Carta 21 / 31 de dezembro de 2014

O que estava escrito na carta: “outro ano amo outro (mas sem te esquecer) feliz ano novo 31/12”.

We’re not forever, you’re not the one / We’re not forever, you’re not the one / We’re not forever, you’re not the one / You and I could be the best thing ever (TOVE LO, Timebomb)

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2014 estava ali, quase acabando. Um ano em que eu tinha passado mais de 9 meses pensando em uma pessoa que tinha despertado sentimentos muito fortes dentro de mim. Talvez a virada de ano em um lugar totalmente novo fosse justamente o que eu precisava para renovar as energias. Quer dizer, o momento já era propício para isso, então, mais do que nunca, dependeria só de mim eu ficar bem ou não.

Esse foi o primeiro ano em que não passei o réveillon com meus familiares e parentes. Diversas vezes já havia sido convidado para comemorar as boas-vindas de um novo ano com os amigos, mas sempre recusei porque ainda não tinha consciência da cláusula do contrato social que diz que Natal você, obrigatoriamente, passa com a família e Ano Novo você passa onde e com quem quiser. E naquele ano aceitei o convite de uma amiga e, de forma inédita para mim, fui conhecer o Rio de Janeiro.

Eu estava completamente animado com a viagem e me sentindo um pouco culpado de deixar minha mãe de lado para saudar 2015 longe dela. Eu nem sabia como agir quando desse meia noite. Tinha que ligar/mandar mensagens para as pessoas com quem sempre passei o réveillon e desejar coisas boas para elas? Ou isso poderia ser feito bem antes da meia noite? Quer dizer, eu estaria na praia durante a contagem regressiva então fazer ligações era a última coisa que estaria na minha cabeça, diferente de tirar fotos dos fogos de artifício. Mas lá eu fui, conhecer a Cidade Maravilhosa e deixar algumas pessoas para trás.

A cidade e minha amiga foram realmente maravilhosas comigo. Copabacana é mesmo um lugar lindo e Ipanema tem uma energia gigante. A água às vezes é suja e o mar nem sempre está calmo, mas é só uma dessas coisas comuns da vida mesmo. No apartamento em que fiquei instalado dividi um quarto com minha amiga e o resto dos cômodos com o pai e a mãe dela. Eles são a definição de “amor de pessoa” e sempre estiveram muito atentos às minhas necessidades e queriam que eu estivesse bem durante a estadia. Claro, gastar muita energia em um lugar deixa a gente meio cansado rapidamente, mas nada que estragasse aquele momento.

Conheci o Cristo Redentor bem de perto e me apequenei diante da magnitude daquela construção, passei batido em frente à estátua de Carlos Drummond de Andrade e me arrependi de não ter sentido um pouco a essência de um dos meus poetas favoritos, comi sanduíches gigantes com quase meio quilo de recheio, presenciei um assalto a uns 100 metros do lugar em que estava hospedado, saboreei um pastel famoso da área, estreitei laços com uma das minhas amigas diante à água do mar, frango frito do KFC e alguns minutos no cinema assistindo “Operação Big Hero”. O meu 3G não funcionava muito bem, na verdade estava péssima a conexão da antena da minha operadora, mas toda a viagem foi memorável.

E eu pude esquecer um pouco os sentimentos que tinha cultivado por tanto tempo pelo Menino das Cartas. A mudança de ar às vezes é algo realmente necessário na nossa vida. Ficamos tanto tempo presos à mesma cidade, às mesmas pessoas, aos mesmos problemas, que precisamos de alguns dias longe de tudo isso para que as coisas se clareiem um pouco nas nossas cabeças. Cuidar da alma e deixar que ela se acalme é uma renovação incrível.

O meu dia 31 de 2014 foi bem típico de um turista no Rio de Janeiro, eu acho. A virada de ano seria passada na praia e fiz questão de, ao menos dessa vez, usar alguma peça branca. Não que a cor em si traga alguma energia de paz, mas tenho para mim que, se eu acredito nisso, consigo fazer com que alguma coisa nesse sentido seja levado para a minha vida. Talvez eu seja mais ritualístico e místico do que gosto de pensar ou admitir.

Então lá estava eu, com uma bermuda branca, camisa rosa — um pouquinho de amor em 2015 não seria nada mal — e chinelo nos pés. Comi uma bacalhoada divina que a mãe da minha amiga havia feito e fiquei feliz por não ter nada de frango por ali. Eu não como frango na virada porque, oras, é um animal que cisca para trás e não quero nada disso para meu novo ano. Dia 1º sem problemas, mas na virada em si é melhor evitar. Depois da refeição, eu, minha amiga, dois amigos dela, uma colega que também cursava comunicação e duas amigas dessa menina descemos para a praia. Copacabana estava lotada.

Conversamos enquanto pisávamos na areia e tudo aquilo foi um momento bastante confortável e gostoso. Eu estava perto de algumas pessoas que não conhecia, mas sempre achei ótimo fazer novas amizades e estava muito disposto a isso. Quando 2015 finalmente chegou, a praia se iluminou com os fogos e parecia que um grande peso tinha se dissolvido na fumaça que ficava no céu. Pulei sete ondas e abracei minha amiga como se não houvesse amanhã. Ela não sabia, mas naquele momento ela me representava todas as pessoas que estiveram do meu lado, me dando força, sem nem mesmo saber, durante aquele 2014 cheio de sentimentos guardados em uma mente e coração confusos.

