A importância de Hideo Kojima

A grande obra de Hideo Kojima até o momento, a mega-série Metal Gear, é complexa e intimidadora. Conheço pessoas que amam, que odeiam, que se interessam mas não sabem por onde começar, mas acho que nunca conheci um jogador casual de Metal Gear. Alguém que tenha terminado um dos jogos da franquia e seguido em frente, como se tivesse sido só mais um jogo normal. Quase sempre, as reações são apaixonadas, sejam de amor, ódio ou até desprezo. Essa polarização, somada à inquietação coletiva que qualquer manchete envolvendo o nome do célebre criador sempre provoca, deve deixar quem não é familiarizado com a série se perguntando “afinal, por que Hideo Kojima é tão importante? Será que os jogos dele são tão bons assim?”

Videogames são uma forma de arte, isso é um fato que não cabe a este texto discutir. Videogames também são, obviamente, jogos, e jogos não são uma forma de arte. Essa origem híbrida, quase paradoxal, é a razão de muitas das peculiaridades artísticas do videogame. Hoje em dia, artistas e designers têm acesso a ferramentas avançadas, que permitem que se crie jogos sem muito conhecimento técnico de programação, mas não foi sempre assim. Do surgimento dos primeiros videogames até alguns anos atrás, fazer um jogo exigia muito mais conhecimento de computadores e matemática do que de arte e estética. Isso, naturalmente, fez com que os programadores, e não os artistas, se tornassem a grande autoridade sobre a direção criativa da maior parte dos jogos produzidos. Videogames acabaram se tornando obras de arte criadas por pessoas sem muito interesse em arte.

Hideo Kojima é uma pessoa bastante interessada em arte. Em seu twitter em inglês, Kojima afirma que 70% de seu corpo é feito de filmes. Em qualquer outro ramo de cultura e entretenimento, isso seria a regra, e não a exceção: é natural esperar que pessoas que produzem arte se interessem por várias formas diferentes de arte, mas no videogame nem tanto. Além das razões já citadas, a indústria de games, especialmente a ocidental, é muito mais parecida com a indústria de brinquedos do que com Hollywood. Seus rumos são ditados por reuniões com investidores, pesquisas de mercado, atualizações incrementais em ideias antigas e reciclagem de sucessos garantidos. Faz-se o que está na moda e faz-se de novo o que deu certo no passado.

O primeiro grande sucesso internacional de Kojima, Metal Gear Solid (1998), foi o maior salto que o videogame deu, na história, em direção à linguagem audiovisual do cinema. Cenas scriptadas com dublagens já existiam em outros jogos, como Resident Evil (1996), mas o nível de qualidade visto em MGS era completamente sem precedentes: a atuação dos dubladores, o roteiro dos diálogos, os ângulos de câmera, a forma como a música era usada, tudo aquilo só podia ter sido feito por alguém com um entendimento de cinema bem acima da média dos desenvolvedores de jogos. Isso, claro, sem sacrificar a parte mais importante de um videogame: o gameplay, tão bem implementado e inovador que, por si só, já teria sido suficiente para consolidar a importância do jogo. A influência de MGS é tão grandiosa que chega a ser difícil explicar como eram as coisas antes. Resident Evil e GoldenEye 007 (1997) eram provavelmente os jogos mais cinematográficos que existiam até então.

O sucesso levou à continuidade da série por mais quase duas décadas, até sua conclusão com o maravilhoso Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (2015). Falar em profundidade sobre os outros jogos tomaria tempo e espaço demais, basta dizer que eles mantiveram as marcas estilísticas de Kojima, e permitiram a evolução de seu processo criativo. O maior diferencial do autor sempre foi a busca por inspiração de fora do universo comum, do gueto cultural do videogame. Kojima se utilizou de elementos de filmes, músicas, livros e acontecimentos históricos para desenvolver uma trama complicadíssima, envolvendo clones, espionagem, armas nucleares, manipulação mental e elementos sobrenaturais. Numa indústria tão repetitiva, monótona e artisticamente limitada, a série Metal Gear Solid conseguiu expandir o repertório temático do videogame como um todo.

Kojima também é um grande perfeccionista. Todos os jogos da série MGS são maravilhas tecnológicas em algum sentido. O nível altíssimo de atenção aos detalhes e as reações expressivas e consistentes do jogo às ações mais improváveis e absurdas da parte do jogador são qualidades difíceis de se encontrar fora dessa franquia, pelo menos com essa profundidade. Até hoje, quinze anos depois do lançamento, coisas como a inteligência artificial dos inimigos em Metal Gear Solid 2 (2001) são verdadeiramente impressionantes, mesmo comparadas com jogos atuais.

A capacidade de buscar inspiração em várias formas de arte diferentes, e de usar essa inspiração para criar um universo profundo e denso em detalhes, onde coexistem melodrama e realismo militar, cultura japonesa e filmes de ação americanos, armas nucleares e vampiros, clones e fantasmas, somada ao perfeccionismo técnico e a atenção quase obsessiva aos detalhes é, na minha opinião, a razão de Hideo Kojima ser considerado tão importante na indústria de games e tão amado pela comunidade. Seus jogos não são perfeitos, longe disso, Kojima tem alguns vícios artísticos notáveis, como a tendência a prolongar diálogos muito além do necessário e criar tramas tão complicadas que chega a ser difícil determinar se fazem ou não sentido. Mas nada disso diminui a influência e importância de quem provavelmente será lembrado, no futuro, como o maior desenvolvedor de jogos japonês desta geração.

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