Carta 12 / 29 de outubro de 2014

O que estava escrito na carta: “Hoje senti um pouco menos 29/10”.

Well now I’m told that this is life / And pain is just a simple compromise / So we can get what we want out of it (PARAMORE, Misguided Ghosts)

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Novembro já estava na porta e eu queria que esse mês chegasse logo, porque significava a proximidade mais do que iminente de dezembro e, por consequência, do fim do ano. Eu esperava que as energias positivas da virada, aquela vontade de querer mudar, fizzessem com que as coisas fossem diferentes, me dessem um pouco mais de ânimo para conseguir superar melhor a viagem do Menino das Cartas. Mas ainda era outubro e as coisas às vezes pareciam caminhar bem, às vezes não. Finalmente comecei a sentir na pele o que é desequilíbrio emocional.

Uma vez li que estar em um relacionamento é como usar qualquer droga. Segundo a neurociência, nosso nível de dopamina aumenta quando estamos nos relacionando com alguém e essa substância é responsável pela sensação de bem-estar. O cérebro começa então a associar a produção de dopamina com aquela relação que os envolvidos estão vivendo. Por isso que no começo é tudo tão intenso, porque a elevação da substância é algo novo para o seu organismo. Com o tempo a gente se acostuma com aqueles níveis altos correndo por nós e a paixão já não é tão forte com o desenrolar da história. Aparentemente é nesse ponto que vira amor.

O problema é que em um término a fonte responsável por estimular a produção de dopamina não está mais do seu lado e a gente começa a ficar sem saber o que fazer para conseguir se sentir bem da mesma maneira. Daí vem a abstinência e um monte de decisões que não são exatamente as melhores maneiras de você reaver aquela substância, por exemplo, se arrastar para a sua fonte ou tentar encontrá-la de outras formas, como acreditar que outras pessoas vão conseguir substituí-la. Quando não conseguimos reaver a dopamina para nosso organismo, sofremos. Muito. Então, sim, passar por uma separação nos causa uma dor real. E assim como em uma reabilitação, temos que ter consciência de que precisamos passar um dia após o outro buscando a recuperação.

Eu sei disso hoje, mas não sabia antes. E mesmo que soubesse desde sempre, tenho certeza de que não conseguiria deixar de passar por esse processo somente porque eu teria consciência de toda a ciência por trás dele. Não é assim que as coisas funcionam. Toda essa explicação científica, porém, me era resumida naquela frase que a gente odeia ouvir quando estamos em situações ruins da vida: dê tempo ao tempo. De qualquer forma, foi isso que eu fiz. Escrever semanalmente sobre minha relação com o Menino das Cartas virou uma ajuda acompanhada. Eu comecei até mesmo a entender que todo esse processo não era sobre ele, era muito mais sobre mim.

Após compreender isso, comecei a pensar o que eu realmente queria fazer com todos os post-its e cartas de baralho. O objetivo principal, quando comecei a desenvolver, era que depois desse ano inteiro, eu iria juntar as cartas e fazer uma espécie de livro de bolso para ele. Já tinha procurado muitas referências pela internet — o Pinterest é uma ótima rede social se você sabe usá-la bem — e, após finalizar os escritos, eu iria fazer dois furos discretos em todas as cartas, passar uma fita de cor rosa para que elas ficassem juntas, colocar em uma caixa estampada e forrada de papel de seda lilás, enfiar algumas jujubas sem açúcar cristalizado dentro e entregar para ele.

Contudo me pus a perguntar se ele realmente entenderia a carga emocional que estaria contida ali. Além disso, eu pensava nele, de alguma forma, sempre que escrevia nos post-its, mas definitivamente aquilo era muito mais sobre quem eu era e fui dentro da nossa relação do que uma ode à pessoa dele. Foi nesse tempo que comecei a criar coragem para desistir dessa ideia de entregar todos os meus sentimentos e pensamentos semanais para ele. Eu ainda precisaria pensar melhor sobre isso, mas não estava tão inclinado à essa ideia inicial como antes.

Quando Marcela, que fez o gif sobre o décimo segundo post-it que colei nas cartas de baralho, decidiu o que iria fazer, ela me contou antecipadamente. “Vou mastigar a carta. Porque ela diz que ‘cada dia sinto um pouco menos’, então vai ser eu engolindo a carta, engolindo o sentimento.” Foi exatamente isso que eu fiz por tanto tempo, de diversas maneiras.

Engoli meus sentimentos quando estava começando a conhecer o Menino das Cartas porque não queria que as outras pessoas soubessem o quanto eu estava feliz naquele instante. Tenho uma sensação de que quando estamos felizes e demonstramos a todo o momento, alguma coisa de ruim vai acontecer muito rápido. Mas eu também engoli meus sentimentos por ele, para ele mesmo, e demorei muito para contar o que eu sentia em relação a nós. Lembro que foi em uma das madrugadas em que conversávamos. Eu estava na sala do meu antigo apartamento em Belo Horizonte e falávamos sobre um possível outro encontro de cinema.

_ Você quer ver algum filme que estreou agora? — perguntei.

_ Por mim tanto faz, pode ser qualquer um.

_ Mas você pode escolher, sempre sou eu que escolho, pode falar dessa vez. — insisti.

_ Não, pode escolher. Fica à vontade. — eu imaginava o rosto dele sorrindo ao dizer isso, tão educado.

_ É que pra mim também tanto faz, eu só queria sair com você mais uma vez porque eu gosto de estar do seu lado. Por que você sabe que eu gosto de você, né? — lembro que foi tão difícil digitar essa mensagem. Ela deve ter sido editada no mínimo umas 7 vezes e demorado por volta de 3 minutos para ser enviada, o que em uma conversa virtual com fluxo constante, em que a cada 2 segundos há uma nova mensagem, representa uma eternidade.

_ Eu também gosto de você.

Meu. Deus. Havia sido recíproco. Eu queria tanto aquilo mas não sabia se poderia realmente esperar por uma resposta daquelas. A verdade é que eu não estava acostumado em ter alguém gostando de mim. Parece tão bobo isso porque não custa nada para as pessoas fazerem você se sentir especial. Uma simples mensagem com a introdução “lembrei de você hoje, eu estava (…)” já é o bastante, por exemplo. Só que mesmo com essa amostra de carinho dele, eu ainda continuei engolindo muitos sentimentos.

Engoli meu nervosismo e minhas desconfianças nos diversos momentos que eu não sabia se ele ainda gostava de mim. Também engoli minha autoestima e meu amor próprio para que ele não parasse de gostar de mim. Coloquei pra dentro sensações que deveriam ter visto a luz do dia desde o nascimento e depois me arrependi amargamente. Daí percebi que eu tinha que engolir apenas aqueles sentimentos que eu sabia serem infrutíferos. Desde então, tentei não criar mais expectativas em relação a ele, a nós. E mesmo assim ainda criei, algumas vezes. Mas com o passar do tempo elas foram consumidas também. Eu estaria completamente perdido se deixasse a idealização que eu tinha de nós me consumir.

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