
Por uma pedagogia transgressora e profana
Pela manhã entro apressada no elevador do prédio levando minha filha de seis anos para a escola. Um vizinho volta-se para ela sorridente e pergunta se já está de férias. Eu me adianto, como sempre, e respondo que ainda não, que faltam alguns dias, mas a pequena contesta: Tô sim, mamãe. Na minha escola a gente sempre tá de férias!
Embora eu me considere uma mãe bastante inclinada para uma educação contemporânea e inovadora, me flagro pensando se a instituição educativa que parece viver “férias” permanentes não estaria, na verdade, “facilitando” demais o dia a dia dos alunos, cobrando pouco, afrouxando os conteúdos ou disciplinando de forma muito leve, en passant. É curioso como certos termos nos levam a certos pré-conceitos e ideias pré-fixadas. Mas se examinamos com cuidado, evitando cair em ciladas óbvias, as certezas embaralham-se e eventualmente desmontam-se, dando espaço para outras compreensões.
Há várias definições no dicionário para o termo férias. Entre elas, uma que gosto bastante. Sinônimo de mudança da rotina cotidiana que ajuda a restaurar a disposição das pessoas. E a etimologia da palavra me parece bastante simbólica. Férias é o plural de féria que também pode ser entendida como “dia de festa”.
Imagine, então, uma escola que conjuga um espaço que muda a rotina cotidiana, restaura a nossa disposição e ainda proporciona a sensação de um dia de celebração! Independentemente da fantasia ou percepção que minha filha pareça ter sobre sua escola em particular, me alegra que ela tenha esse entendimento tão inspirador. Pois é durante as férias, por exemplo, que nos enchemos de energia, damos uma pausa na mesmice diária, renovamos nossas aprendizagens, encontramos amigos, arrumamos gavetas, dormimos até mais tarde e ficamos à vontade, bem próximos da nossa natureza mais atávica. Aquela que não é necessariamente cerceada ou teleguiada por compromissos, prazos, metas, desempenho, entregas, cobranças.
O dia passa apressado.
Enquanto escrevo esse texto para o 3Devi, lembro que quando conheci Renato Noguera, filósofo que estuda os povos tradicionais, fui apresentada por ele à ideias poderosíssimas sobre educação. Não por acaso em um dia que passou, curiosamente, de forma desacelerada.
Educar é resistir ao esquecimento da infância, diz Renato. E resistir ao esquecimento só é necessário porque parece um processo irrevogável, que será apagado queiramos ou não. Então é preciso ter um ato de vontade contra esse apagamento, segurar com força a ideia de infância que é outro conceito pouco aclamado. É durante esse período da vida que nossos alicerces emocionais são construídos, onde nossa base cognitiva é sedimentada e onde aprendemos a ser e nos entender como entes humanos. E num dado momento, parece que isso tudo se esvai. Chega a vida adulta, acachapante, cheia de horários, cronogramas, planilhas, percentuais, resultados, conquistas, méritos.
Renato sabe bastante também sobre os índios Krahó. Todos os jogos que acontecem na aldeia terminam necessariamente em empate, ele reitera. Isso porque o ato de jogar e brincar é mais importante que o resultado atingido.
Brincar. Jogar por jogar. Estar em permanente estado de férias. Lembrar-se da infância. Há algo de extremamente profano e transgressor nessas imagens quando vistas em conjunto.

Me vem, então, à lembrança o educador espanhol Jorge Larrosa que escreveu um dos meus livros de cabeceira: Pedagogia Profana. Ele sugere que adotemos uma postura inquieta diante do ato de educar e aprender. Que adotemos uma prontidão que abandone as seguranças de um mundo “administrado”. Que tenhamos uma experiência de aprendizado que não seja subordinada ao pensamento alheio, tampouco ao dogmatismo.
Com frequência penso na vida (e na morte da bezerra) e me dou conta que mesmo com recaídas de vez em quando, eu tendo a encarar a educação como uma grande abertura ao desconhecido, como se fosse uma viagem sem amarras. Aceitando desvios de rota, crendo num ato de abertura à própria metamorfose. Acredito que ler o mundo (algo que deveria ser ensinado constantemente por qualquer escola) foge, portanto, de qualquer tipo de controle pré-estabelecido, por levar a exercícios de interpretação mais arriscados e cada vez mais diversos, gerando um tipo de rompimento saudável com o que nos cerca, para que tudo isso possa ser reinventado.
Especulo que Jorge Larrosa talvez não conheça Renato Noguera, mas sei que num aspecto, ambos pensam de forma parecida: Larrosa diz que tornar-se “maduro” é invariavelmente esquecer de já ter sido criança, porque a infância foi sepultada em algum lugar remoto da consciência por conta da violência que nos faz “maiores de idade”. Será que eles trocaram esses pensamentos telepaticamente?
Já é noite. Olho pro lado e vejo a infância pulsante da minha filha acontecendo diante dos meus olhos. Ela desenha a lápis uma cena alegre num papel arrancado de um caderno. Pergunto do que se trata. Tô desenhando uma escola, mamãe. Essa é a escola dos não-desistidores. De onde ela terá tirado aquilo? Será que ela sabe sobre o quê escrevo? Sincronicidades, só pode ser.
Acho que ela está naquele momento batizando o mundo à sua maneira. Que ela, por mais que cresça, não desista de sua infância. E que eu não desista de acreditar nisso.

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