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Nem tudo é o que parece: o mundo todo é uma ilha.

Débora Garcia
Feb 5, 2018 · 5 min read

Quando cheguei às Ilhas Canárias depois de quase 16 horas de viagem e me deparei com aqueles pedaços de terra (sete deles, pra ser mais exata) absolutamente volteados por água e consideravelmente distantes dos continentes africano e europeu, minha primeira impressão foi, paradoxalmente, de claustrofobia. Justamente algo que nos acomete quando estamos em lugares fechados, não numa vastidão como aquela. As ilhas eram tudo, menos “fechadas”, mas a sensação de apartamento do meu cordão umbilical geográfico-emocional foi inevitável. E me pegou como um banzo, logo de cara.

Experimentei um misto de ansiedade, coração disparado, cansaço e uma impressão de que estava num beco sem saída. No caso, o beco era a Ilha de Tenerife, uma das principais do arquipélago espanhol. A outra ilha mais próxima, Gran Canaria, estava a uma distância de 40 minutos de avião e as demais, eu não faço ideia, mas certamente não “logo ali”, ao alcance de um rápido passeio de barco, por exemplo. Sei que do quarto do hotel onde eu estava eu conseguia ver o mar e muito, muito distante, avistar uma outra ilhota, espécie de irmã menor de Tenerife, com luzes acesas, indicando algum tipo de vida humana por lá. Mas ninguém ouviria um grito meu daquela distância. Não que eu quisesse fugir de lá, mas tinha o sentimento constante de que estava presa, impedida de ir para onde quisesse, quando quisesse. Além de me dar conta do quão longe de casa eu me encontrava.

Depois da claustrofobia, a outra sensação foi de desprendimento. No caso, desprendimento físico do continente, como se tivesse deixado uma parte minha lá e não tivesse a resposta se iria voltar a encontrar tudo — ao menos não do jeito que deixei — novamente. Estava literalmente “ilhada”. Me via isolada, afastada, apartada, separada, insulada, como confirmam os sinônimos para esse termo encontrados no dicionário.

A subjetividade torcendo a objetividade

Porém, conversando com um dos insulares, um autêntico canário com ascendência guanche (povo originário da região), descobri que ele se sentia exatamente como eu, mas em uma outra circunstância: quando visita Madrid, na Espanha. Pra ele, chegar lá é sentir-se sufocado por tanto concreto por toda parte, barulho, aglomerações humanas e, sobretudo, nada de água à vista. E isso o deixa sem chão, sem referência. Disse que não consegue ficar muito tempo por lá, vai sentindo a respiração piorar, ficar oprimida e tudo o que pensa é em voltar para sua casa e assim sentir-se em terra firme. Ao menos nos seus termos.

Tenerife, Ilhas Canárias.

Tudo é uma questão de perspectiva e ponto de vista

Se eu quisesse dar uma volta completa por Tenerife, de carro, em alta velocidade, em uma de suas autopistas, eu levaria 3 horas. Dá pra ver que a ilha não é exatamente pequena nem tão rústica ou precária. Está bem povoada, é autossuficiente, tem infraestrutura urbana considerável, uma vasta oferta de hotéis e resorts para atender aos turistas e muita beleza natural. Pra se ter uma ideia, de um lado, avistando o topo de uma montanha — no caso o vulcão Teide — vê-se seu pico nevado. Do outro, o mar, de um azul retinto de doer os olhos. Com um microclima bastante peculiar por conta de sua localização geográfica, as pancadas de chuva são constantes, mas o sol insiste em se manter pulsando quase que o tempo todo, dando o ar de sua graça. O que significa que há arco-íris por toda a parte e o tempo todo. Às vezes achava que tinha ido para Shangri-lá e não para as Canárias. Conto isso porque sob vários pontos de vista, Tenerife poderia ser considerado o “paraíso”. Espécie de concretização do sonho de diversão típico que nos acomete com frequência. Mas produziu em mim, por alguma razão subjetiva, mais melancolia do que euforia. Além do fato de eu ser peculiar ou esquisita mesmo — em bom Português -, também há que se considerar que não fui para lá a turismo. Inúmeras atividades de trabalho me esperavam e deram o tom da visita, talvez afetando consideravelmente minha percepção.

Estar numa ilha te deixa com os sentidos aguçados. Pelo menos comigo foi assim. Uma outra reflexão que me ocorreu no hotel onde fiquei hospedada foi perceber que eu era uma das mais novas por lá. A média de idade dos hóspedes girava em torno de 70 anos para mais, numa rápida olhada minha que detectou idosos aos pares por toda parte. Quando é inverno rigoroso na Europa, os pássaros-pessoas de lá migram para o sul, em busca de calor, imagino. E a “hora Cocoon” acontecia quando todos velhinhos e velhinhas chegavam simultaneamente para comer e desfrutar da companhia uns dos outros vestidos com roupas leves e floridas, de veraneio, fosse para almoçar ou jantar. Porque pra eles, 12 graus é “calor”. Já pra mim, sentia uma friaca constante de doer os ossos, por conta do vento rascante e da baixa temperatura em comparação ao verão do Rio. Mais uma vez, tudo é em relação a.

Isso tudo pra dizer que a nossa percepção não é nada confiável. Vive nos pregando peça. Depende dos nossos hormônios, do nosso background cultural, das nossas crenças, do nosso repertório, do nosso cansaço ou disposição. Muda conforme o vento e o ângulo. E também em função das companhias com as quais desfrutamos (ou lamentamos) um determinado momento. Por isso é prudente nunca acreditarmos de imediato nas nossas primeiras impressões e colocá-las à prova constantemente.

De minha parte, Tenerife conseguiu uma proeza: me deixou claustrofóbica de início, depois desprendida, me apresentou à super lua mais intensa que já pude ver, me brindou com infinitos arco-iris sobrepostos por toda parte e me colocou em contato com povos e culturas fascinantes durante os três dias de festival de documentários em que tive o prazer de participar. Tudo ao mesmo tempo agora e num só lugar.

E praticamente reeditou a frase “a primeira impressão é a que fica”, porque no final a sensação era de puro deleite. Nesse caso, a última impressão é a que me inunda agora que escrevo sobre essa experiência. Acho que a água que rodeava as ilhas me alcançou de alguma maneira.

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Crônicas, contos e reflexões da mulher contemporânea

Débora Garcia

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