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Welcome, de ponta cabeça.

O capacho está ao contrário, minha querida. Está dizendo “welcome”, mas para quem já está em casa. Isso quer dizer alguma coisa? — disse a mãe de seu marido deixando um riso irônico escapar por entre os lábios, como era de costume.

Já passara dos setenta anos. Isaura conservava ainda muito da beleza dos seus anos de juventude. A pele alva, os olhos claros que se espremiam sempre que comentava alguma coisa com sua costumeira bile e acrescentava uma expressão de quem sabia ter ferido o interlocutor, mas mesmo assim guardava um orgulho das suas tiradas rascantes. E tinha vencido dois cânceres, à custa de muitas sessões de química intensa, mas também de uma estamina toda particular que lhe percorria o corpo. Vaso ruim não quebra, comentaria a sabedoria popular. As pessoas, com o passar dos anos, lhe haviam roubado o tempo de convívio. Poucas restaram, fosse pela distância física imposta pela vida ou pelas almas apartadas. Isso porque para estarem a seu redor era preciso que abrissem mão de um afeto rasgado ou incondicional que poderia se esperar de uma senhora septuagenária. Com ela tudo era condicional. E as condições eram basicamente aquelas que acreditava serem as corretas. As suas, melhor dizendo. Suas frases volta e meia eram entremeadas por sua expressão favorita: “fulano me magoou”, “beltrana me feriu com o que disse”, “siclano me machucou com suas atitudes”. Curiosamente a mágoa, a ferida ou o machucado vinham mais de suas atitudes e frases ácidas do que se poderia supor. Era como se ela própria se envenenasse com a estricnina que sua saliva produzia. Havia se tornado um casulo, um ente isolado do resto. Um projeto de solidão esculpido ano a ano com estranho afinco. “Eu não tenho mais ninguém. Uma foi pra longe, o outro não liga a mínima e o menor não consegue nem ouvir minha voz. Você vai ter que cuidar de mim na minha velhice, Teresa”.

No café da manhã fora de casa, as farpas voavam unidirecionalmente: “você não comia mais chocolate da última vez que nos vimos. Agora se lambuza com isso todo dia. Como isso é possível? Não entendo sua lógica. E depois reclama que está engordando.” Teresa havia criado com ela uma relação ambígua. Apesar de rascante e implacável, era uma mulher muito inteligente, uma referência no estudo de Botânica, além de sempre ter estado ao seu lado na criação de seus filhos, para o bem ou para o mal. Tinha ouvido de Isaura que aqueles que parimos passam por nós e depois devem ser entregues para a vida. “Somos receptáculos apenas. Encubadoras ambulantes. Nosso papel é fazê-los vir para a Terra, deixá-los crescer e um dia partir para viverem suas vidas”. Mas para Teresa a ideia de criar seus rebentos de um jeito próximo e disponível era, no entanto, a única maneira possível. Era para isso que tinha gerado duas vidas. Queria que fossem independentes, autônomos, que criassem sua própria história, mas rogava aos céus ser parte disso tudo. Na percepção de Teresa, Isaura falava aquilo tudo da boca pra fora. Era difícil para ela lidar com o afastamento dos filhos, com a vida que ficava a cada dia mais esvaziada e desprovida de sentido. Na contramão de sua amargura que só crescia. Não fosse pela presença dos seus três gatos pela casa, viveria completamente só. “Estes aí sim são devotos a mim. São os seres em quem eu posso de fato confiar. Que ironia. Sou melhor servida pelos felinos do que pelos humanos”, protestava Isaura.

O primeiro marido a havia abandonado com poucos anos de casamento e um primeiro filho asmático. Só conseguia se referir ao seu primeiro amor como “o crápula desalmado”. O segundo companheiro pareceu-lhe um pouco mais promissor. Ao menos por algum tempo. Fez-lhe dois filhos, construiu com ela uma casa elegante à beira do lago Orion em Aldeia da Serra, onde moraram boa parte da vida conjunta. Mas sucumbiu aos encantos de uma jovem loira do escritório que não tirava os olhos dele e de sua conta corrente polpuda. Isaura venceu o divórcio, conseguiu uma robusta pensão, ficou com a casa do lago e ganhou para sempre um coração partido no inventário de suas dores privadas. “Homem não presta, Teresa. Nem por meus filhos eu ponho a mão no fogo”. O maior pânico de Isaura era um dia não estar de posse de sua consciência e ficar na mão de alguém que definisse seu destino. Temia, mais que tudo, ser colocada num asilo como um dia ela mesma havia feito com sua própria mãe. “Mas a situação era muito diferente”, sempre defendia-se. “Eu estava recém- divorciada, com um filho asmático e choroso pra cuidar, um salário parco nas mãos e uma mãe senil que sempre foi mais um peso do que um alento. Não tive outra saída”.

