01 ideia: a droga da identidade visual perene

porque são paulo nunca conseguiu uma cara?

o problema, em uma linha:

toda vez que muda a administração, a identidade visual de sp vai pro saco

a ideia, em uma linha:

desenvolvimento de uma identidade visual obrigatória de longa duração

o problema, bem explicado:

a cada quatro anos — ou oito, com o malefício das reeleições — havendo troca de governo e de partido, parece que a primeira atitude que passa na cabeça é apagar a administração anterior.

e que melhor forma de fazer isso que mudar todas as cores, mudar logotipo, não é?

apaguem esses quatro corações do maluf!

apaguem os cinco moradores de mãos dadas da marta!

apaguem tudo que o serra deixou em azul e troquem por cinza!

tirem esse cinza e pintem de vermelho!

passa um verde em tudo que era vermelho agora!

tira já esse vermelho daí e pinta de roxo! (tá, essa ainda não aconteceu.)

o resultado é óbvio.

a cidade gasta — na verdade, a cidade desperdiça — uma fortuna para desenvolver novos logotipos, imprimir tudo outra vez, adesivar de novo, pintar de outra cor, redecorar, trocar uniforme escolar, mexer no ponto de ônibus, mudar tudo.

dinheiro esse desperdiçado que, sabemos bem, não só costuma ser gasto em opções — ahem — acima da média do mercado como faz muita falta em outro sem número de necessidades reais na cidade.

e se isso, por si só, já não bastasse, a cidade nunca consegue ter uma identidade visual.

sério. se não estivessem aí esses três exemplos de imagens usadas, você lembraria de todos?

jânio, erundina, serra, kassab, pitta, maluf, marta, haddad (isso prá falar da minha curta existência) trocaram, no mínimo, oito vezes a cara de tudo — sem contar as idas e vindas dos mesmos — e como resultado, a cidade não tem cara.

(e está mais pobre, claro.)

sei lá desde quando buenos aires usa o amarelo e preto em tudo.

nova iorque tem o mesmo brasão desde que me conheço por gente.

ou pensa mais perto então. o projeto visual do metrô, ainda que sendo atualizado, é muitíssimo próximo da sua concepção original.

o lado positivo, fora todo o dinheiro economizado?

reconhecimento. proximidade. facilidade.

a ideia, bem explicada:

um projeto que desenvolvesse e implantasse uma identidade pensada para durar décadas e gestões.

nada de abrir concursinho pra estudante e dar um mac de presente pro vencedor.

contratar sim, por concorrência pública ou o que fizer sentido, uma empresa com expertise demostrada no planejamento visual de cidades, governos, espaços.

a adoção não seria mais uma daquelas que, no fim do contrato, é tida como “opcional” caso o administrador da vez goste ou não.

uma vez adotada, a identidade teria, por obrigação, que ser adotada, respeitada e não alterada, não descartada por vinte, trinta anos.

(acho que vinte, trinta, quarenta anos é o prazo mínimo pra conseguir estabelecer de fato uma identidade e ela se espalhar, virar algo automático, grudado na cabeça da população, dos visitantes e do mundo; mas sempre posso estar enganado…)

imagine a facilidade de reconhecer espaços públicos automaticamente.

vai que a cidade escolhe o verde, por exemplo.

aquela construção verde? claro, a escola. o verde lá na esquina? quiosque de informações.

placa verde? atração municipal, lógico.

pontos de ônibus? verdes.

subprefeituras? grandes placas verdes.

cadernos da rede municipal, uniformes das crianças? verdes.

um ano verde, verde no segundo ano, verde em cinco anos, verde em dez anos, verde em quarenta anos.

e quando você menos espera, isso já está na cabeça da população.

(no caso, quando espera bastante, mas é um trabalho de tempo e dedicação.)

pergunte para qualquer especialista em design, em planejamento visual.

ou em publicidade, que seja.

quanto não vale uma marca que tenha força, que tenha permanência no tempo?

pergunte para quem entende de grana.

quanto não se economizaria, a cada troca de gestão, se a “personificação” da administração deixasse de ser a primeira preocupação, o primeiro gasto.

um plano de longo prazo, que criasse uma cara para a cidade e ainda proibisse a troca dessa identidade antes de um longo prazo e sem a aprovação maciça da população.

um plano que tirasse da cabeça do eleito que tudo tem que ter a cara e a cor que ele mais gosta ou que o partido manda.

um plano que fosse escrito com a ajuda das inúmeras mentes reconhecidamente criativas que vivem nessa cidade e trabalham com criação, design, identidade visual, arquitetura, urbanismo, planejamento viário, psicologia, artes.

mas claro, isso é só 01 ideia.