Os protestos em Hong Kong e a Modernidade

Como os protestos na ilha chinesa representam muito mais do que lutas contra o autoritarismo: São um sintoma de nossos tempos

Vivemos em tempos onde tudo é conectado, a informação percorre distâncias nunca antes vistas e os ideais não se vinculam apenas ao seu lugar de nascimento geográfico: São globais.

Vemos, ao mesmo tempo, movimentos opostos. Nas últimas eleições nos EUA, Brasil, Hungria, Turquia, entre outros países, há uma ascensão dos nacionalismos e dos autoritarismos em busca de uma “ordem” perdida. Em paralelo, diversos protestos ao redor do mundo, no Chile, no Líbano e em Hong Kong, contrários à censura e ao autoritarismo e em busca das liberdades econômicas e políticas.

Diversas são as explicações para esses movimentos, cada qual com sua particularidade. Cabe, contudo, valorizar um aspecto desses novos protestos no século XXI: A identidade.

“Em um mundo de fluxos globais de riqueza, poder e imagens, a busca da identidade, coletiva ou individual, atribuída ou construída, torna-se a fonte básica de significado social”, é como explica o professor espanhol Manuel Castells, em sua obra “A sociedade em Rede”. Essa lógica explica com bastante precisão esses movimentos globais.

Com a Rede, isto é, com a Internet, nós fomos obrigados a repensar os valores que antes tínhamos como Identidade. Em um mundo onde tudo é muito rápido e, nesse sentido também, desconexo, nos sentimos frágeis perante uma grande quantidade de informação e também, perante os nossos valores.

É por isso que podemos ver, em uma mesma época, movimentos que lutam por razões opostas: Uns desejam mais ordem, outros desejam mais liberdade. Uns desejam liberalização da economia, outros ainda, o fim da desigualdade social.

O que isso nos mostra, e é aí que reside a importância desses novos protestos, é que agora os movimentos não conseguem mais ser apenas “locais”. As bandeiras levantadas são sempre Globais, e o movimento passa a representar um ideal não apenas para aquele povo, como também para todos os países do mundo.

Os protestos em Hong Kong mostram justamente isso. Um “clássico” embate entre modelos diferentes, entre Ordem e Liberdade, já a muito discutido pelos Iluministas do século XIX, “revestido” com as novas tecnologias e servindo de modelo para os protestantes no mundo todo.

Não apenas modelos de como agir com as novas formas de censura e repressão, mas também modelos de como levantar ideais e como lutar contra as “assombrosas” forças do autoritarismo.

Os protestantes em Hong Kong buscam mostrar que a sua Identidade não está vinculada a coletividade que eles fazem parte, isto é, ao Estado chinês, mas sim vinculadas a ideais de liberdade e democracia, os mesmos que estão em xeque em outras partes do globo.

Segue, portanto, o conflito entre a “Rede e o Ser”, conforme coloca Castells. Ações que agem em sua localidade, mas estão profundamente ligadas a uma “globalidade”.

Os protestos em Hong Kong simbolizam justamente isso: A luta entre a Identidade coletiva da modernidade e os agentes individuais do Ser, bem característicos de nossos tempos.

Reside, por fim, a questão. Nesses novos embates de ideias, materializados nessa pequena ilha chinesa, quem sairá vitorioso? A coletividade autoritária, ou a Identidade libertadora? Ou será ainda que se produzirá um terceiro processo, um amálgama entre nossos ideais e a Rede?

Gabriel Teixeira Figueiredo de Souza

Written by

International relations student, focused on Foreign Politics and Philosophy of International Relations

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