Carta 16 / 26 de novembro de 2014

O que estava escrito na carta: “Eu ainda tô tentando entender meu caminho em relação a você 26/11”.

And to find just one other / Seems to be the goal of everyone / From the search to the hurt / I believed I could take you on (LONDON GRAMMAR, If You Wait)

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Estar perdido é uma das piores sensações que alguém pode ter. Digo isso como um argumento de autoridade, porque sou alguém que tem uma dificuldade enorme em ler mapas. Acho que tudo isso se deve ao fato de que durante meu ensino fundamental inteiro eu ignorei Geografia. Achava uma matéria boba e desinteressante. Pra que me adiantava saber sobre rochas e as camadas da Terra? Poderia até ser algum assunto curioso, mas, talvez por causa dos meus professores dessa disciplina, nunca me despertou interesse nenhum.

No ensino médio esse desgosto continuou, principalmente quando eu soube que no terceiro e último ano não estudaríamos nada de Geografia. Claro, de repente a disciplina já havia se tornado Geopolítica e quando comecei a querer entender mais um pouco sobre o que aquilo tudo significava, já não havia mais tempo para aprender. As leituras de mapas como forma de localização, porém, já haviam ficado perdidas há muito tempo e não conseguiria mais me tornar um expert no assunto. Acho que se localizar através de um mapa deve estar no meio daquelas coisas que temos um tempo exato para aprender, como olhar as horas e diferenciar esquerda e direita: depois que passamos de certa idade, acabou, não vai ter mais como compreender completamente aquilo.

Mesmo com as tecnologias de mapeamento, eu ainda tenho uma grande dificuldade de saber onde estou, para que lugar devo ir e qual rota fazer para atingir meu objetivo. Isso afeta muitas outras áreas da minha vida: se não sei me localizar fica mais difícil saber para que direção devo pegar o ônibus, se eu me perco na direção ou mesmo pego o ônibus errado devo ficar mais tempo dentro dele, se fico mais tempo dentro dele preciso sair de casa no mínimo 30 minutos mais cedo do que as pessoas já sairiam adiantadas, se preciso sair mais cedo preciso acordar bem antes do que eu desejava, se tenho que acordar junto com primeiros raios de sol vou ter que pensar em dormir lá para as 23 horas, se eu não aproveito minha noite não posso assistir mais um episódio do seriado que me interessou. É um grande fio de Ariadne que remonta à um longo ponto de início que volta para o problema inicial: eu tenho dificuldade em ler mapas.

Tenho certeza de que alguma vez já ouvi a expressão “pessoas são como mapas, é importante saber interpretá-las”. Acho que ela não faz parte do grande hall de expressões do senso comum, mas com certeza é uma fala que a literatura, o cinema ou a TV já usou algumas vezes, porque me lembro de ouvi-la. O fato é que ela soa enormemente irônica para mim. Quer dizer, eu sei interpretar mapas que trazem dados variados, como de economia, hidrografia, vegetação, desenvolvimento humano, eu só não sei achar o meu lugar quando preciso ir para alguma entrevista de estágio. De qualquer forma também, essa expressão faria mais sentido para mim se fosse: pessoas são como romances, é importante saber interpretá-los. Porque com um livro eu consigo me relacionar melhor, assim como com as pessoas.

Ler os outros não é uma tarefa muito complicada. Você só precisa ter um pouco de empatia, alteridade (ajuda se você conhecer seu “objeto de estudo”) e ser um pouco sensível. Ter assistido bem atentamente todos os episódios de Lie To Me pode ajudar também, mas não é garantia. O fato é que quando estamos sentindo alguma coisa, sempre damos algum sinal, consciente ou inconscientemente. Então nada mais é do que ter atenção e paciência para captar aquele vestígio que indica uma possível leitura.

Eu conseguia ler o Menino das Cartas todas as vezes. Sabia quando as coisas não estavam exatamente bem ou equilibradas no dia dele por causa de uma escolha ou outra de palavras. Alguma pequenas atitudes como dividir muitos detalhes de uma história ou narrar uma epopeia em apenas três frases me contavam tudo o que eu precisava saber. Pode parecer óbvio mas muitas pessoas não conseguem perceber a diferença entre uma coisa e outra. Claro, é importante estar sempre atento para que a leitura não cause subtextos. Às vezes as pessoas não mandam emoji de coração porque simplesmente não mandam, estão cansadas, só querem dormir logo, então se despedem rápido. A boa interpretação também sabe quando isso acontece.

Ler os sinais é o que mais nos aproxima ou afasta dos outros, permitindo que a gente siga caminho x ou y em relação a eles. O problema é quando você para de receber sinais porque a comunicação foi cortada. Daí não interessa se você é um mestre cartógrafo, um PhD em leitura corporal ou um guru da compreensão emocional. Toda minha história com o Menino das Cartas de repente havia parado de ser escrita porque fazia tempos que ele não conversava mais comigo. Eu havia parado até mesmo de tentar manter os papos sobre amenidades que uma vez tinha investido. Eu não iria tentar uma conversação se estava claro que, mais cedo ou mais tarde, aquilo viraria um monólogo. Então eu não soube mais direito o que fazer.

Não havia mais caminho para trilhar em relação a ele ou a nós. Se eu tentasse algo neste sentido, tenho certeza de que seria como quando algum game está com bug e o personagem apenas continua andando, mas nada na tela se move e o cenário vira apenas um apanhado de texturas 3D todas falhas. Você ainda ouve o som e consegue fazer alguns movimentos, mas nada daquilo leva para lugar nenhum e a única maneira de voltar para o jogo é recomeçando tudo. Triste é quando parte daquele progresso não foi nem mesmo salvo e você tem que repetir tudo novamente.

Quando Hennan, que tirou a foto sobre o décimo sexto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ele me contou que ela foi feita em um lugar da sua cidade natal em que ele já sentou diversas vezes para pensar em coisas importantes. Acho que todos temos algum canto especial que nos traz conforto, calma e direcionamento, seja um lugar aberto e alto do qual você enxerga sua cidade inteira, seja o colchão que você está acostumado a dormir todas as noites. Quando estamos perdidos é muito assustador não saber para que lugar virar e para onde seguir.

O primeiro passo é tentar se acalmar e depois perguntar por aí para saber se alguém consegue te orientar. Se isso não funcionar, o que é bem difícil, pare um pouco e tente extrair auxílio da sua mente. Muitas vezes guardamos informações no fundo do cérebro sem sequer perceber. Se você não tiver êxito com nada disso, volte ao início, pergunte ao motorista do próximo veículo que passar ou refaça seus passos. Não é vergonha nenhuma andar pelo mesmo lugar que suas pegadas já passaram. Pode ter certeza, alguma dessas coisas vai funcionar. Os anos de me perder nas cidades, nos becos e também nos corações alheios acabaram me ensinando algo.

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