Quer escrever melhor? Caminhe

Ilustração: Daniela Henríquez

Carregamos esta sabedoria ancestral nos genes, no inconsciente, sei lá onde, mas é de conhecimento geral da humanidade que caminhar ajuda a pensar. Trezentos anos antes de Cristo, Aristóteles já dizia isso e dava suas aulas caminhando por Atenas. Outros filósofos também ganharam fama de caminhantes inveterados: dizem que Kant saía todos os dias às três e meia para seu passeio na alameda que hoje é conhecida como “caminho do filósofo”. Nietzsche também dava suas passadas por nada menos do que seis ou oito horas antes de sentar-se e começar a escrever. Não estou com isso sugerindo que você comece a caminhar no sol à pino das três, que aqui não é a Alemanha e isso provavelmente vai causar uma insolação, mas veja bem, será que estamos deixando para trás um hábito humano extremamente importante? Não estou falando da caminhada como atividade física (embora esta seja uma ótima função secundária), mas como um exercício criativo que vai melhorar suas ideias e sua escrita.

“Parece que, no momento em que minhas pernas começam a se mover, meus pensamentos começam a fluir” (Thoreau, filósofo)

Não é difícil entender por que andar a pé nos ajuda a pensar. Quando caminhamos, o nosso coração bombeia mais sangue e oxigênio para todo o corpo, especialmente para a cabeça. Até mesmo o impacto dos pés no chão é capaz de estimular as atividades cerebrais. A descoberta é dos pesquisadores da Universidade Highlands, do Novo México, que mediram o fluxo sanguíneo no cérebro de estudantes enquanto eles faziam caminhadas tranquilas em torno de 3km/h. “O que é mais surpreendente é por que demoramos tanto para finalmente medir estes efeitos óbvios”, disse o líder do estudo, Ernest Greene, ao apresentar a pesquisa na reunião anual da Sociedade Americana de Fisiologia. Até então, achava-se que o fluxo sanguíneo para o cérebro era involuntário e não podia ser estimulado.

Mas pode. Depois de um esforço leve, experiências mostram que as pessoas têm melhor desempenho em testes de memória e atenção. Andar regularmente também promove novas conexões entre as células cerebrais e até mesmo estimula o surgimento de novos neurônios. E isso são apenas as alterações químicas. Quando começamos a falar dos efeitos psicológicos, o hábito de caminhar tem resultados ainda mais poderosos. Primeiro, porque é um exercício solitário e, assim como a meditação, nos força a conviver com nós mesmos e com os nossos pensamentos. É por isso que muitas peregrinações, como o caminho de Santiago e a Pacific Crest Trail, são conhecidas como uma jornada de autoconhecimento — embora a Cheryl Strayed, que andou 1.770 quilômetros para encontrar o sentido da sua vida, tenha admitido em Livre, sua autobiografia, que passou um terço desse trajeto cantarolando mentalmente uma música qualquer.

“O que é mais surpreendente é por que demoramos tanto para finalmente medir estes efeitos óbvios” (Ernest Greene, pesquisador)

Porque, na verdade, não é o que você pensa que conta, mas como faz isso. O ato de caminhar só, seja através de uma uma trilha que corta um país, ou apenas o caminho entre a sua casa e o trabalho, é uma maneira de abrir espaço no seu HD tão cheio de informações. Afinal, raro é um minuto da vida em que sua atenção não está sendo exigida por alguém ou alguma coisa — ao mesmo tempo em que as notificações no celular não param. Nosso atual estilo de vida, tão preso dentro de carros, prédios e smartphones deixaria horrorizado o autor de Walden, que queria ensinar as pessoas a largarem tudo e fugir para a floresta. “Confesso que estou surpreso com o poder da resistência, para não falar da insensibilidade moral, dos meus vizinhos que se limitam a lojas e escritórios durante todo o dia por semanas e meses e até anos”, escreveu Thoreau. “Quão inútil é se sentar para escrever quando você não se levantou para viver!”.

Duro demais? Sim. Thoreau era um cara muito chato e não me surpreende que tenha decidido viver isolado no bosque — mas o que ele escreveu há quase 200 anos ainda hoje faz muito sentido. Talvez até mais. Essa pseudo atenção que dedicamos a todas as atividades com que temos que lidar diariamente causa uma fadiga mental cumulativa. Caminhar, pelo contrário, exige um esforço consciente mínimo. Enquanto isso, sua atenção estará livre para vagar por onde ela quiser, um estado mental de liberdade que tem sido associado a insights e ideias inovadoras. Só o que você precisa fazer é repetir o movimento instintivo e ancestral de colocar um pé na frente do outro, de novo e de novo e continuar assim por trinta ou sessenta minutos. Até nisso, o exercício de caminhar é parecido com o de escrever. Depois de organizar as ideias na cabeça durante o passeio, é hora sentar-se e colocar isso pra fora, uma palavra depois da outra, de novo e de novo.

Para ler:

  1. Livre, Cheryl Strayed
  2. Andar, uma filosofia, Frédéric Gros
  3. Walden, Henry David Thoreau