Carta 11 / 22 de outubro de 2014

O que estava escrito na carta: “Eu não sei se posso te mandar um inbox. Fico com receio pensando em como você vai estar comigo. 22/10”.

Looks like you’ve given up, you’ve had enough / But I want more, no I won’t stop / Cause I just know you’ll come around / Right? (P!NK, I Don’t Believe You)

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Outubro já estava se encaminhando para o final, mas pareceu um mês extremamente longo em relação ao que eu ainda sentia pelo Menino das Cartas. Acho que para sentir exatamente o peso da distância abater sobre nós, precisamos deixar que o tempo corra viscoso em nossas veias. Só assim parece que começamos a compreender a dor que é esperar que os minutos passem. Não sentimos direito esse depósito de emoções logo depois de um término.

Claro, o momento em que as coisas realmente acabam para as duas pessoas é marcante, porque é quando puxamos de uma vez a barra de ferro que foi forçada em nossa carne. E dói inexoravelmente. Mas depois que o sangue continua a pulsar e a adrenalina da perda começa a desvair, começamos a sentir a verdadeira dor, aquela que era tanta que nosso cérebro não conseguiu processá-la de uma só vez. Então seus músculos se contraem, os ossos doem e as pernas bambeiam, porque chegou a hora de sentir em que estado de espírito fomos deixados.

É duro perceber que a realidade só se abate sobre nós depois de algum tempo. É quase injusto conosco porque você se sente já seguindo confiante para tocar a vida, mas daí vem alguma sensação bem do fundo das suas entranhas que te deixa sem norte. A gente bate o pé e tenta seguir em frente, porque é a única coisa que sabemos que deve ser feita, mas às vezes os calcanhares estão tão fracos que é melhor só sentar e esperar essas coisas passarem por nós. Pode demorar, mas uma hora ou outra passa.

Enquanto vamos fingindo estar tudo bem para todo mundo ao nosso redor, é comum que algum pensamento que tentamos sufocar escape e viaje diretamente para a fila de coisas diárias que entram em nossa rotina: levantar, ir ao banheiro, lavar a boca, tomar café, escovar os dentes, pensar nele por um breve instante, arrumar o cabelo, sair de casa, escolher alguma música para tocar no celular, pensar mais um pouco nele por mais um breve instante e continuar o dia normalmente. Esses flashes de pensamento não são exatamente constantes e não têm uma frequência definida, mas podem incomodar alguém que quer só conseguir assistir um episódio de uma série qualquer sem ter sua atenção interrompida. Mas fazer o que? Se esse é o preço a se pagar por uma superação, a gente paga como pode. Faz empréstimos no banco e até tira da poupança, tudo é válido.

Uma forma de cortar caminho debaixo desse chove-não-molha é tentar ser sincero com todos os envolvidos naquela relação. Eu já estava indo com calma para tratar de mim mesmo e comecei a pensar que a falta de comunicação em que eu e o Menino das Cartas nos encontrávamos dificultava o desenrolar da história. Ele também deveria ter voz nisso tudo, senão não haveria desenvolvimento nenhum e as coisas poderiam morrer ou não.

Essa incerteza era demais para mim, então me pus a pensar em uma maneira de conversar com ele logo, para que não houvesse mais nenhum tipo de desequilíbrio naquela relação. Eu ainda estava sofrendo e não é bom apenas ignorar aquela dor pungente e rápida que atinge o lado do nosso corpo quando menos esperamos. Precisava conversar com ele. Ao menos mais uma vez.

Havia muitas coisas que estavam presas na minha garganta ainda e que eu precisava tirar de lá. Não aguentava mais aquele caroço crescendo descontroladamente. As questões não seguiam exatamente um roteiro, mas pensei em começar perguntando sobre coisas que eu queria saber mas que não tinham relação direta comigo e depois indagar sobre a relação que havíamos tido. Pensei em encadear as perguntas mais ou menos assim:

  • Como estão as coisas por aí?
  • A faculdade é difícil? Você já fez alguns amigos?
  • O inverno é realmente muito forte? Como está lidando com o frio?
  • E sua família, está tudo bem com todos?
  • Eu estava pensando e queria entender: por que nós não conversamos mais como antes?
  • Há tempos que eu não menciono nada sobre nós dois, e eu sei que você não quer conversar sobre isso, eu também não quero, então por que não podemos só conversar normalmente?
  • Eu sinto falta da sua companhia, você não sente da minha?

Não era exatamente um questionário policial, eu só queria entender o que estava se passando. Eu já começava a aceitar que talvez eu tivesse amado-o muito mais do que ele me amou, ou até mesmo que somente eu tivesse sentido amor quando o que ele sentiu foi apenas uma vontade de passar algum tempo comigo porque gostava de mim — mas não me amava. O que eu queria era só um pouco de consideração com tudo o que havíamos passado.

Eu mesmo não me dispunha a me relacionar com alguém que estava em outro continente e que não veria por mais ou menos um ano inteiro. Só queria que mantivéssemos nossa amizade. Não estava em jogo ali qualquer tipo de amor romântico. Eu poderia sentir um pouco disso dentro de mim ainda, é verdade, mas como sabia que não seria correspondido, conseguiria lidar com esses sentimentos dentro de mim. Já havia feito coisas parecidas diversas vezes. Fingir não é tão complicado como algumas pessoas fazem parecer.

Só havia um problema em todo esse meu plano. Além do fato de que ele poderia começar a discutir comigo e no fim não responder nada do que eu queria saber, a maior complicação partia de mim mesmo. Eu não tinha coragem de enviar nenhuma dessas perguntas. Das últimas vezes ele havia sido tão frio comigo que eu não sabia se aguentaria receber um tratamento desses depois de tanto tempo. Eu me sentia andando em uma corda bamba, uma que ele sabia como desamarrar rapidamente, sem eu nem mesmo perceber o que ele tinha feito.

Quando Pedro, que tirou a foto sobre o décimo primeiro post-it que colei nas cartas de baralho, me mandou a foto, ele me disse que os dedos apontados para a tecla enter do teclado o diziam alguma coisa. Aquela tecla na imagem grita a incerteza que eu tinha sobre tentar alcançar o Menino das Cartas mais uma vez. Foram diversas as vezes em que cheguei a digitar textos e mais textos para ele e me demorei em cima do enter. Daí eu apenas desistia de mandar as mensagens, não conseguia apertar aquela tecla sem medo.

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