Carta 10 / 15 de outubro de 2014

O que estava escrito na carta: “Agora meu ônibus passa todo dia em frente à engenharia e sempre imagino se seria mais fácil com você aqui 15/10”.

Eu vou te ser sincero / Eu tô com uma vontade danada / De te entregar todos os beijos que eu não te dei (RUBEL, Quando Bate Aquela Saudade)

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Em outubro eu já estava em outro estágio. Havia acabado meu contrato com o lugar em que trabalhei e que me deu a oportunidade de marcar vários encontros com o Menino das Cartas no Diamond Mall. Agora aquele shopping não estava mais no meu caminho e seria acessado mais por lembranças do que pela minha passagem perto dele. Não havia motivos para eu ir até lá em algum passeio aleatório, me dava mais trabalho para pegar o ônibus e, sempre bom reforçar, eu odiava o cinema dele.

No novo estágio eu trabalhava 5 horas por dia, diferente das 20 horas semanais que eu dedicava na outra empresa. Era uma mudança pequena, mas eu sabia, por exemplo, que mesmo trabalhando uma hora a mais eu teria menos tempo ocioso do que no outro estágio. Com aquelas 4 horas por dia, eu ainda conseguia fazer algumas coisas pessoais lá, como escrever poesias. Era bom porque esses momentos de vulnerabilidade, bem ali no meu local de trabalho,também me ajudavam a entender o público da empresa, que era definido como sensível e que queria ter contato com coisas fofas. Depois, com mais experiência na minha vida profissional, aprendi a não ter que escrever poesias para fortalecer minha ideia de uma persona mais delicada. Afinal de contas, quem faz uma coisa dessas?! Ninguém nunca soube que esse era um dos meus movimentos criativos ali, justamente porque parecia tanto algo de uma pessoa sem inteligência objetiva que nunca cheguei a dividir isso com ninguém.

Uma dessas poesias que escrevi foi inspirada em “O Pequeno Príncipe”. Esse foi o único material que as pessoas tiveram acesso, porque mais tarde virou música e fiquei tão feliz com o resultado que saí mostrando para um monte de gente, mas sem contar toda a história por trás do desenvolvimento. O poema toma inspiração na relação do Pequeno Príncipe com a Rosa, a partir de uma das falas mais conhecidas da Raposa: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. No texto, o eu lírico é a Rosa, que está ciente deste ensinamento. Ela, então, toma a fala e pede, desesperadamente, que o Pequeno Príncipe não a cative. A Rosa sabe que após ser cativada, vai acabar se tornando responsabilidade dele e, por consequência, vai esperar algum tipo de cuidado.

O x da questão é que ela já prevê o dia em que o Pequeno Príncipe não conseguirá mais dar a atenção e o amor que ela necessita, que se acostumou. Nesse dia, a Rosa sabe que vai sofrer como nunca antes, então antes mesmo que tudo isso aconteça, ela implora para que o Pequeno Príncipe não a cative. Ela quer evitar o sofrimento antes que ele possa acontecer. Por isso o poema chama “Não Te Tornes (Responsável Por Mim)”. É bem óbvio que a Rosa sou eu e o Pequeno Príncipe o Menino das Cartas. Escrevi antes de saber que ele faria intercâmbio, mas não é algo de se espantar porque não é clarividência: mais cedo ou mais tarde todos nós vamos acabar sofrendo.

Mas em outubro eu já não estava mais nessa empresa. O novo lugar era ótimo de se trabalhar. Ambiente tranquilo com pessoas calmas e dispostas sempre a ajudar. Como previ, não dava para devanear em poesias nesse novo trabalho, o que foi ótimo para desenvolver um pensamento mais analítico e metodológico. Outra coisa diferente com minha antiga empresa era que para chegar e ir embora desse novo espaço eu demorava muito mais tempo dentro do ônibus. Uma coisa igual era que no caminho de volta, eu passava em frente à outra construção que me fazia lembrar do Menino das Cartas.

Meu ônibus contornava uma boa parte da nossa universidade e em certo momento ele passava bem em frente ao prédio em que ele estudava antes de fazer intercâmbio. O pior era que agora eu era obrigado a sentir o peso daquela arquitetura porque um dos pontos do ônibus era justamente em frente a um dos prédios em que ele tinha aulas. Então, de novo, eu tive que me acostumar com a essência dele emanando de um apanhado de concreto, tijolos e cimento. Fiquei um tempo considerável neste novo estágio e quando Alessandra, que fez o desenho sobre o décimo post-it que colei nas cartas de baralho, me mandou a imagem fui transportado por algumas das vezes em que eu pensei como teria sido para nós se enquanto ele estivesse no Brasil eu já trabalhasse neste novo lugar.

