Cidades Para Pessoas

A praça do caminho é aquela onde as pessoas falam com seus cachorros como se fossem crianças, onde as pessoas ignoram suas crianças como se fossem, pois é. Aquela que eu cruzo bem cedo de olho nas amoras, pitangas, jabuticabas, onde o velho me abriu um sorriso que quase doía e a moça passou de preto mergulhada na música que saía do seu fone de ouvido bordô. Uma praça, portanto, qualquer. A mesma praça onde vez por outra eu largo livros que já li-deveria ter lido-concluí que não vou mesmo ler. Livros onde escrevo bilhetinhos para esgarçar a impessoalidade da minha bolha urbana, livros que eu esqueço pelos bancos com a alegria cheia de expectativa que tinha quando era mãe de menina pequena e me desdobrava em caligrafia de fada do dente, coelho de páscoa, duende recolhendo pedidos para o natal. Sim, eu largo livros em praças. Um pouco como escrevo aqui e em tantos outros endereços, muros cibernéticos, cadernos online ou de papel, um pouco como quem estende a mão e tenta parar uma engrenagem qualquer.
Eu às vezes volto pelo mesmo caminho para olhar os bancos vazios da praça, eu às vezes conto pageviews, likes, corações virtuais. Dissonância, é o nome do que acho quero enxergar. Serendipity também, talvez. Espiar essa migalha de contato com os olhos limpos de pressupostos e me lembrar de que a cada vez que estou aqui por inteiro, você tem que estar também. Que nesses rasgos da rotina moram magias inesperadas e que, enquanto ainda for possível fabricar entrelinhas para os dias, teremos bastante trabalho a fazer.

