Pornografia de Overwatch
Hoje eu acordei com vontade de criar um blog. Usar o termo “blog” pra definir o medium é algo que denuncia sua idade. É como chamar emoji de emoticon: não está tecnicamente errado, mas soa desconfortavelmente anacrônico. Consultei meus amigos do twitter a respeito de um tema para meu texto de estreia, e a primeira sugestão foi “pornografia de overwatch”. Como sou um homem que não foge de desafios, resolvi tentar, de verdade, escrever sobre esse assunto.

Jogos ocidentais são chatos. Eu sempre achei isso, mas assistir as conferências da E3 esse ano me fez perceber melhor a magnitude da chatice. Não é que sejam necessariamente entediantes de jogar, o ocidente produz jogos tão divertidos quanto o Japão, mas são entendiantes de olhar, de sentir, de viver. É tudo tão… normal. Soldados matando outros soldados. Cidades modernas com carros e prédios. Fantasia com elfos & anões à la Tolkien/D&D. Soldados matando soldados num futuro genérico. É alarmante pensar que uma das séries mais “coloridas” que existem no universo do videogame ocidental é Assassin’s Creed. E mesmo assim, só porque usa cenários históricos reais, que são interessantes por natureza.

Eu nunca joguei Overwatch, mas é bem fácil entender seu sucesso. Os designs exagerados, a amplitude da diferença de tamanho entre os personagens, a paleta de cores variadíssima e bem saturada, o estilo “disneyiano” da arte, tudo se traduz num jogo interessante, acima de tudo. Eu não consigo ver esses personagens com um olhar puramente funcional, “esse é o tank”, “essa é a healer”, não, não, eles são pessoas! Cada um deles tem uma história, uma nacionalidade, uma personalidade, e tudo isso é muito bem comunicado pelo design visual. Um gorila inteligente, um gigante de armadura, uma garota britânica meio sapeca, um robô budista, um anão nórdico. Nenhum deles é particularmente original, mas isso é parte da graça. São modelos de personagem que todo mundo já viu em algum lugar, o que facilita a identificação e leitura imediatas, mas ao mesmo tempo têm tempero próprio o suficiente para evitar clichês. A última vez que eu fiquei tão instigado pelo elenco de um videogame foi com Street Fighter II, quando eu tinha uns 5 anos.
A maior influência nesse aspecto de Overwatch parece vir de MOBAs ocidentais, como Dota 2 e League of Legends, ambos com elencos heterogêneos e diversos. Eu gosto de pensar que existe alguma influência japonesa ali também. Um indício talvez seja a forma como a Blizzard decidiu fazer os filminhos que apresentam os personagens e a história do jogo: no estilo da Disney/Pixar. Se existe algo que pode ser considerado “o anime ocidental”, estilisticamente, sem dúvida é a animação da Disney, com seus olhos grandes e ultra-expressivos. O tom idealista, heroico, nostalgicamente infantil dessas animações, somado ao interesse que eu já tinha pelo jogo, me arrancou lágrimas — literalmente. Acho que nunca fiquei tão apaixonado por um jogo sem sequer tê-lo jogado, ele atingiu todos os meus pontos fracos. Overwatch é meu crush.

Todo mundo que frequenta a internet há mais de seis meses deve estar familiarizado com a Rule 34, “if it exists, there is porn of it”. Produz-se pornografia baseada em qualquer coisa, isso sempre foi uma constante, mesmo antes da internet. Na época do lançamento do jogo, alguns lugares noticiaram que as buscas por “Overwatch” em sites pornográficos cresceram muito. Por um lado, isso é previsível: trata-se de um jogo bem divulgado, repleto de personagens femininas atraentes e com gráficos agradáveis, tanto do ponto de vista artístico quanto do tecnológico. É natural que surja pornografia espontaneamente.
Além do óbvio, porém, eu acho que as qualidades que mencionei na primeira metade do texto foram as grandes responsáveis pela popularidade da pornografia de Overwatch especificamente, mais que outros jogos similares. Essas mulheres não são só fisicamente belas, elas têm personalidade, vida. E onde existe personalidade, existe uma sexualidade também, mesmo que ela não seja explicitada. A sexualidade é o complemento natural da “persona social”, o yin privado para o yang público. Uma característica humana fundamental.
Eu nunca vi pornografia de Overwatch, mas eu imagino que as pessoas que procuram, o fazem por um interesse além do puramente visual. A vontade de ver essas personagens totalmente reveladas parte exatamente do fato de que há algo a se revelar nelas, o mesmo tipo de mistério que nos deixa atraídos por outros seres humanos. Isso é raro de se ver em personagens de videogame, mais ainda quando se trata de um jogo sem uma história que promova ativamente o envolvimento emocional com os personagens. A pornografia de Overwatch é um atestado de quanta personalidade o jogo tem.