Clarice Lispector

Ave Clarice, cheia de graça

Hoje vou falar por ela. Como num oráculo pessoal, abro uma página qualquer de um dos seus livros e escolho passagens que parecem sussurrar pra mim. Aprecio muito essa brincadeira de Tábua Ouija literária. É que Clarice é maga. E transborda. De tantas e tão distintas maneiras que meus copos metade-vazios ficam à espreita, sorvendo as gotículas que ela verte em forma de verbo. Verbo-perturbação. Verbo-ação. Verbo-oração. Verbo-reverberação. Dentro de Clarice moram palavras que ganham contornos. Estão bem na cara de quem se permite enxergar. Lar. Ar. Ri. E eu rio do respiro que essa morada me desvela.

“O gosto do vivo. Que é um gosto quase nulo. E isso porque as coisas são muito delicadas. Ah, as tentativas de experimentar a hóstia” (A Paixão segundo G.H, 1964).

E me lembro, vá entender a razão, das duas vezes que me precipitei ainda criança provando o corpo de Cristo sem a devida consagração. Comi hóstia não autorizada e gostei do macio daquele pequeno círculo se desfazendo com a minha saliva. Um ato herético? Mera gaiatice infantil? É Clarice quem esclarece: “Ah, e eu que não sabia como consubstanciar a minha alma. Ela não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa.”

Especulo por alguns segundos: talvez ela tenha sido apresentada à minha alma? Tomou nota das minhas entranhas e eu nem me dei conta? Suspeito que sim. Pois é num outro acaso de página que Clarice adivinha, bruxa que é, meu destino essa semana: Maceió. “Devo aqui registrar uma alegria. É que a moça num aflitivo domingo sem farofa teve uma inesperada felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um arco-íris. Experimentando o leve êxtase, ambicionou logo outro: queria ver, como uma vez em Maceió, espocarem mudos fogos de artifício.” (A Hora da Estrela, 1977)

Até consigo ver o brilho que os fogos-de-artimanha produzem enquanto desenham no ar vertigens coloridas que vão pra lá e pra cá, pra cima e pra baixo, rabiscando o horizonte. Mandalinhas pirotécnicas a cintilar por toda parte, provocando nossos sentidos. “E não havia perigo de gastar este sentimento com medo de perdê-lo, porque ser era infinito, de um infinito de ondas do mar” ( Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969).

Hoje empresto palavras dela que se misturam às minhas, num amálgama etéreo e profano, cheio de pistas de uma e da outra que vão sendo largadas no chão, à guisa de sentido.

Mas “não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”. (Água Viva, 1973)

E invento esse final onde em sonho me encontro com ela, peço bênção, subo as escadas-caracol de sua casa imaginária até onde ela me permite alcançar. Espreito o vão que se forma bem no meio desse redemoinho de degraus, como num vértice que produz ecos com as nossas vozes de contralto. Nada disso é de verdade, eu sei.

Não importa. “Estou me fazendo. Eu me faço até chegar o caroço”. (Água Viva, 1973).

Eu

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