Bilhete

Bateu a porta e desceu as escadas correndo, a camisola branca, leve fantasma que tocava seu corpo, parecia agarrar-se a ela para não escapulir no efeito caracol, lágrimas de sal e blush, batom errado na boca e mãos trêmulas que não acertavam a chave na ignição.
Deixou tudo como estava, o corpo de lado no tapete da sala entre almofadas coloridas e as peças de roupa que tirou com fúria e amor, a marca dos shorts de nadar, as costas perfeitas. O aparelho tocava Judith e o bom gosto era dela, bem como o toque indiano na decoração e as garrafas de vinho empilhadas na mini adega. Na mente, a imagem do corpo moreno nu e dos olhos pretos que ficavam soterrados sob o eterno questionamento dos seus impiedosos, os olhos de quem pede sempre desculpas, de quem sabe que errou, e o impulso de fugir, de ir o mais longe possível, de gastar as economias que juntaram numa viagem só de ida para uma cidade no além Texas, cercada de deserto e nada, ser capa do seu próprio disco com a flor vermelha nos cabelos esvoaçantes. Ela foi sem malas e levou só a dor que prometera abandonar no saguão do aeroporto durante o check out , o casaco herdado da mãe que a cobriria corretamente até que chegasse em seu destino e os documentos que a tornavam dona de si mesma, desde sempre, para a eternidade.
Ele acordou devagar, levantou-se e esticou o corpo feito um gato entre bocejos e gemidos. Andou pela casa nu e descalço, observando o estranho silêncio vazio que ecoava entre as paredes cortado pela voz da mulher que cantava em francês e ele sempre odiara. Encontrou o bilhete debaixo do vaso de flores frescas que ela insistia manter, mesmo sob seus protestos: “Alimente os peixes. Não volto, cansei de ser sozinha com você.”
