Mudança

“Está tudo errado”, penso. O carro desliza na estrada molhada, o céu lembra a letra de alguma música, o rádio não toca nada, só o coração faz um barulho imenso dentro, trem veloz nos trilhos de lugar nenhum. “Estou tão perdida”, murmuro e as palavras desaparecem rapidamente na atmosfera rarefeita dos vidros fechados, embaçados, repletos de gotículas e fios de água. Cometo com o pensamento pequenos delitos, te roubo pra mim e me esfrego em teu corpo, te devolvo amassado, usado, exausto do meu imposto amor. “Que bobagem”, preciso de ar e ao abrir o vidro sinto no braço respingos frios da chuva incansável, podiam ser lágrimas, as minhas secaram com os dias, ficou só um nó imenso na garganta que eu tento diariamente desfazer com bebida quente ou vodca. Dizem que tudo passa, feito a paisagem correndo insana ao lado, mas nunca é rápido o bastante.

“Não adianta fugir”, mas eu fugi e queria ir o mais longe possível o mais rápido que pudesse. Pra algum lugar sem nome, onde chovesse menos e tivesse mar pra misturar com o choro, embalsamar com sal o corpo e clarificar a alma. Sinto-me como um erro de Deus, dei tantos passos errados que em algum ponto, tenho certeza, a terra esqueceu de abrir-se e me engolir para que minha existência simplesmente cessasse.

“Será que todos se sentem um lixo sob a abóbada celeste?” Eu me sinto, queria ser outra pessoa porque sou egoísta demais pra deixar de viver. Fico pensando nas coisas que trago nas malas, chinelos, biquínis, chapéus, livros que não lerei, dinheiro roubado da conta conjunta com a mãe, as chaves do apartamento fechado há décadas, desde que Diogo pulou da sacada e manchou a calçada impecável do condomínio praiano. O irmão que tive, mas nunca foi meu, nem de ninguém, era só dele. “Ainda escuto seu riso.”

“Ele não me quis.” Mas quem ia me querer? A começar pelo azul dos cabelos e vontade alguma de agradar, o coração partido era um detalhe na pele e no peito, tinha os olhos sempre úmidos de algum choro recente, tendia ao desespero e sua honestidade causava severos ferimentos nas vítimas, parentes amigos, irmãos. Penso no mar, maresia, areia, peixe, azul, quero mudar. Ser feliz deve existir em algum lugar. “Vou mudar.”

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