“Quais seus planos agora?”

Eu estava sentada como sempre, nunca com os pés no chão, te olhando. Eu queria dizer que os planos eram ficar ali o quanto desse, congelar os minutos que passavam naquela terra vermelha, com vento nos cabelos.

“Não sei, acho que quero faz inglês, minha gramática está péssima”.


Eu escuto seu áudio de 1892km sobre como o sol está forte no Centro, que infelizmente não é mesmo Centro que o meu.


Você olha a cidade a nossos pés, mas eu não consigo olhar pra o lado, tenho algo mais precioso para observar. Capturo aqueles últimos minutos e deixo que minha alma o abrace. Seu dente quebrado, os dedos sujos, aquela voz que enrosca na minha pele e sotaque que acaricia meu cabelo.


Você me diz o quanto não quer mais ser o mesmo quando chegar em casa. Eu confirmo, olhando pra sua determinação e aguardando o momento em que você perceberá que já mudou.

Uma criança rola na terra com seu brinquedo, os cabelos bagunçados pela ventania (ou pela alegria, talvez).

“Eu não quero nunca ter filho, olha a cor da roupa desse menino”.


“Tô usando sua pulseira, só que agora ela não tem mais seu cheiro”.

O coração aperta, enquanto enrolo o cordão no dedo.

“Tá cheirando macho”.

O som da sua risada ecoa dentro de mim e eu só consigo pensar que eu poderia viver dentro daquele som. Consigo te enxergar certinho: de camisa social, empapado de suor, andando por uma cidade imaginária e rindo.

“Quando eu voltar pr’aí a gente vai fazer uma troca de novo. Tu vai me dar meu colar, cê não vai pegar ele não, pô. Você me dá meu colar e eu te dou sua pulseira. Combinado? Ah, e o cabelo tá mó fofo”.

Eu concordo com o combinado porque nele há o fundo de esperança de poder ficar quietinha enquanto você mexe no meu cabelo, de comer seu macarrão de leiteira e, no colchão jogado no chão, ficar abraçada novamente com você.


Eu não escrevo pra ninguém. Só escrevo pra não esquecer. Choro a noite pelas coisas que não consigo me lembrar mais e você não é uma das lembranças que eu quero que suma de mim.

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