.a ilha.
Quando perguntaram a ele qual era o ingrediente principal de um bom peixe e, sem nem pensar, ele respondeu “alecrim”. Essa foi a primeira vez em que ela duvidou de suas escolhas e precisou pensar no que diziam aqueles olhos, que naquele momento estavam menos castanhos do que ela se lembrava. A resposta certa, para ela, era coentro.
Fez as contas de há quanto tempo eles se conheciam e se ainda havia lacunas que precisavam ser preenchidas pelo tempo que justificassem o fato dele ter trocado o nome dela. Ela procurou não se ofender nunca, compreender sempre e percebeu que para um ser que nasceu como ela havia apenas uma explicação aterrorizante para toda essa serenidade perturbadora: amor.
O último ataque de pânico ela teve quando se deparou com o amor, não eram boas as lembranças. Entre as coxas dele ela exalava amor e quando mais transpirava amor, mais se calava e mais distante ficava; porque aquele homem era seu predador e ela precisava disfarçar gesto e cheiro para que ele nunca soubesse que a qualquer momento poderia devorá-la.
A primeira vez que ele a viu chorar, mandou que engolisse o choro — com o olhar, é verdade — mas ela engoliu e sentiu-se culpada, já que ele parecia envergonhado com o fato de que aquela figura que se debulhava em lágrimas era a companheira que ele mesmo, sem saber bem porque, convidara para aquela viagem. Ele nunca levou em consideração que ela pudesse chorar; isso e a prontidão sexual talvez fossem as características que o faziam voltar a procurá-la, ainda que a afastasse sempre que ela queria estreitar os laços.
Mas houve uma vez, uma noite em que a psicodelia — que ano era aquele? — fez com que ele a pedisse para falar, enquanto o estado em que se encontravam levou a serenidade e o medo de perdê-lo embora. Os olhares que um dia se cruzaram ao som de Chico não se encontravam na escuridão daquela sala. O significado das palavras também não. A única vez que ele quis ouví-la, ela tentou dizer que tinha medo de que o laço fosse efêmero demais e se quebrasse diante de uma diferença momentânea de desejos. Ele entendeu que ela estava insatisfeita por um motivo vulgar.
A única vez em que ele deu a entender que o que os levara até aquela ilha — em uma sala escura com uma cama pequena e emprestada pelo passado — eram momentos mais importantes do que aquele presente; ela entendeu que não havia mais nada que ele pudesse falar, apenas porque não tinha nada para sentir. Não com ela, não por ela. Fumou dois cigarros sem ouvir outra pergunta sobre o que sentia.
Passou o último dia com ele chorando sempre que ninguém, ele ou o passado anfitrião, estivessem olhando. Porque ela (quase) nunca chorava, a não ser quando se encontrava em uma via onde estava presa na contramão; apenas quando sentia que havia perdido o jogo, masque teria que passar horas com um adversário que sabia o placar, mas não revelava.
Ele queria vê-la jogando sem parar. Um voraz competidor, que ignorava as lágrimas de dor, que perguntava o motivo dos soluços por mera curiosidade e dava a história por encerrada.
Na areia, quando ela percebeu que a ilha existia porque o mar se confundia com a inundação de seus globos oculares, o viu, então, em meio à água e, pela primeira vez, não estancou o choro. Ao contrário, chorou com mais vontade e em instantes tudo que via era água. Não sem dor, até pensou em algum momento em correr para salvá-lo da inundação que criara, mas lembrando que não sabia nadar, deixou que ele se afogasse.
