A televisão dos anos 90 criou os adultos ansiosos de hoje

Crianças apontam local onde ET de Varginha foi visto, idêntico ao terreno da minha rua

Não foi há muito tempo, eu ainda me lembro bem. No domingo, a TV de 29 polegadas (uma caixa enorme, muito maior do que o meu primeiro apartamento na rua Senador Vergueiro) ficava ligada o dia inteiro. Eu brincava no tapete da sala, ocupada com as minhas coisas de criança, mas algo sempre me capturava a atenção na tela. Por exemplo, se havia mulheres de biquini lutando contra homens numa banheira de espuma, estavam procurando o quê? Era de se pensar que só podia ser uma coisa muito importante para ela ter tanta pressa. A mulher se debatia, procurando desesperada por algo que ela realmente precisava muito: as chaves do carro, os óculos, uma bijuteria especial, talvez, mas não. Ela só encontrava sabonetes. Um, depois outro, depois outro. A banheira do Gugu era um quadro que me enchia de angústia. Eu não conseguia respirar de tanta aflição: o que ela havia perdido? Seja lá o que fosse, o homem estava determinado a evitar que fosse encontrado, nem que para isso tivesse que pagar com a própria vida. A disputa podia ser levada às últimas consequências. Era realmente algo violento de se ver. Invariavelmente escapulia um peito para fora do biquíni e então eu morria de pena da mulher. Ela nunca encontrava o objeto desaparecido.

Mais tarde talvez houvesse ainda um quadro de tema completamente sobrenatural e assustador. Alguém aparecia com os mais recentes relatos do Chupa-Cabra. Indícios irrefutáveis eram mais uma vez apresentados — o monstro era real. Na época eu morava ao lado de uma montoeira de terrenos baldios, que nós chamávamos de pasto. É um ótimo lugar para ter na vizinhança quando se é criança — tem espaço de sobra para brincar, embora eu não tenha pisado um único dia de minha vida naquela grama pantanosa. Eu evitava até olhar para aquele lado do muro. Me lembro apenas de me deixar levar pela curiosidade quando caía a noite e os vaga-lumes apareciam. Ficava fascinada por aqueles pequenos seres que acendiam e apagavam, acendiam e apagavam, até que um pensamento surgia lá longe e me enchia de completo terror: cuidado com o Chupa-Cabra. Eu corria para dentro de casa sem pensar duas vezes e abandonava meus amigos insetos à própria sorte.

Ao contrário do que se poderia esperar, as coisas não melhoravam na programação da noite. O programa mais respeitado da televisão brasileira começava com Isadora Ribeiro emergindo das águas, de fio dental verde, seguida de um balé futurístico rico em closes pélvicos. Depois, começava uma sequência de matérias jornalísticas para as quais eu não dava muita atenção, ou até dava, só que não me traumatizaram tanto quanto, agora eu preciso realmente de uma pausa para respirar, o ET dissecado. Aos 30 anos eu ainda sinto um calafrio só de me lembrar daquele ser pálido, inanimado, sendo estripado em frente às câmeras. O olhão do tamanho de uma bola de taco — ou até maior, quem vai saber? A boca toda aberta num O de tristeza. Estava realmente morto? Impossível adivinhar. Era um ser completamente alheio às nossas certezas e estava sendo estudado pelos cientistas. Como ele, poderiam ter vários. Aliás, existiam outros com certeza absoluta, pois também no Brasil havia relatos de encontros desse tipo, taí Varginha que não me deixa mentir.

Eu era uma criança apavorada. Se aquilo era dito na televisão, então era verdade. Éramos ingênuos a este ponto. E não estou falando apenas das crianças, mas de todos os brasileiros. O realismo fantástico tomou conta da televisão nos anos 90: monstros, ETs e fantasmas conviviam em harmonia com a previsão do tempo, crise política e notícias da inflação.

“Não tem leite pra amanhã, Gato”, é assim que minha mãe chamava o meu pai — e ainda chama.

“Putz. Será que comprei pouco no rancho desse mês?”

“De certo, sim. Passa no mercado amanhã”.

“Amanhã, não dá. O leite tá custando o preço de um carro. Vou na semana que vem”.

Uma semana sem poder tomar Nescau. E eu achando que ET dava medo.

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