Bay of Luanda (Source: Wikimedia Commons)

O som das ruas

The Sound of the Streets

A nossa mente é capaz de fazer associações que não podemos controlar. As referências que recebemos vão se acumulando pouco a pouco e sem perceber acabamos por condicionar a nossa visão de mundo. É natural, é humano. O mesmo acontece com lugares e a África é um bom exemplo de como associamos a sua cultura apenas ao exotismo, ao tribal. Esse é o problema do discurso único, ficamos com uma visão parcial da realidade e a assumimos como verdadeira.

Our mind is capable of making associations we can’t control. References come to us and slowly accumulate. They condition our worldview without us noticing. It is part of our human nature. This is also true of places. Africa is a good example of how we associate cultures only with exotism or tribalism. That is the problem with a single source worldview: we get a partial view of reality and we assume it to be the truth.


Angola é bem diferente da África que nos ensinaram a imaginar. Luanda é o urbano que não percebe que crescimento econômico pode ser também desenvolvimento. É o olhar em um canto e estar em Dubai e em outro reconhecer retratos tristes – e conhecidos – da miséria africana. Essa desigualdade, esse descompasso imprimem o modo de ser da cidade. Luanda é um cenário com histórias que se encontram e se perdem nesse acelerado do tempo e vagarosidade da vida.

Angola is very different from the Africa we are taught to imagine. Luanda is a city that has not yet acknowledged that economic growth can mean development. It is quite an experience to look on one side and feel like we are in Dubai, and then look on the other side and recognize the sad portraits of African poverty that we are used to. This imbalance is reflected in the behavior of the city. Luanda is a scenario that interweaves stories that find and then lose themselves, in the fast pace of time and the slow pace of life.


Como palco de qualquer boa história, é preciso haver uma trilha sonora e nisso Luanda é capaz de mostrar suas contradições e incoerências. Há muito barulho na cidade. Os carros que buzinam incessantemente, as obras que parecem infinitas, a polícia onipresente. Todavia, o verdadeiro som da cidade vem das pessoas que cá vivem. A música que pulsam, sentem, dançam e expurgam toda a sua vida nessa selva de loucos.

Good stories always need a soundtrack and in Luanda you can find the perfect one, the one that reveals all the city’s contradictions and inconsistencies. There is a lot of noise in the city. The ceaseless blowing of horns, the endless construction work, the omnipresence of the police. However, the real sound of the city comes from the people who live there. The pulsing, dancing, emotional music that purges their lives in this crazy jungle.


Não se pode falar de Luanda e não falar do gênero musical angolano mais conhecido internacionalmente, o kuduro. Pelos passos bruscos e pelas letras diretas, o kuduro passa sua mensagem e deixa sua marca por onde passa. O ritmo surgiu nos anos 80, da mistura de música eletrônica com ritmos locais e com uma coreografia que tentava imitar o Vandame em um filme. Como uma expressão original das favelas daqui, as musseques, o kuduro pode ser comparado a um primo angolano do funk.

You can’t talk about Luanda without mentioning the most popular Angolan musical genre: kuduro. Through sharp moves and straighforward speech, kuduro spreads its message and leaves its mark wherever it goes. That music emerged in the 80’s from a mix of electronic music and local rhythms, with a choregraphy reminiscent of a fighting Van Damme in international movies. Originally a mean of expression from the suburbs, kuduro looks like a cousin of Brazilian funk.


Um som da periferia, com temas controversos para a intelectualidade, mas com alcance livre entre qualquer classe social. Em uma cidade com tantos muros, condomínios fechados e seguranças, é o kuduro que vai e rompe essas barreiras. Entender o fenômeno do kuduro é simples, basta sair um dia à noite para aproveitar a cidade. Os moradores de rua, que provavelmente cuidarão do seu carro, passam o tempo dançando e fazendo competições entre eles. Você passa por eles e resolve entrar em um bar frequentado por angolanos, todos de classe média alta. O que toca? Kuduro! Todos os hits e maiores sucessos. Depois de beber alguns drinks, você resolve ir para uma festa para expatriados, sem contar com quase nenhum angolano. Trilha sonora? Kuduro novamente.

It is a sound from the suburbs, despised by the intelligentsia but freely accessed by all social classes. Kuduro breaks all social barriers, even in a city with so many walls, enclosed communities and security guards. It is in fact an easy phenomenon to understand and you just need one night out to enjoy it. First, you will see the homeless boys, the ones taking care of your car, dancing and competing with each other to see who’s the best kuduro dancer. Later, you will go to an Angolan bar full of upper-class locals. What are they listening to? Kuduro, for sure! The best hits. After a few drinks, you decide to go to an expat club — foreigners only, no Angolans. What is that music? Hey, Kuduro again!


Apesar de todo o sucesso, o kuduro não é um ritmo fácil. A música é direta a um ponto em que pode soar agressiva e a coreografia tão rápida que é difícil de acompanhar. O kuduro me faz entender que a música é só mais uma expressão do que se é e que sua descrição cabe perfeitamente às pessoas que aqui vivem, talvez um pouco difícil de acompanhar, mas uma vez que você entra no ritmo, é difícil não ficar envolvido e encantado.

Despite all its success, kuduro is not an easy genre. The rhythm is abrupt to a point where it sounds aggressive and the pace can be so fast that it’s hard to keep up. Kuduro taught me that music is yet another mean of expression of your identity, and it reflects perfectly the people of Luanda. It may be a bit hard to follow their moves, but once you’ve adjusted, it becomes hard not to feel entranced, and a part of it.