Personagem "Eleven" da série Stranger Things do Netflix

Louquinha de pedra é apelido!

Estava eu saindo de um evento na Cidade das Artes no Rio, logo após ter dado uma longa palestra quando fui abordada por uma garota com jeito simpático e sorridente. Imaginei logo que o assunto seria ligado à trabalho, como acontece com freqüência nessas situações e fui caminhando com ela em direção à saída do auditório, solícita. A conversa extravagante que estava por vir foi iniciada com o seguinte spoiler de sua parte:

- “Oi, tudo bem? Eu tenho que te dizer uma coisa: sou muito louca!”

Olhei com espanto pra ela, mas ainda sem entender o motivo da frase dita à queima roupa. Respondi que todos somos um pouco “louquinhos” e achei que ela se referia ao fato de ter me abordado e me puxado para um canto, isolando-me do restante do grupo com o qual estava trocando cartões. Ela insistiu:

- “Eu preciso muito me abrir com você e tem que ser agora.” A partir daquele momento, começou a falar segurando no meu braço com certa força, o que me causou algum desconforto porque me senti imobilizada. Uma vaga idéia cruzou por alguns segundos minha cabeça, questionando se aquilo seria uma brincadeira, se ela era alguma artista performática, se tinha me confundido com alguém. Mas…enfim. Ela continuou: “Eu sou filha de um pastor e de uma missionária. Mas, olha, na verdade fui adotada por eles aos 11 anos. Antes disso eu vagava pelas ruas de São Paulo, sem eira nem beira.” Eu nem sabia direito o que responder diante de tantas confissões mas fui adicionando algumas interjeições insossas como “hum”, “sei”, “claro”, “entendo”, na intenção de dar algum rumo para aquela inusitada prosa.

Mas tinha mais a caminho:

- “Eu me converti, sou evangélica. Mas sou mucho lôca, você nem imagina”, completava ela entremeando as frases com risadinhas desmedidas. “Sabia que estão fazendo um filme sobre mim? Você acha que interessa pro seu Canal?” Eu tentei sair daquela sinuca de bico sem parecer grosseira e perguntei se já tinha algum material finalizado. Ela replicou que não tinha nada pronto, que não sabia muito mais do que aquilo que estava me dizendo, mas que certamente seria lindo porque o assunto principal era justamente a sua vida. Da minha parte, tentei esclarecer gentilmente que não poderíamos dar nenhum parecer sobre esse tipo de produção sem antes avaliar a qualidade final do material. Aí o bate-papo subiu de tom e ficou um pouco mais soturno, enquanto ela apertava com mais pressão o meu braço, me deixando ligeiramente assustada e com vontade de sair correndo:

- “Deixa eu te falar uma coisa muito séria: eu não gosto da Globo”, disse ela, bem perto do meu ouvido, entredentes. “Eles cismam em pôr um trio de sacanagem em tudo, sabe? Tipo três pessoas se pegando, se bolinando?? Culpam a mulher de verdade e apóiam a porra da amante. Você concorda com esse tipo de coisa? Fala pra mim. Fala. Você acha isso certo? Pra mim não dá. É o fim da picada, sacô”. Continuei atônita, naquela altura já sem reagir muito claramente, querendo terminar logo o estranho encontro. Mas ela ainda precisava desabafar:

- "E eu não agüento mais essa coisa chata de não poder ser branca, ser rica, ser hétero. Eu sou tudo isso e estou muito bem, obrigada. Por que tenho que ser preta, pobre e gay? Fala sério. Isso é tipo uma ditadura da putaria. Tenho que me desculpar pra sociedade por ser o que sou?"

Julguei que nem valia a pena reagir à tanto disparate porque não serviria de nada e só me deteria ao lado dela por mais alguns sufocantes instantes. Ela então olhou bem para o meu rosto e perguntou, como que tentando me decifrar: “Vem cá, eu deveria te conhecer? Eu esbarrei numa tal de Kéfera outro dia e não fazia a menor idéia de quem ela era. Disse isso bem na cara dela. Você é desse tipo de gente também?” Eu ri nervosamente e respondi: “Não, sou super simplinha, ninguém sabe quem eu sou, pode ficar tranquila”.

Voando alto, bem perto do céu

Estávamos no segundo piso da Cidade das Artes. Pra quem não conhece o local, é uma enorme estrutura elevada e construída sobre uma esplanada suspensa a 10 metros de altura, com inúmeros vãos gigantescos, intermináveis escadas, flutuando arquitetonicamente sobre um parque público. Tudo muito bonito, mas super devassado e vertiginoso. Pra tentar disfarçar e sair pela tangente, olhei para o chão que tinha partes de piso transparente, permitindo ver o parque metros e metros abaixo e comentei, nervosamente: “Nossa, olha só esse vão! Que altura estamos! Me deu uma baita vertigem agora. Que medo de pisar nessa superfície!” A garota olhou pra baixo com uma expressão excitada e disparou: “Já eu mega quero cair daqui”.

Foi a gota d'água. Entendi aquilo como uma senha, uma espécie de aviso do além pra me livrar da tal figura détraqué. Vendo que a conversa a partir dali só iria rumar ladeira abaixo (literalmente), resolvi ser um pouco mais assertiva, tirei sua mão do meu braço, movendo-me para longe dela e dizendo que tinha sido bom conhecê-la, encerrando a prosa abruptamente e descendo as escadas sem olhar para trás.

Uma coisa é certa: ela bem que avisou.

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