Flores/TITÃS
No final de tudo, sentei no meio fio. Estrelas cadentes passando no céu acima de mim, ou talvez sejam apenas os faróis dos carros refletindo em meus óculos.
O conceito de estrelas cadentes é algo que se perde com a infância. Não mais olhamos para o céu em busca de meios fáceis de resolver nossos desejos. Não mais esfregamos lâmpadas com esperança. E ali estava eu, no meio fio, pensando sobre as estrelas cadentes-carros que me davam um sentimento infantil de esperança e saudosismo.
A última vez que olhei para o céu buscando tais estrelas foi há 5 anos quando minha mãe, ainda viva, costumava me abraçar na virada do ano e falar “A gente vive bem, filho.”
Fiz um pedido sob uma dessas estrelas para que minha família continuasse bem, isso foi em 2013. Seis anos depois estou eu sentado na droga de um meio fio me iludindo com luzes de carros que não conheço enquanto penso que esse pedido foi tão prepotente de minha parte que o universo convergiu de forma que meu ímpeto fosse insignificante, não realizando assim meu desejo e levando minha mãe consigo anos depois.
As promessas que fazemos são mais fortes do que a nossa esperança. A refusa em ouvir quem grita em meu coração me tira o sono e agora levanto. Não rápido e confiante, mas levanto. Dou dois passos em meio a rua e espero que as estrelas me atinjam e que eu seja levado nessa conversão espectral.
Clara dos Anjos não me preparou para tal indiferença. Morro agora e comigo, minhas palavras de esperança.
“sim mãe, a gente vive bem.”