Acervo pessoal.

Conseguia ser racional até esbarrar na sua verve naturalmente bruxa e entrar em contato com formas inusitadas de perceber a situação a sua volta. Negava aquela habilidade também, como se fosse uma espécie de sentença sobre sua cabeça, como se com aquele talento para antever o futuro e farejar o entorno com escrutínio, funcionasse mais como uma maldição pessoal que escondia a sete chaves. Em suas elucubrações solitárias, imaginava que talvez o melhor para si fosse manter-se afastada dos outros e com isso não ser invadida por suas angústias pessoais, seus anseios, suas dores. Os repelia como se fossem vespas famintas. Não queria fundir-se em seus lamentos, suas memórias. Era melhor que se afastasse e, mais que tudo, se preservasse de um mundo poroso, permeável, insidioso. Era bom que se mantivesse, portanto, refratária ao seu entorno. Uma questão de sobrevivência, pensava.

*

Levantou-se da cama, não trocou palavra com o filho ou a nora, como de costume. Andou tossindo um pouco pela sala que já recebia os primeiros raios de sol da manhã. Viu os netos passarem pela cozinha e baterem a porta atrás de si saindo para a faculdade, sem mostrar qualquer interesse por aquela idosa que também tinha seu sangue correndo nas veias. Não conseguiu dizer “cuidem-se”, como era próprio de seu ritual de avó arisca. Virou uma xícara robusta de café puro em sua boca. Sentou-se para olhar o jornal do dia e resmungar entredentes sobre as manchetes. Vasculhou a geladeira e encontrou os legumes e o gengibre que queria. Estava determinada a cozinhar algo naquele dia. E queria, mesmo que não soubesse ainda com clareza, que todos gostassem do resultado. Deu uma ordem para que a empregada buscasse no mercado tomilho e manjericão. E que conseguisse também um pouco de limão siciliano. A receita era de família. Tinha os ingredientes na cabeça, imaginava. Conseguiria, se ficasse concentrada, preparar seu assado de porco com ervas favorito. Os legumes já fumegavam na panela e Teresa finalmente se aproximou: “quer alguma ajuda?”. Isaura argumentou: “você tem mais o que fazer, vá cuidar das suas coisas e não se atrase para o trabalho. O jantar hoje está por minha conta, sorriu economicamente com o canto da boca.

A faca afiada da cozinha não poupou a parte direita do seu dedão. O sangue quente e escuro pingou um pouco sobre a carne já em vinhad’alho. Ficou com asco e lavou sem dó o pedaço de lombo manchado em água filtrada. “Estraguei tudo de novo”, pensou. Mas não se fez de rogada. Gastou meia garrafa de vinagre balsâmico para tentar impor novamente algum gosto naquela carne inerte que jazia em suas mãos. O tomilho também entrou na mistura algo macabra. O efeito do vinagre já começava a se notar e o lombo ia modificando sua cor, preparando-se para ir para o forno. Isaura parecia agitada. Não queria errar a mão. As horas foram passando tão rápido enquanto tentava domar seu assado quanto os julgamentos que percorriam sua cabeça. Onde estaria seu filho? Chegaria a tempo do jantar? Os netos já haviam dado um jeito de fugir da avó, como de costume. A empregada passara rapidamente pela cozinha anunciando que os dois decidiram ficar na casa de amigos porque uma chuva forte era prevista para aquela noite e as ruas da cidade encheriam com facilidade, o que não seria uma surpresa para ninguém em tempos de pancadas fortes de verão. Isaura pareceu não se incomodar com a notícia, mas por dentro rangia os dentes de raiva por mais uma vez deixar os netos esvaírem de suas mãos como areia fina da praia. “Aqueles dois desistiram de mim. Que surpresa”, murmurou de forma azeda para si mesma.

