Inadequada

Ilustração: Min Liu

Me diz quem é a menina que se tornou mulher, dia após dia, nua em frente ao espelho, sem ter a Inadequação como companhia? Assim mesmo, com I maiúsculo, porque o sentimento é tão sólido quanto uma pessoa, uma irmã, uma amiga, uma mãe. Sentir-se inadequada faz parte do nosso crescimento, assim como o seu abandono, o grito de libertação, a dor, o sofrimento de aceitar-se como se é — e por fim, adequada, senão para os outros, mas para nós mesmas, isso simboliza lindamente o nosso amadurecimento.

Recentemente li o desabafo de cinco mulheres que me chamaram a atenção. Primeiro, pelo eco que causou aqui dentro, como se o empoderamento do corpo, uma coisa tão íntima, não fosse na verdade uma batalha de uma, ou de cinco ou de seis, mas de toda uma geração de mulheres que está agora em torno dos 30 e precisa conversar. E depois, por perceber que esta conversa está em curso e chegou a hora de participar também.

Gabriela

@gahbe

Gabriela me sacudiu inteira quando escreveu este texto, tão sincero e lindamente construído, sobre o seu desejo secreto de ser pequena. Ela mesma admitiu que não foi fácil. Sofreu para ter coragem de se expor assim, mas foi lá, seguiu em frente, motivada sabe-se lá por qual força estranha e publicou. Sorte a minha.

“O que acontece é que eu me assusto quando me vejo. Me acho sempre, grande. “Mas eu sou desse tamanho mesmo?” “É isso?” “as pessoas me vêem assim?” é como se eu não me reconhecesse no tamanho que tenho. Como se na verdade, o eu-gabriela, que mora aqui dentro fosse pequena e eu não desse conta desse corpão todo que tem aí fora. Fico querendo ser pequena”. (Gabriela)

Gabriela é uma das mulheres mais bonitas que eu conheço. Eu adoro as fotos dela. Esta aí de cima, inclusive, estava no meu celular porque achei tão linda que salvei para copiar um dia. Gosto de como ela usa as cores, as poses, a poesia. Gosto da cor da pele, das unhas curtinhas, o cabelo bagunçado, a cara, o corpo. Sério. A Gabriela é toda linda. E saber que ela também luta sua pequena batalha olhando para suas fotos, as mesmas que eu acho simplesmente maravilhosas, diz muito sobre como somos tão gentis com os outros e tão pouco com nós mesmas.

Paula

Paula encontrou na avó a força para aceitar a si mesma. Hoje, aos 82 anos, ela também não se sente adequada. Por que? Depois de longos anos de dietas e remédios, a avó da Paula ainda não ficou magra. E não basta estar saudável, bem disposta, ser bem humorada e sair e viajar e namorar. Se você é uma idosa que não é magra, ninguém acha que você envelheceu bem. Neste texto, Paula conta como refletir-se na avó a fez entender que não adianta lutar contra a genética. Nunca. Porque a genética sempre ganha.

“Reconhecer que sou parecida com minha avó, em grande parte, significa aceitar minha estrutura corporal de descendentes de alemães e ver nela que eu nunca serei magra. Veja, não sou gorda, como minha avó não é, mas nós duas estamos naquele corpo que ninguém olha e diz que estamos ótimas”.

Eu sempre me imaginei aos 82 olhando para as minhas fotos de hoje e pensando “que menina boba”. Aguardo esta grande epifania no fim da vida para sentir-me bonita e finalmente adequada. Pensar na avó da Paula me fez ter um arrepio na espinha. E se não adianta esperar? E se eu não tiver sossego nunca?

Biessa

@biessa

Envelhecer bem e não estar magra não é o bastante. Ser saudável e não ser magra, tampouco. A Biessa resolveu compartilhar uma pergunta anônima que recebeu no Sararah: “Vc malha tanto. Pq não emagrece? Ou tem alguma doença ou come além do que posta”. Para quem não conhece, a Biessa é muito saudável. Ela corre, faz muay thai, faz crossfit, come batata doce, come quinoa. Mas ela não é magra e isso deve estar dando um nó na cabeça de muita gente. Menos na dela.

