uma peça

ensaiei uma peça. cada milimétrica minuciosidade eu tinha sob as unhas com precisão. treinei meus passos e escovei meus dentes. o cabelo mantive solto para esconder as orelhas e o medo. sabia a lágrima certa a cada ocasião; sabia rir e pesquisei sobre amor. aprendi a abrir embalagens plásticas graciosamente, a pintar e tocar piano; gravei uma ou outra poesia de fernando e tirei pelinhos dos figurinos. decorei o quebrado da madeira onde deveria se dar o tropeço e optei por não utilizar maquiagem: era parte da estética uma realidade. o sangue seria o meu próprio [nas cenas em que eu houvesse de sangrar] e eu o manipularia como de costume [a personagem tem corpo de mulher]. foi então que tocaram campainhas, abriram-se cortinas, acenderam-se luzes! e havia ninguém nas poltronas.

[dois ou três erros de entonação, um quase engasgamento e quatro embaraços no diafragma: fiz tudo como devia, sem que houvesse cobrador].