Millennium: Só mais uma obra sobre a violência

Capas da trilogia Millenium, de Stieg Larsson.

Uma trilogia de livros, de nome “Millennium”, escrita por Stieg Larsson, adaptada para o longa-metragem “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, dirigido Niels Arden Oplev e regravado por David Fincher como “Millennium — Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Diferentes produções de uma mesma obra, que fala sobre relações de gênero, principalmente a violência contra mulher e o nazismo na Suécia. O primeiro livro da trilogia de Stieg Larsson vendeu mais de 50 milhões de cópias em 46 países e, com todo esse sucesso, ganhou adaptação para o cinema. As diferenças entre os filmes da versão sueca, de Niels Arden, a da americana, de David Fincher, são notáveis em nível de produção, linguagem e abordagem. Contudo, em ambas as versões, o foco é a violência contra a mulher, o pensamento nazista, o discurso de ódio e o abuso do poder.

Mikael Bomkvist e Lisbeth Salander, no filme de David Fincher, que acabaram se envolvendo na trama.

A história foi reproduzida de diversas maneiras, por meio de diferentes artistas, e expôs visões e formas distintas de apresentação do enredo. Contudo, o objetivo deste artigo é abordar os episódios de estupro, assassinato em série e desqualificação da mulher na sociedade, que fazem parte da trama contada no primeiro livro e reproduzida nos filmes. Resumidamente, a obra conta a história do jornalista Mikael Bomkvist, e da investigadora particular Lisbeth Salander, que se unem para investigar o desaparecimento de Harriet Vanger, dada como morta a mais de 30 anos atrás. O corpo de Harriet nunca foi encontrado, o que dava ao seu tio, Henrik Vanger, uma esperança de encontra-la, e por isso, ele contrata a dupla de protagonistas para ajuda-lo. Ao longo da história, são revelados muitos segredos da família Vanger e da vida de Lisbeth, uma personagem mal educada, fria, que usa roupas de punk, fuma compulsivamente e só se alimenta de junk food, uma verdadeira diva gótica que exaspera tudo o que a monótona classe média desaprovaria.

Lisbeth Salander, na adaptação Sueca de Niels Arden.

Lisbeth Salander era uma personagem marcante, que teve papel crucial na investigação do crime, e ganhou maior destaque na adaptação cinematográfica americana de David Fincher. Ela era órfã e supervisionada pelo governo por possuir um histórico de mau comportamento. Nas reuniões com seu tutor, Lisbeth foi abusada e estuprada, fatos esses retratados em cenas violentas no filme Millenium, mostrando fielmente os horrores sofridos por milhares de mulheres no mundo todo. Sobre minha perspectiva, acredito que Lisbeth foi o personagem mais singular e marcante da história. Sua grandeza era expressa em suas habilidades como investigadora e na forma como lidava com seus problemas, enfrentando todos que a machucaram ao longo do caminho. Ela foi um verdadeiro exemplo de personalidade e força feminina.

Libeth Salander, na adaptação americana de David Fincher.

A história de Harriet Vanger já foi diferente. A família Vanger tinha maior domínio masculino e possuía grande poder econômico e político na Suécia, a partir de seu grupo empresarial. Na morte do pai Gottifrid Vanger, Harriet seria a herdeira que assumiria o controle das empresas. Seu irmão Martin não aceitava a futura posição da irmã e decidiu que deveria mata-la. Contudo, Harriet conseguiu fugir e forjar sua morte. Além de ser caçada por conta de seu futuro empresarial, a herdeira ainda foi abusada durante toda sua infância e adolescência pelo pai e irmão. A história da família Vanger ainda escondia mais segredos que foram revelados no final da trama. Durante anos Gottifrid e Martin caçavam mulheres para abusá-las, tortura-las e mata-las, e para isso, possuíam uma espécie de matadouro em sua casa. Martin chegou a proferir: “As mulheres sempre acham que vão escapar. Basta um único gesto de humanidade e elas já se iludem. Gosto de ver a decepção no rosto de cada uma no minuto que entendem que vão morrer”. É difícil saber qual problema mencionar primeiro diante dessa situação demonstrada na obra. Vale lembrar que os fatos mencionados estão longe de ser apenas ficção, e são reproduzidos em todos os lugares do mundo, o tempo todo. Violência e dominação sobre a mulher, abuso sexual, desvalorização da mulher do mercado de trabalho, estupro cometido por próprios familiares, todos esses crimes acontecem diariamente.

Harriet Vanger

O próprio escritor, Stieg Larsson, disponibiliza alguns dados em seu livro. Apenas nos limites da Suécia, ele aponta que 18% das mulheres foram ameaçadas por um homem pelo menos uma vez na vida; 46% das mulheres sofreram violência de um homem; 13% das mulheres foram vítimas de violências sexuais cometidas fora de uma relação sexual; 97% das mulheres que sofreram violências sexuais após uma agressão não apresentaram queixa a polícia. (LARSSON, 2005, pg. 08). Esse último dado serve para lembrarmos que os números são muito maiores do que revelados pelos índices levantados em pesquisas, uma vez que essas são feitas a partir de queixas às autoridades.

Martin Vanger, irmão de Harriet.

Obras como esta devem servir, não somente como diversão, mas como uma reflexão da epidemia de violência sofrida por crianças, meninas, mulheres e homens, pois esses também sofrem abuso sexual, ainda que em frequências menores. Os casos, muitas vezes, ficam no anonimato. A exemplo de Millenium, a suposta morte da Harriet só foi solucionada 30 anos depois, juntamente com todas os outros crimes cometidos por seu pai e seu irmão. Felizmente, os debates sobre esse assunto estão cada vez mais frequentes, e muitos estão tomando consciência da proporção do problema. Mas os índices não baixam, e no momento em que muitos debatem, há estupros e assassinatos acontecendo lá fora.

Texto: Victória Lima/ com informações de adorocinema.com e blogueirasfeministas.com

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