Nós poderíamos nos ver com ainda mais facilidade. Iríamos poder nos encontrar em um lugar comum para nós dois. Comeríamos e conversaríamos mais tranquilamente, talvez sem aquela pressão de se arrumar para um encontro no shopping. Um café na cantina do prédio em que ele estudava já seria ótimo. Um pouco de conversa jogada fora enquanto os dedos partissem um pão de queijo de tamanho médio e bom custo-benefício. Uma frequência maior nos olhares que fôssemos trocar, já que tudo seria facilitado para nos encontrarmos.

Quem sabe dia sim, dia não, combinaríamos de jantar juntos, já que o restaurante da faculdade ficava aberto até justamente a hora em que meu ônibus chegava. Ele poderia me contar pessoalmente como estava o progresso da leitura de “A Culpa é das Estrelas” e talvez me mostrar os corredores pelos quais ele andava. Me apresentar para alguns colegas de classe dele, ao menos, na primeira vez, para aqueles que ele tinha mais proximidade. Meu ônibus também tinha um ponto próximo ao prédio em que eu estudava, então algumas vezes poderíamos nos encontrar lá, quando eu precisasse descer antes do ponto final para tirar algum xerox que eu havia me esquecido de fazer cópia mais cedo. Ou então ele iria propor tirar o xerox pra mim e só me encontraria sentado em um banco que depois viraria o nosso lugar de encontro marcado.

E de tantas vezes que poderíamos ter nos encontrado naqueles espaços, teríamos um lugar para chamar de “o de sempre”, para quando o trânsito estivesse ruim e me fizesse ficar atrasado para encontrá-lo pela faculdade. Ele me mandaria um SMS:

_ Então me encontra no lugar de sempre, Maurício.

E eu entraria esbaforido porque sempre odeio me atrasar. Ele riria disso porque ele não se importava com um atraso de 10 ou 20 minutos como eu me importava. Só me esperaria chegar para que pudêssemos trocar meia dúzia de palavras e alguns beijos rápidos, desses que não são efêmeros como um selinho, mas também contam somente com o contato dos lábios. Uma espécie de selinho demorado, em que até dá tempo dos olhos se fecharem e algumas sensações passarem pelo corpo, porque a mão tem alguns bons segundos para serem colocadas na cintura e sentirem a pele através da camisa de malha fina e, portanto, mais fresca.

Enquanto ele se afastasse para a aula noturna eu ainda ficaria algum tempo admirando-o ir embora, porque eu adorava o jeito que aqueles jeans marcavam toda a parte inferior do corpo dele e porque eu sabia que era uma despedida rápida, que logo mais conversaríamos. E eu estaria certo porque assim que a aula dele começasse a ficar chata após os 7 primeiros minutos iniciais eu receberia uma mensagem no chat do Facebook:

_ Socorro, me tira dessa aula maldita. Eu não aguento mais essa disciplina.

Mensagem que eu só veria quando chegasse em casa, mas não demoraria a responder já que eu morava bem perto da faculdade. E conversaríamos até à noite, quando um de nós precisasse ir dormir para acordar cedo no outro dia — provavelmente eu. No outro dia poderíamos ou não nos encontrar, mas tanto faz, teríamos tempo de sobra para nos ver em outras ocasiões.

Até que chegasse o dia em que ele comentaria sobre eu ir na casa dele conhecer a família, as pessoas que eu tanto ouvia falar e já sabia as características mais marcantes de cada. Mas depois também chegaria o dia em que ele me contaria que faria intercâmbio e se ausentaria por um ano inteiro. Pelo menos nesse cenário eu poderia ter dividido ainda mais momentos reais com ele e não só virtuais, que me foram bons, mas me parecem menos intensos se comparados à possibilidade de olhar mais vezes diretamente dentro daqueles olhos de cor clara.

Eu me imaginei vivendo em um desses universos paralelos algumas boas vezes, mas isso não faz nada bem. Quando nós começamos a reviver o passado acoplando um grande “se” a cada virada de acontecimento, a vida se transforma numa grande hipótese. Não precisamos mexer nessa ideia de multiverso quando o que tem pra se desenrolar no aqui e agora é mais urgente. É burrice inventar novas maneiras do coração sofrer.