Objeto.

Fiquei deitada em nossa cama esperando que os vestígios de nós dois impregnassem minha pele. O dia seguia lindo cobrindo tudo de azul e lá fora fazia um repentino silêncio, quase se podia ouvir as engrenagens da Terra rangendo, zunido estranho. Queria vestir aquele velho sorriso e dirigir devagar pelas ruas da cidade com os vidros abertos deixando escapar os acordes da introdução de Baba O’Riley. Queria que o sol me enchesse da velha esperança de que de alguma forma inacreditável a vida se encaixasse e o quebra-cabeça tivesse todas as peças, Monalisa sorrindo de viés, o fim feliz.
Permaneci deitada sob a janela descortinada, olhando o céu, vestida de nada, de mim mesma, de quem eu sou sob teus cílios apenas e distraída, quase não vi a coisa se movendo no ar em espiral, aparentemente no mesmo lugar, sob o próprio eixo, metal absurdo reluzente. Uma forma cilíndrica avermelhada, quase que acenando pra mim com o céu azul ridiculamente azul como pano de fundo. Um estranho objeto em movimento que não se parecia com nada que eu tivesse visto nessa vida besta meu Deus, não podia ser, talvez fosse, eram eles!
Que me levassem, passeio intergaláctico, ultra estelar, super sônico, que me arrebatassem e bailássemos por entre as estrelas com esse mundinho azulado aos nossos pés, que flutuássemos em espiral, zigue zague e em queda livre, ultrapassar cometas e repousar em planetas distantes demais do sol, absorver toda luminescência prateada, navegar nas ondas de silêncio cósmico, que viajássemos anos luz na velocidade inimaginável, um mundo e outro no instante entre as batidas do coração.
Entretanto, a coisa vermelha simplesmente sumiu entre um piscar e outro e consternada busquei qualquer coisa absurda no céu que estava limpíssimo, de brigadeiro feliz, sorria azul como nunca, um pardal passou ligeiro, mas nenhum objeto metálico resplandecia ou piscava ou dava voltinhas. Quis olhar pra cima, para além da estratosfera, meus pobre olhos… tudo tão azul, apenas azul. Voltei pra cama, teu cheiro nos lençóis. O dia seguiu vadio.
