O que Rodrigo Hilbert pode ensinar aos taxistas cariocas

Daniela Kopsch
Jul 26, 2017 · 3 min read
Foto: Paola Piola

O Rio de Janeiro acordou esta semana com vários pôsteres espalhados pela cidade. De primeira, o que me chamou a atenção foi a agressividade da mensagem. “Se tem assaltantes, estupradores e pedófilos, é Uber”, dizia um deles. Depois, me impressionou a cara de pau. A campanha é claramente movida vocês sabem por quem.

Os taxistas cariocas são uma instituição curiosa. Parece que desde os tempos do cabriolet eles já circulavam por aí se achando os donos da cidade, até mais do que o próprio imperador. Se o dia estava chuvoso, não saíam do ponto, para o bem do burro que puxava o pequeno veículo. Se a corrida era longe, aí mesmo é que não arredavam o pé. “Não dá. Não se pode fazer o burro andar isso tudo”.

Mais de um século depois, o discurso continua o mesmo. Se tá chovendo não dá, se é longe também não dá. Quem nunca foi recusado por um taxista na vida é porque não esteve no Rio de Janeiro. Isso sem falar no delicado tema do abuso sexual, no qual também eles não fazem um bonito papel. É aquilo, né? Homens sempre representam um risco potencial, estejam eles dirigindo carros pretos ou amarelos.

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“Ah, mas nem todo homem…”

Sim, nem todo homem. Ainda bem, né? Já pensou se fosse? O fato é que toda mulher se sente desconfortável dentro do carro de um desconhecido. E mais ainda se o desconhecido em questão não pode ser rastreado e encontrado depois — um taxista, por exemplo. Por isso, é tão ridículo amanhecer com um cartaz desses colado na sua rua. Como é que se atrevem?

O Uber, assim como os outros apps similares, são modelos de negócios que precisam de regulamentação e fiscalização. Não podem operar sem pagar impostos e tampouco lucrar em cima da exploração de motoristas, muitos desempregados e desesperados por causa da crise. Dito isso, uma vez que o serviço existe, que é bom e que ainda pode melhorar, ele inaugura uma nova relação entre os usuários e os motoristas. Um relacionamento onde você ganha água e balinha, onde você pode pedir para aumentar ou reduzir o ar condicionado e até (olha só!) escolher o volume e a estação da rádio.

Em outras palavras: um tipo de negócio que bota o táxi no chinelo. E não tem lambe-lambe que vai nos convencer do contrário. Na Austrália, a Associação de Taxistas fez um chororô parecido e desistiu ao perceber que a campanha simplesmente não teve efeito nenhum. “Nós não estamos oferecendo um serviço que as pessoas querem usar”, concluiu o representante do grupo ao The Guardian. “Se não mudarmos, vamos ver nossa indústria cair no declínio”.

O que eles fizeram? Abriram um serviço para ouvir “críticas honestas” dos clientes. Com o feedback, eles pretendem fazer as mudanças necessárias para se adaptar aos novos tempos e assim, sobreviver em um mercado “que existe há 150 anos”. É um conselho que os taxistas poderiam seguir por aqui também. Chamo isso de efeito Rodrigo Hilbert: ao invés de reclamar da concorrência, melhorem o serviço.

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