As fechaduras devem se acostumar. Precisam reconhecer a mão do dono. *

Ela

Morava longe do trabalho. Na verdade, longe era eufemismo. Morava numa cidade e ganhava seu pão em outra. Acordava antes mesmo que o dia desse o ar de sua graça. No inverno o vento frio matinal era de cortar a pele ressecada que ela exibia sem orgulho. Não se importava. Afinal tinha conseguido alugar sua primeira casa desde que saíra da jurisdição de sua mãe e o local que encontrara ficava no sopé de uma serra, como se fosse uma banheira de acumular friagem. Não era grande seu lar. Nem belo. Mas era limpo e disso ela se orgulhava. Esfregava a pia encardida pela ferrugem, limpava monasticamente os cantinhos do cômodo único onde morava com uma gata e dois cachorros de olhos tristonhos. Confundia as palavras ao falar porque com elas não mantinha muita familiaridade. Preferia observar o que acontecia em volta olhando pra ponta dos seus pés desajeitados a fitar quem quer que fosse diretamente nos olhos. A impressão que tinha era que se encarasse alguém, isso a ofuscaria, não poderia suportar. Tinha aprendido isso a duras penas.

*

Nem com seu primeiro namorado tinha encontrado jeito pra notar que ele sim não tirava os olhos dela. Um dia deu um esbarrão tão grande com ele na saída da igreja que não foi possível desviar o olhar. E foi quando notou, pela primeira vez, a força de seus braços sobre seu corpo miúdo de adolescente. Gostou daquilo. Quis trombar de novo na missa seguinte e fez de tudo, dessa vez pra que ele a notasse. Funcionou. A trombada seguinte foi no sofá da casa de sua mãe, uma quarentona bonita, dona absoluta de seus predicados e sem papas na língua. Quase o avesso da filha minguada e de pouca conversa.

O namoro foi vingando como o mato que crescia veloz no fundo da sua casa de cômodo. Não havia poda que desse jeito naquele ninho de mãos que se cruzavam por cada centímetro do corpo um do outro. Aquele homem parecia percorrer seus recantos como um maestro. Não deixava nem a menina respirar e lá vinha outra lampada, outra rajada de beijos, outro jorro de prazer, outra onda de suor que a ruborizava e deixava sem saber o que esperar, como reagir. Assim se tornou mulher. Três dias antes de fazer 16 anos. E assim também passou a ver sua barriga crescer, rija na parte de baixo, pontuda na de cima, pelos próximos nove meses. Era estranha a sensação. Ela não parecia mais ser dona dos seus ossos e vísceras. Algo dentro dela tomava conta, se apoderava do espaço, como fogo no mato seco. Não havia comida que parasse dentro dela. Nem a criança que despontava inquieta dentro de si, para vergonha de sua mãe e desespero dela. O Padre de pouca estatura e grande diâmetro da Igreja próxima de sua casa chegou a fazer uma visita sorrateira após a missa de domingo para clamar que ela começasse, enfim, a estudar, a aprender as primeiras letras. Se isso acontecesse, seria a primeira daquela família de iletradas que mal sabia reconhecer o ônibus que se aproximava todas as manhãs antes de partirem para suas jornadas de trabalho. Sua mãe foi taxativa: se ela teve assanhamento suficiente para emprenhar, que tomasse conta do filho que estava por chegar e parasse com a história de ler e escrever. Até porque para elas o destino já havia sido traçado há pelo menos três gerações de desgraçadas atrás. E o que se enxergava nessas mal desenhadas linhas do destino era feito de miséria, labor e dor.

O dia de parir se aproximava. O pai de sua cria já não aparecia mais com frequência em sua casa, reforçando o que sua mãe esbravejava pelos cantos: “mulher fácil é assim, embarriga logo e o homem- que não é trouxa— foge logo”. Ela ouvia aquilo como uma sentença. Andava cabisbaixa pelos cantos, entre um enjôo e outro, passando as pequenas mãos pela imensa barriga que agora praticamente dominava seu corpo. Tinha pouco fôlego para caminhadas, mesmo que curtas. Seus pés já estavam com edemas, assim como seus seios a ponto de explodir e seus lábios rachados e inchados. Tinha marcas escuras por todo o ventre, como se fossem rastros que a criança sugeria lá de dentro da barriga. Um dia, voltando do mercado antes do que sua mãe esperava, porque tinha esquecido o dinheiro em casa, abriu a porta de seu quarto e naquele momento aprendeu a fechar o coração para o mundo: viu sua mãe que se deitava e refestelava com o pai do seu filho em sua própria cama. Não conseguia perceber claramente quem estava sobre quem. Mas o semblante de ambos ao notá-la foi parecido: olhos esbugalhados e uma saraivada de gritos de “sai daqui”, “menina boba”, “toma seu rumo” no meio de outros impropérios. Ela bateu a porta com tanta força atrás de si que a fechadura da porta carcomida saiu do lugar e ficou em suas mãos. Sentou-se no chão gelado da cozinha. Sentiu o frio percorrer sua coluna e um calor molhado verter de suas pernas. Estava sangrando muito. O cheiro no ar era de ferro e náusea, lembrando as vezes em que ia comprar carne no açougue. Conseguiu se arrastar até perto da janela e gritar para que a vizinha a acudisse. O resto é lembrança torpe e nublada. E um filho retorcido e miúdo que não vingou.O desamparo, irmão da solidão, gritou tão forte em seus ouvidos que deixou um zumbido até hoje. E os seus olhos resolutos decidiram não mais funcionar por dias a fio, prostrados que ficaram com o que viram.

Daquele dia em diante, depois que perdera o filho e qualquer fio de alento, passou a carregar consigo a fechadura, como uma espécie de amuleto particular que lembrava o seu não-lugar no mundo. Ela era uma passageira errante sem lugar marcado pra sentar. “As fechaduras devem se acostumar. Precisam reconhecer a mão do dono”. (frase do livro Dias de abandono de Elena Ferrante)

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