“Tô acima do peso considerado ideal? Tô. Mas tenho boas taxas e exames, me exercito, como bem. Sabe, quando eu estive mais magra foi quando desenvolvi uma depressão. Eu estava tão obcecada pelo meu peso que esqueci de cuidar de todo o resto de mim — e não, isso não é saudável” (Biessa)

Então eu percebi como essa pergunta não foi uma grosseria desnecessária. Foi uma grosseria, certamente, mas foi útil tanto para Biessa quanto para mim. Porque ela nos alerta para um comportamento muito comum e às vezes até inconsciente que muitas de nós reproduzimos sem perceber. Quem nunca foi a amiga que disse “fulana tá bem, tá tão magra”. Ou então “nossa, fulana engordou tanto, o que será que aconteceu?”. Isso significa que vimos a magreza como sinônimo de felicidade e os quilos a mais como tristeza. O que, na verdade é completamente equivocado e nós sabemos bem disso pois muitas são as vezes em que doenças como a depressão emagrecem enquanto alegrias, como o amor e a pizza, engordam.

Camilla

@camilla_pires

Há alguns anos, Camilla dividiu publicamente sua jornada de emagrecimento. Eu fui uma das milhares de pessoas que acompanharam, quilo a quilo, a transformação incrível daquela mulher cheia de foco, força e fé. Ela perdeu mais de 20kg, ficou famosa, lançou livro, mas voltou a engordar. E agora lida com esse sentimento que começou fracasso e se torna aceitação.

“Posso ter emagrecido muito mas de fato não cheguei a lugar algum, pois não estava bem comigo internamente, e uma hora isso explodiu aqui dentro e descontei toda a minha mágoa interna de mim mesma na minha melhor amiga: a comida”.

Outro dia, ela publicou esta foto no Facebook, onde refletiu sobre como seus dias de magreza mudaram pouco ou quase nada o que ela sentia lá dentro. Sabe aquela ideia de que se você fosse mais magra, mais peituda ou mais, sei lá, “qualquer outra coisa que você não é”, um portal mágico se abriria à sua frente e tudo seria diferente? Então, isso é uma mentira. E quando portal nenhum aparece e nada muda na sua vida a não ser o fato de que você está mais magra, mais peituda ou mais “qualquer outra coisa”, então nesse momento você olha para dentro e vê que a Inadequada continua lá, onde sempre esteve.

Alexandra

@alexandrismos

Conheci Alexandra há pouco tempo. É uma mulher gorda, sim, e estilosa, vigorosa, que fala alto, ri, faz rir e anda por aí rodeada de amigos. Em suma, uma mulher cool. No curto período em que convivemos, ela estava participando de uma competição de paródias no Multishow em que aparecia num clipe cantando sobre autoestima, toda poderosa e sensual, de roupa justa e muito rebolado. Eu só pensava: “Meu Deus, que mulher”. Eu queria me sentir assim também. Ela anda e fala e até se move com a segurança de alguém que está à vontade no mundo. Então, apareceu na minha timeline um vídeo da Alexandra e eu fui ver o que ela tinha para falar e o que ela tinha para falar era “como eu superei a vontade de morrer, me apeguei à vida e desisti do suicídio”.

Canal Alexandrismos

Eu pensei: “MAS QUÊ?”

E depois eu chorei.

Porque, gente, não existe caminho fácil para andar por aí com a segurança de alguém que está à vontade no mundo. Não quando se é mulher. Ser mulher significa andar por aí com a Inadequada dentro de si. Tirar ela de dentro de nós é um processo difícil, demorado e cheio de dor, igual parto. Praticamente impossível de se fazer sozinha. Foi por isso que quis compartilhar esses relatos e à meu modo, falar de mim também. Precisamos falar disso. Precisamos falar muito. Só chegaremos aos 82 anos sendo livres se o fizermos juntas.