Onde foi que eu botei minhas chaves?

Ilustração: Christopher David Ryan

Saio de casa atrasada em mais ou menos todos os dias de minha vida. De modo que eu fecho a porta do prédio ainda segurando as chaves e vestindo o casaco e me perguntando por que diabo o motorista do (insira aqui a startup inovadora e exploratória de sua preferência) estava dando aquela volta toda antes de chegar. Eu já havido sido muito bem alertada pelo grupo da minha família no Whatsapp sobre o mais novo golpe da bandidagem: se fazer passar por motorista para atrair as vítimas distraídas. E como eu me enquadro bem nesse público alvo, passei a me preocupar em decorar a placa e o modelo do carro evitando assim entrar nas garras de um assassino estuprador.

Muito rapidamente identifiquei uma grave ignorância sobre o universo automotivo. O que é um Versa? O que é um Spark? E pior: quem é que batiza um carro de Kwid? Para não me desconcentrar demais com essas questões, parei de prestar atenção no modelo do carro e tentei memorizar apenas a placa. O problema que se revelou a seguir é que apenas esse pequeno conjunto de sete dígitos — KFC 0510, vamos supor, já foi demais para a minha cabeça. Logo eu passei a olhar apenas as letras e fiquei bem assim.

Hoje, porém, descobri na metade do caminho que eu estava no carro errado. Sim, eu sei, o alerta de assassino estuprador soou altíssimo dentro de mim. Aproveitei que estava no sinal fechado e saí rapidamente me desculpando por ter cancelado o pedido em cima da hora.

“Preciso cancelar aqui, viu? Me desculpe é uma emergência. Tchau”.

Você deve estar se perguntando por que uma pessoa se desculparia com um potencial bandido perigoso que estava levando-a sabe-se lá para onde para fazer sabe-se lá o que. Não vamos falar sobre isso agora. Talvez em outro momento. Deixo esse mistério para a sua mente brilhante tentar desvendar. Neste caso, favor entrar em contato com J. P. Rafael, meu terapeuta. Ele tem total interesse nessa questão.

A preocupação que me assolou a partir dali é outra: por que minha memória falhou na simples missão de decorar três letrinhas? Meu cérebro está derretendo? Me aprofundando nesta auto-análise, descobri que eu não sei o telefone de ninguém além do meu marido. Acabei aprendendo depois de tantos anos colocando o contato dele em todo cadastro que eu preenchia. Sinto que chegou o momento de admitir isso e colocar meu relacionamento à prova: ou ele me perdoa por ter atendido tantas ligações de telemarketing ou eu o abandono por não ler os meus textos. Saiba mais na próxima semana.

Voltando ao meu problema de memória: observei, horrorizada, como eu recorro ao smartphone para procurar qualquer fiapo de informação durante uma conversa: o nome de uma série ótima que eu vi (imperdoável) ou de uma pessoa citada na Lava-Jato (compreensível) e até mesmo o dia do mês (preocupante). Foi por isso que pesquisei no Google:

“Esquecer o dia do mês”

“Os sintomas de Alzheimer: sinais de alerta precoce”, ele respondeu.

Achei essa teoria um pouco exagerada.

“Hipocondrismo causado por internet”, rebati.

“Oito novas doenças causadas pelo uso da internet. Você tem alguma?”

É isso.

Eu tenho uma doença causada pela internet — e não é hipocondria, embora eu entenda perfeitamente por que isso esteja acontecendo com as pessoas. Alzheimer? Sério mesmo? Enfim, o que eu provavelmente tenho é o chamado Efeito Google, ou “a tendência do cérebro humano de reter menos informação porque ele sabe que as respostas estão ao alcance de alguns cliques”.

Isso não é uma doença real, é uma mudança de comportamento que começa a ter alguns efeitos negativos — como por exemplo, tratar o celular como um HD externo onde você procura informações que não precisa mais memorizar. Isso está enfraquecendo nossa capacidade cognitiva e chegamos em um ponto onde a memória de pessoas jovens (entre 18 e 35 anos) está muito pior do que a de alguém com mais de 55 anos. Esse estudo descobriu que os jovens esquecem muito mais facilmente em qual dia estamos (15% contra 7%), onde colocaram as chaves (14% contra 8%) e até mesmo de tomar banho (6% contra 2%).

Decidi desligar o celular durante o resto do dia e tentei me virar por mim mesma. Depois de um sem número de situações onde eu tive que recorrer, embaraçada, a palavras como “aquela pessoa” ou “aquela coisa” para tapar os buracos da minha memória, percebi que este será um exercício de longo prazo, mais lento e doloroso do que eu esperava. Voltei para casa de metrô pensando nas mudanças de atitude que eu quero adotar daqui pra frente: 1) estar plenamente atenta no momento presente, 2) parar de fazer leitura dinâmica nas notícias e ler com atenção apenas os temas que realmente me interessam 3) resistir à tentação abrir o Google durante uma conversa e 4) tive que parar por aí porque cheguei na porta do prédio e não achei as chaves de casa. Esqueci no carro do potencial assassino esta manhã.

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