*

“Tudo pronto, Teresa. Vá chamar o Carlos pra se juntar a nós. Creio que seremos só nós três. O assado está pronto. Os meninos já tomaram outro rumo, você deve saber”, anunciou Isaura ao sair do banho pronta para o que deveria ser um jantar em família organizado por ela. Os três sentaram-se à mesa. A conversa inexistia. Nem mesmo os comentários triviais sobre a chuva que caía na cidade e o aumento dos combustíveis — tema preferido de seu filho empresário — pareceram dar conta da monotonia e do silêncio que se instalaram em torno da mesa de jantar. Teresa ainda tentou povoar o ar com palavras: “hum, a carne parece saborosa”. Na verdade, mentiu. Não só não tinha gosto algum como estava assada demais, quase dura. Mas nem ousou comentar algo do gênero para evitar farpas desnecessárias da sogra. Carlos parecia inquieto. Passava a mão na barriga e via seu rosto avermelhar. Algo não estava bem. Levantou-se da mesa e foi direto para o banheiro. As duas entreolharam-se, tentando decodificar o que estava acontecendo. Teresa foi atrás do marido e o encontrou devolvendo para o vaso parte do que acabara de comer. Enojou-se com a cena. Ajudou-o a recompor-se e o levou para o quarto, percebendo que ele estava um pouco mais quente que de costume. “Que diabos”, exclamou Isaura. O que será que ele tem? Esse estômago dele nunca foi lá essas coisas. Melhor deixá-lo descansar”, sugeriu desapontada.

De volta à mesa, Teresa não conseguiu terminar sua refeição que ficara quase intocada. Isaura, que nunca tinha sido um bom garfo, empurrava parte da comida que tentava revirar com os talheres num prato semi-vazio. O assado tinha sido um desastre de grandes proporções. Como era a própria presença de Isaura naquela casa. No final da noite, desconcertadas e algo enjoadas, sogra e nora permaneciam à mesa por razões distintas: a primeira, para não dar o braço a torcer. A segunda, porque sentia-se acuada pela mãe de seu companheiro, não importava a circunstância. Aquela presença sempre impunha um certo decoro e um certo terror em doses semelhantes. Resolveu, talvez como último recurso que sugeria uma trégua simbólica naquele mal-estar, encher a taça de Isaura com um pouco mais de Merlot. Talvez o caldo entornasse de vez regado a um pouco de álcool. Manobra arriscada e imediatamente aceita por Isaura que simplesmente secou a garrafa ao encher por duas vezes seguidas sua taça. Não demorou para que a septuagenária rompesse o silêncio e finalmente derramasse um pouco do seu íntimo para aquela que nem do seu sangue era: “Teresa, eu estraguei tudo. Mais uma vez. E só sobrou você. Como sempre. Nenhum deles me quer por perto. Eu sei disso. Olho pra você e vejo muito de mim. Não se assuste. Não é assim tão ruim quanto você deve supor. Pare de se esquivar. Me dê a mão. Eu não mordo. Não nesta noite.” Isaura parecia viver um desassossego diferente do habitual. Seus olhos queriam marejar, mas secavam antes mesmo de conseguir passar a mão no rosto. Suas mãos trepidavam diante de Teresa e ela se ressentia de deixar transparecer tamanha fragilidade numa noite que tinha sido retumbantemente desastrosa. Seu estômago revirava e anunciava que talvez a parte do lombo que recebera o maior quantidade da estricnina colocada por ela no início do cozimento tinha acabado mesmo dentro de si e se familiarizado de imediato com o ambiente ácido de suas entranhas. Não resistiu por muito tempo. Caiu diante da nora produzindo espasmos fantasmagóricos.

*

O enterro suscitou pouco interesse. Só os familiares mais próximos se atreveram a dar um último aceno, mesmo que por obrigação. Seu filho não escondia o alívio de sua partida, embora fizesse cara de pesar diante dos poucos presentes na cerimônia. Os netos preferiram ficar em casa e guardar na memória a imagem da avó viva e mordaz. Teresa tinha a garganta seca ao abrir ao voltar para a casa e olhar para o chão: rearrumou o capacho que agora acenava “welcome” na direção correta de quem adentrava.

Sentiu-se, como há muito tempo não percebia, subitamente bem-vinda.

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