“você gosta de beatles?” por favor, não façam mais essa pergunta

como aprendi que a indiferença pode ser a maior das ofensas à uma fanbase

.cruz.
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Aug 23, 2017 · 5 min read

É muito comum se sentir atacada durante uma discussão argumentativa, mesmo que ninguém te xingue diretamente. A minha dica número um é sempre: evite tornar seus argumentos uma fortaleza para o seu ego e, mais ainda, não deixe esse mesmo ego se sobressair aos argumentos válidos do seu interlocutor. Não é sobre você que se discute, mas sobre o assunto. Fim. Ou pelo menos deveria ser o fim.

Poucas vezes eu me senti pessoalmente ofendida, ainda que de forma velada quanto uma vez — que eu espero ter sido a última mesmo — que revelei que não gosto (leia-se aqui: não ouço no meu dia a dia) de Beatles. Tive que dar longas explicações e passar por uma lista infinita de perguntas que se repetiam para ver se eu me contradizia. Coisas que eu só respondia porque o relógio marcava 4 da manhã e o metrô ainda não estava funcionando em São Paulo. Sabe, quando a gente conversa com amigos é natural que troquemos dicas, gostos, impressões e na maioria das vezes está tudo bem, tudo ok. Mas não quando se trata de Beatles.

De forma geral (antes de começar a gritar: NÃO PODE GENERALIZAR releia parágrafo 1), as pessoas simplesmente não aceitam que você diga que não gosta deles e a primeira coisa que dirão é que eles foram cruciais e revolucionários e que influenciaram uma porrada de coisas do que ouvimos hoje. Então, se você concorda com eles, diz que reconhece, acha massa que os caras abriram esses caminhos, mas que não curte pegar seu fone e pirar no som de Beatles e acha que algumas bandas hoje, para o seu gosto, superaram os caras, automaticamente tudo que foi dito antes desse “mas” é completamente apagado. Porque não se pode simplesmente reconhecer os Beatles. É preciso amar os Beatles.

“Mas ninguém se importa se você não gosta de Beatles; foda-se sua feia, boba,chata”. Se assim fosse, eu não passaria pelo mesmo quiz de ter que PROVAR que conheço Beatles para, quem sabe, as pessoas não me importunarem e estragarem a roda de conversa só por causa de um gosto.

Acredito, sem muito julgamento de valor, que Beatles se tornou aquela referência que surge na pré-adolescência, na qual você se agarra e, a partir dela, constrói tudo o que virá formar suas preferências dali em diante. Tudo bem, a minha é o Chico Buarque e não acho que isso diminua a genialidade dele, principalmente pra mim mesma, e muitas pessoas que torram minha fina paciência odeiam ele — especialmente nos últimos dias em que ele se tornou o ultimate machista do pedaço. Para outros é Legião Urbana ou qualquer banda de rock clássico. Há ainda uns amigos de infância que insistem nos ensinamentos de Bob Marley.

Essa referência é aquilo que seus pais gostaram e você também pode gostar. Permitindo que, ao mesmo tempo, haja uma conexão entre o que eles foram e o que você quer ser (uma versão melhorada e mais rebelde deles - RISOS) mesmo estando na fase de rompimento com esses caretas. Os Beatles eram meio caretas, inclusive. E sem o papo de LSD que os caras que curtem um doce podem ser bem caretas demais.

Eu mesma tive uma fase que era roqueira demais, tinha umas correntes no bolso e tudo. Era bem ridícula, mas me orgulho muito dessa fase. Foi quando eu pude me permitir a me jogar, pintar meu cabelo de roxo [ que eu usaria até hoje se não tivesse encaretado um tico também] e ouvir cada um dos álbuns de Beatles diretamente dos downloads feitos no KaZaa e fornecidos pela minha irmã mais velha (que também não curte Beatles e é a maior influência quando os assuntos são música e como aguentar as merdas da vida com autodepreciação cômica) pra decidir o que me agradava mais ou não. Algumas coisas me agradaram, talvez. Em algum momento, quem sabe. Mas nunca mais voltei por esse caminho; descobri outras coisas e por mais influenciadores que os garotinhos de Liverpool sejam, nunca trilhei o caminho de volta para essa fonte.

É porque caminhamos sozinhos a partir daí que nos sentimos impelidos a adotar algo que possa ser uma unanimidade que não é burra, que pode ser reconhecida como uma verdade absoluta para escapar em última instância, para quando suas preferências forem sendo deturpadas ao longo do caminho e você se pegar cantando Molejo e tiver que dizer que “gosta ironicamente”. Isso não faz da banda melhor ou pior, o trabalho deles está ali, intacto. Para ser gostado ou não.

Só que quando essa âncora é tão grande e tão pesada como esses caras ainda são e, realmente, ainda tão influenciadora é difícil deixar o barco zarpar. Então, acaba parecendo viável e aceitável vociferar e me chamar de burra porque eu disse que Beatles faz parte da cultura pop, como se isso fosse uma heresia. Como se isso fosse diminuir essa “divindade”. Isso mostrou, pelo menos no posicionamento daqueles caras com quem eu conversava, o quanto de preciosismo e de se sentir especial mora nessa devoção. Ainda que um dos argumentos levantados fosse, justamente, a perenidade e o alcance da banda, eles se vangloriavam por gostarem de algo que era radicalmente “diferente e inovador”, como de fato foi nos anos 60, como se fazer parte da cultura pop os tirasse desse pedestal.

Eu nunca vejo ninguém defendendo o Beethoven assim, que nunca precisou de letras para contar uma história emocionante em suas músicas, que fez, ele sim, o que ninguém mais fez. Eu também não faço isso, mas enfim, vale a comparação. Cara, ninguém defende o Beethoven sabe por quê? PORQUE ELE NÃO É UM ÍCONE OVACIONADO DA CULTURA POP.

Eu só tive outras âncoras para me firmar nessa fase de merda que é a adolescência, em que tudo que você quer é ser alguém e ninguém leva a sério suas considerações. Só fui por outros caminhos e tudo bem. Não me sinto preciosa ou especial por não gostar de algo. Também não me sinto por gostar. Embora confesse que o dia que me encontrei em uma mesa de bar com mais três amigos que também não gostavam de Beatles tive uma sensação única de pertencimento.

Ei, é isso. Seu gosto por Beatles não faz você melhor e nem mais conhecedor do que aqueles que têm outras referências, só faz de você alguém que encontrou o pertencimento, que se reconheceu, alguém que ouve Beatles e pensa: isso é pra mim. E está tudo bem. Eu penso isso quando ouço Racionais MC’s, Caetano, Novos Baianos, Beyoncé, Prince, The Smiths, Beach Boys e uma caralhada de gente que eu acho essencial pra música e pra vida. Mas seria bem legal se a gente pudesse livremente demonstrar estranheza por quatro caras de Liverpool que formavam uma boyband — no mais literal sentido do termo — e faziam um sonzinho maneiro. É gostoso curtir o que se gosta. E desnecessário ter que explicar o que não se gosta.

Ah, e escrever isso aqui foi só porque dialogar foi algo TÃO impossível que eu deixei pra lá e vim para a bolha onde eu posso ser a @amdcruz a.k.a máquina de absurdos no twitter.

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