Série: Atypical
1. Atypical é uma série original da Netflix, criada e escrita por Robia Rashid e estrelada por Keir Gilchrist (Sam), Jennifer Jason Leigh (Elsa), Brigette Lundy-Paine (Casey), Michael Rapaport (Doug) e Amy Okuda (Julia).
2. A série conta a história de Sam, um garoto de 18 anos autista, que começa a se sentir preparado para arranjar uma namorada. Para isso, ele conta principalmente com a ajuda e conselhos de Julia, sua psicóloga, e de seu colega de trabalho, Zahid. Seu desejo de ser mais independente, porém, afeta sua mãe super protetora Elsa, que precisa voltar a se reconhecer como alguém além do papel de mãe de um autista.
3. Antes de começar o primeiro episódio da série, com apenas uma leve noção sobre o que ela seria, tive receio do que viria pela frente. Seria uma série mais debochada e até desrespeitosa com o tema autismo ou seria um grande drama que me deixaria pra baixo depois de assistí-lo? Nenhuma das duas opções felizmente se tornou realidade e Atypical se mostrou uma série que equilibra bem momentos engraçados e leves com cenas sérias e tristes. É vida como ela é, com seus altos e baixos, risadas e lágrimas.
Meus comentários sobre personagens e situações da série a seguir CONTÉM SPOILERS.
Sam
Foi difícil para mim não comparar em um primeiro momento Sam com o personagem Sheldon, de The Big Bang Theory, afinal ele é uma das referências mais famosas atualmente na cultura pop de um personagem “atypical”. Depois de uns minutos assistindo a série do Netflix, entretanto, Sam torna-se um personagem único e muito bem interpretado por Gilchrist. O ator conseguiu nos emocionar em momentos tensos como quando Sam perde o controle no ônibus ou quando ele parte em uma missão com Zahid para encontrar o colar que havia dado para Paige, surgindo no baile como um verdadeiro pinguim (vestido de terno, molhado e andando diferente por causa disso) para devolvê-lo a garota. Esse último episódio da temporada, aliás, considero o melhor e destaco sobre Sam, além do “momento pinguim”, o abraço que ele dá no pai, o elogiando pelo iglu.
Sam + Julia: muitos dos avanços que Sam deu em sua vida no momento em que a série se passa precisam ser creditados a Julia, sua psicóloga, mas sinceramente não acredito que ela seja a melhor psicóloga para o caso de Sam, mesmo antes dela ter perdido a paciência com ele de uma forma nada profissional. Por exemplo, parece que ela não tem muita proximidade com os pais do garoto e tudo é tratado apenas com ele, e os pais só ficam sabendo das decisões tomadas nas sessões pela voz do garoto. Considerando o caso de Sam não ser típico, psicóloga e responsáveis não deveriam ter uma maior relação, com Julia informando em sessões particulares com os pais, periodicamente, sobre os progressos de Sam, as decisões tomadas e motivos etc? Julia, Doug e Elsa parecem, para mim, mais desconhecidos que às vezes se esbarram ou se estranham do que três pessoas com o objetivo em comum de tratar Sam.
Casey
Todos os personagens da série são excelentes mas, assim como Sam, a adolescente se destaca. Além de lidar não apenas com os problemas típicos de uma jovem, como garotos, amizades e desentendimentos com os pais, ela precisa acompanhar diariamente os desafios vividos pelo irmão, e muitos deles acabam tendo influências em sua vida particular. O fato de Sam ser autista, porém, não muda o fato deles se comportarem como irmãos típicos: Casey o importuna pelos assuntos chatos que Sam gosta de falar, mas não deixa de protegê-lo e nem de amá-lo. Não é a tôa que a oportunidade de ir para outra escola torna-se um dilema pois, sem Casey por perto, como serão os dias de Sam no ambiente escolar?
Ao menos a garota pode receber o apoio para seus problemas de seu novo namorado Evan, e quão fofos são eles juntos? As cenas entre os dois, mesmo nos momentos de desentendimentos mais para o fim, são um respiro que podemos ter entre cenas de Casey com a mãe e entre as “amigas”.
Sobre a traição de Elsa no presente e o abandono da família por parte de Doug no passado
A traição da mãe da família com um bartender de vida livre e despreocupada, Nick, é um dos temas que mais vi sendo discutidos em fóruns sobre a série. Elsa sempre viveu para Sam desde o momento em que o garoto, ainda novo, foi diagnosticado com autismo. Ela perdeu sua individualidade, a noção de que é um indivíduo no mundo além de ser mãe, e teve que passar por muitos desafios. Durante 12 meses teve que cuidar sozinha de seus dois filhos sem a ajuda de seu marido, Doug, que não se sentindo preparado para lidar com um filho diferente do que é considerado normal (e mesmo anos após seu retorno isso ainda é algo difícil para ele), simplesmente abandonou a família.
Espero que caso haja uma segunda temporada o abandono de Doug na época e como foi sua volta sejam melhor explorados, já que possivelmente isso será jogado na cara dele (como já foi em outro momento – e quem não faria o mesmo?), quando Elsa for confrontada pela traição. O que podemos analisar, pelo o que foi mostrado na série até agora, é que Elsa nunca teve esse momento de jogar tudo pro alto, fazer o que quisesse sem se preocupar e voltar para a família quando bem entendesse. Ela sempre esteve presente na vida de Sam 24 horas por dia, 7 dias na semana e, quando Sam passa a querer se tornar mais independente e a contar com outras pessoas em sua vida além da mãe, isso a deixa perdida. Ela deixa de ser a “mãe de um garoto autista” simplesmente, e ela não sabe como lidar com a volta de sua individualidade, com mais tempo livre em seu dia, algo que nunca teve, e sai em busca de novas experiências, que no caso atende pelo nome de Nick. Não concordo com traições, principalmente quando esta pode afetar a família toda e não apenas a relação do casal, mas difícil julgar o caso de Elsa como se o contexto fosse algo simples, que não envolvesse tantas outras questões.
O que você achou da série?
Até um próximo post,
Gabi
