Tite, um parnasiano da prancheta.

Créditos: R7.com

Assim como um poeta parnasiano, Tite montou o seu Corinthians buscando encontrar a perfeição da forma, e que o conteúdo a ela se submeta. Na prancheta de Adenor, os sonetos perfeitamente em versos silabicamente equânimes se traduzem em triangulações sempre bem definidas, um time compacto, a rápida troca de passes, de inequívoca aproximação e ágil movimentação nas trocas de posições. A vitória acachapante dos reservas contra um São Paulo que necessitava do resultado denotam que o treinador gaúcho não apenas construiu, com denodo, um time, mas sim atribuiu um formato estilístico a seu futebol.

Simétrico, metódico, sistemático. Esses adjetivos podem, perfeitamente, descrever tanto a obsessão matemática de um Olavo Bilac na composição de seus versos milimétricos quanto ao sistema de jogo praticado pelos alvinegros. O conteúdo que preenche esse modelo é importante para a elaboração de sua peça, mas não premente. As palavras — ou, no caso, os atletas — devem se encaixar perfeitamente nessa definição, ou não servem, por maior que seja o efeito individual que poderia acometer ao conjunto. Cada partícula só pode brilhar quando se encaixa em um todo.

Nem sempre o melhor resultado será obtido. Muitas vezes, um dia será descartado. Papéis amassados irão abalroar o cesto de lixo e pontos serão perdidos. Nem todos os poemas de Bilac são tão belos e nem todas as partidas do Corinthians são estupefacientes. Mas note-se, à forma não se abandona. No empate contra o Vasco, o escrete corintiano não rendeu como de costume. Seja pelo nervosismo, pela atuação do Cruzmaltino em São Januário ou por ser apenas um dia ruim, os timoneiros não exibiram a qualidade costumeira. A equipe, contudo, em momento algum abdicou de fazer aquilo que fora definido.

A peleja contra o Tricolor Paulista, todavia, foi a mais clara sinédoque de como o Corinthians privilegia a o molde, e não o conteúdo. Com uma alineação deveras alternativa, a equipe manteve fielmente a maneira de atuar. Mesmo as características díspares dos jogadores usualmente titulares para com os reservas que protagonizaram a partida não lograram sobressair em meio a uma escola de futebol tão definida e ardorosamente esculpida.

O Parnasianismo se denotou como uma escola artística muito mais objetiva, determinística, racional e tangível do que o romantismo, que o precedera. O sentimento ainda estava lá, não fora dirimido, porém a razão e a organização que são seu apanágio. O brilho da paixão se consolidou como um ornamento e, mesmo que não imprescindível, existiu para tornar muitos versos indeléveis. A sobriedade muitas vezes taciturna também teve seus momentos catárticos e sensíveis, como deixou fluir Bilac em “Longe de Ti”:

“Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome”

A equipe do Parque São Jorge se consolidou pela frieza quase matemática com a qual encara seus adversários, e assim destroçou o Atlético Mineiro na fortaleza do inimigo. No futebol montado por Tite, não são tolerados arroubos de insatisfação ou desobediência tática. Malcom e Vágner Love, os jogadores mais ofensivos da equipe, cumprem incansavelmente a tarefa de pressionar a saída de bola adversária. Esse método resultou, por exemplo, nos tentos de Love contra a Ponte Preta e de Elias contra o Flamengo, ambos ainda no primeiro turno. Mas não que isso dirima a emoção, a idiossincrasia e o tesão pelo jogo. A gana faz com que o Corinthians seja muito mais do que eficiente e burocrático, dá alma ao time, engendra um senso de indignação latente que explode e faz a equipe se tornar esteticamente bela se ver jogar. A venustidade é sintomática. A forma é fim, não meio.

O Corinthians foi campeão brasileiro com sobras, de fato e de direito. Por mais que insistam, não há mancha alguma na sexta conquista do mais célebre certame nacional pelos alvinegros. O nível apresentado pela equipe foi muito superior ao praticado por qualquer outro time, e isso sem ter um elenco que se sobressaia individualmente. Tite poderia recitar “Criação”, de Bilac, para explicar como joga seu time: “Rola todo o Universo, em harmonias
e em glorificações, enchendo o espaço”.
O Corinthians, afinal, é uma obra parnasiana em um campeonato dadaísta.