[crônica] XLII. O melhor amigo do bêbado

QUANDO ESTAMOS BÊBADOS REALMENTE ESQUECEMOS DE ALGUMAS COISAS? Sendo uma pessoa que nunca passou por essa experiência sempre achei que não lembrar dos acontecimentos só porque estava alcoolizado, ou extremamente alcoolizado, fosse a tal “conversa para boi dormir”, ou seja, uma desculpa para não assumir certos atos que, em consequência do alto nível de álcool no sangue, levou a pessoa a exercer.

Uns chamam de blackout alcoólico outros de amnésia alcoólica. Mas o fato de se esquecer de acontecimentos, sejam eles positivos ou negativos, depois de uma bebedeira sempre foi motivo para render boas histórias.

O esquecimento não acontece no exato momento em que está se divertindo de forma extravagante, quando os instintos mais oprimidos são soltos e tomam conta do ser alcoolizado. O esquecimento, causado pelo álcool, vem depois desse episódio. Geralmente após o tão merecido sono de recuperação.

Talvez seja algo além do biológico. Sua mente sabe de todos os vexames que passou na noite passada e resolve te poupar desses fatos e, sem você ordenar, decide apagar alguns episódios catastróficos da sua mente. Se pensarmos por este lado, então sua memória nada mais está fazendo do que te ajudar de verdade.

Não dá para esquecer que beber demais se trata de uma intoxicação do corpo e este tipo de evento costuma causas sequelas na mente e uma delas, a mais normal, é o dito esquecimento.

Não se lembra do momento em que subiu na mesa. Não se lembra de ter tirado a camiseta no meio da balada. Esqueceu-se que cochilou na porta do apartamento quando deixou as chaves caírem no chão. Não lembra quem beijou, que terminou o namoro, que começou um namoro, que lavou as mãos com a água do vaso sanitário, que tomou banho com roupas, que dormiu de tênis ou que deitou de cabeça pra baixo na cama.

Além do esquecimento ser um fato muito presente naquele que passou da conta na bebida existe um outro companheiro que, diferente do blackout, auxilia muito a vida do bêbado: o balde.

Um pessoa que bebeu demais não é nada sem um balde perto da cama. Há quem o busque antes de ir deitar e o deixa preparado para receber tudo aquilo que o precioso organismo humano julgar ser desnecessário. O balde, que em outros momento serviu para limpar a casa, fica ao lado da cama só a espera.Isso, claro, quando não se dorme abraçado ao balde.

O bêbado não precisa fazer muito esforço. Só se virar, minimamente mirar e os movimentos peristálticos reversos fazem todo o trabalho. O melhor amigo de um bêbado estará ali para ouvir todas as confissões de um organismo que precisa se desintoxicar.

Ouvi dizer, até, que a cama costuma girar quando se está bêbado. Seguramente este é um dos motivos mais óbvios para a utilização do balde, não há tontura que aguente. Porém, ouvi dizer também, que existe uma técnica muito fácil e que costuma funcionar em casos de cama-giratória. Basta que, ao deitar, uma das pernas fique de fora da cama, não necessariamente com o pé em contato com o chão, mas a perna quer seja a direita ou a esquerda precisa estar lá fora.

Beber sem pensar no amanhã parece ser algo que nunca vai sair de moda e que costuma estar relacionado a momentos felizes. Eu não condeno quem busca na bebida um forma de se soltar, de ser aquela pessoa alegre e festiva nas festas e confraternizações. Condeno quem bebe todos os dias.

Mas de uma coisa estou certo. É mais feliz quem consegue entrar em contato com seu universo pitoresco sem uma gota de álcool e só conquista esta façanha quem conhece o caminho, sem atalhos, de uma felicidade momentânea.