrito aqui, eu olho pra mim mesma e vejo uma trabalhadora assalariada, pagando seu aluguel rígida e religiosamente, comendo as mesmas torradas e o mesmo café com leite de manhã, aguardando pra assistir Game of Thrones no conforto do seu sofá aos domingos de noite. Não estou me propondo a virar andarilha, mas passar um dia inteiro batendo laje numa comunidade como propõe a ONG TETO, por exemplo, já seria de bom tamanho. A questão não é fazer turismo de elite envergonhada, mas se deixar abrir para o que é eminentemente novo e carregado de possibilidades. Sair dos trilhos sem descarrilhar.
Já que é pra falar de loucura, os russos ocupam uma espécie de panteão todo próprio nesse quesito. As maratonas etílicas das terras de Dostoievski são assunto sério. Não se trata de um porre de uma noite que é seguido por uma ressaca. O porre russo, o zapoi, significa permanecer vários dias sem desembriagar-se, andar sem rumo, embarcar em trens sem saber sua destinação, contar os segredos mais íntimos ao primeiro que aparecer e depois esquecer tudo o que se falou e o que se fez, numa espécie de viagem. É a jornada do anti-herói colocada em prática. Ou a carta do Louco do Tarot, se preferirem. Nesse caso, nosso herói está mamado, curtido na manguaça, trôpego, mas ainda assim fascinante. Limonov é um cara tão fora do eixo que pare ele o fracasso é nobre, o anonimato é nobre, até a decadência física é nobre. Estou pra conhecer alguém que tenha uma coerência interna e uma “verdade” íntima tão em sintonia quanto essa personalidade russa e admito que deve ser por aí que ele me captura.
Andamos num mundo muito do mentiroso, do marketeiro, do raso, do egocêntrico e do quase vazio. Pra mim pessoas carregadas de verdade, ainda que feiosas e torpes, são mais genuínas e dignas de apreço do que um saco de promessas ralas emoldurando um olhar confiante num post do Facebook.
Por isso esse texto é, mais do que tudo, um convite para que a gente deliberadamente desvirtue. O desapego a que me referia no início do texto pede da gente uma postura vigilante, que não se deixe seduzir pelos apelos fáceis da confortável e previsível repetição do dia-a-dia.

Mude de rota. Reinvente o trajeto mental e corrompa o enquadramento maçante da vidinha obediente que montamos pra nós. Tem um outro louco que eu amo, o Jodorovsky, que lê tarot de graça e para estranhos toda quarta-feira num restaurante em Paris. As maiores aprendizagens da vida dele vieram desses encontros insolentes e inusitados.
Eu não moro lá na cidade luz, mas tenho alguns baralhos de Tarot. Quem se habilita?
O Deus do acaso é abundante e mora ao lado.
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