Conheci uma atriz em uma festa há um tempo.
Usava um sobretudo e se sobressaía em meio à todos. Ela sabia que mesmo de uma forma cadenciada e envergonhada, todos sentiam seu perfume. Fiz uma piada na fila, recebi um sorriso. Puta merda. Sabe, eu não sei lidar muito bem com olhares e métodos que as pessoas usam para chamar atenção de outras, sou meio lerdo. Entrei, enchi meu copo uma, duas, três vezes. Sentei sozinho e senti em meus ombros o alívio da liberdade de viver por si só. Trombei com a tal atriz mais duas vezes, uma intencional, outra não. Queria saber se sua voz era tão bela quanto seu rosto, era. Evitei fazer esse comentário porque na minha burra cabeça de três copos, era clichê demais. Fiz outra piadinha, mais um sorriso.
Um parênteses nessa história para reclamar que estou escrevendo um roteiro e, como todo roteiro escrito por homens, tem um caráter meio falocêntrico, o que me impede de minimamente desenvolver isso a ponto de gerar uma conversação sobre a atuação dela.
O vestido alterou de tamanho e minha vontade de morrer olhando aquele sorriso também, porém em sentidos opostos.
Quer subir?
A guiei por uma escada com pessoas que haviam ido para lá em busca de uma música legal mas que, a este ponto da noite, não aguentavam mais a vida sob seus pés. Achei um sofá e me acomodei. Fiz uma piada, um riso, alto. Eu não sou um cara engraçado, nem por isso vou deixar de fazer piadas enquanto alterado. Guiei minha mão pelo seu rosto e senti como se estivesse tocando deus. Sabia que no interior daquela mulher, tão diferente de mim, havia uma religiosidade em que ela é a principal entidade e eu seria de bom grado seu servo.
Fui eu quem fez isso em seu pescoço? Ela perguntou
Qual seu nome? Perguntei
Ah, você é atriz? Perguntei
Eu encontrei essa atriz há um tempo e sabia que no momento que vivo agora, com essa merda toda acontecendo, eu não conseguiria me sentir digno de uma cena romântica. Achei que estava fadado à ser coadjuvante, porém me tornei o protagonista da minha noite e, por um momento, apenas por um momento, esqueci de tudo.
Minha mãe não havia mais morrido e eu não fazia terapia. Eu não odiava quem eu era, nem odiava bebidas quentes. Queria experimentar cada gota de álcool que queimava em sua língua enquanto nos beijávamos e eu entendia que nada é romântico mais.
Acordei no dia seguinte, uma puta de uma dor de cabeça. Tomei outras decisões igualmente confusas e importantes, escreverei sobre isso mais tarde.
Levantei de cueca ainda, escrevi esse texto.