Ficamos horas e horas conversando na praia e quando o relógio começava a bater umas 5 horas pensamos em ir para a Pedra do Arpoador, ver o sol nascer. Antes, passamos no apartamento em que eu estava hospedado para que algumas pessoas do grupo pegassem seus celulares e depois partimos em direção à pedra. Minha amiga estava muito cansada então decidiu ficar por ali e eu fui com os conhecidos para o local determinado. Era fácil voltar para o apartamento, só seguir a orla da praia, então não havia problema nenhum.

Depois de alguns minutos andando chegamos na Pedra do Arpoador. Aquela rocha imponente e enorme tem uma presença extremamente forte. É um dedo da natureza bem na nossa frente, apontando para o horizonte. Ventava fraco e fazia um pouco de frio, mas um grande número de pessoas também estavam ali esperando o sol aparecer. Em meio à algumas conversas jogadas fora, o tempo ia passando e de repente, finalmente, algo começava a despontar no horizonte.

Uma linha d’água começou a se iluminar e aquela luz transformava o azul do mar em um gradiente do claro para o escuro. Com os segundos martelando sobre a natureza, um amarelo começou a ganhar espaço naquela claridade que ainda estava sendo estabelecida. Um ponto de luz, mais quente, mais convidativo, despontava no horizonte e o sol começava a trazer toda centralidade da atenção das pessoas para si. O laranja dos primeiros raios chegou ao meu rosto. Então me permiti chorar.

Era lindo demais. Existe uma força na beleza natural do mundo que nos faz duvidar se somos dignos de presenciar aquilo. Nos leva para um local dentro de nós mesmos em que acessamos nossa pequeneza diante da imensidade do mundo e por um instante, pequeno, efêmero e tão fugaz que quase não conseguimos apreender, nossos problema desaparecem. E sublimamos de transcendência em só um espírito de energia que se divide e se conecta com o mar, o sol, o som ao redor. Não haveria outro nascer do sol do dia primeiro de janeiro de 2015.

Mas como um estalar de dedos, o mundo volta com seu peso sobre nós. Para mim, naquele momento foi sentir uma dor de estômago muito forte. Conversamos um pouco, tiramos algumas fotos e eu precisava ir embora rápido. Uma necessidade fisiológica já tinha se instaurado dentro de mim. Nenhuma das pessoas do meu grupo iriam embora naquele momento e, muito provavelmente, elas nem voltariam para Copacabana. Então precisei ir sozinho.

Eu andava depressa, mas isso parecia não adiantar à medida que a distância se alongava perante meu desconforto físico. Olhava para todos os lados e não encontrava nenhum banheiro químico instalado nas áreas então meu objetivo era apenas conseguir chegar rápido ao apartamento. Seria cômico se eu não estivesse achando tão trágico o fato de que um momento tão puro e único para mim fosse arruinado pelas entranhas do meu estômago que se contorciam da maneira mais voraz possível. Depois de muitos passos e uma boa quantidade de suor frio, finalmente consegui chegar ao apartamento. Naquele momento eu só precisava sentar e me sentir um rei. Claro que o mundo não é um banho de rosas e quando cheguei à porta, ela estava trancada.

Comecei a apertar a campainha, mas ninguém escutava porque, havia me esquecido, ela estava estragada. Tentei ligar para minha amiga, mas eu estava sem área. Andei pelo corredor e consegui pegar um pontinho que indicava a conexão do meu chip. Liguei para ela. Duas, quatro, sete chamadas e nada de me atender. Meu estômago doía e clamava por uma solução imediata, mas não havia nada do que eu pudesse fazer que já não estivesse fazendo.

Lembrei que havia anotado o telefone da mãe dela, então comecei a ligar e ligar. Enquanto isso, sempre batia na porta, caso alguém pudesse ouvir assim. Depois de alguns minutos que duraram exatamente uma eternidade, a porta se abriu. A mãe da minha amiga tinha ouvido os meus socos desesperados. Entrei, resumi em umas três palavras o que tinha acontecido e fui resolver a situação do meu estômago.

Comecei a pensar seriamente que este episódio, que aconteceu logo após um momento tão lindo quanto presenciar o nascer do sol na Pedra do Arpoador, poderia macular meu ano. Fazer o que, se isso fosse acontecer, novamente, eu teria que encarar. Mas não era possível que a energia boa do sol no meu rosto não fosse durar mais do que aqueles segundos.

Eu ainda tinha muito para escrever sobre mim em relação ao Menino das Cartas e coloquei em uma balança mais uma vez esses sentimentos que tinha em relação a nós. Ele foi uma pessoa que me fez bem por muito tempo, mas também me fez um pouco mal, só que as pessoas às vezes nos fazem mal mesmo sem intenção. Pesando tudo isso eu ainda me sentia no lucro, porque as coisas tinham sido despertadas dentro de mim e agora eu era alguém que finalmente poderia falar que amou outra pessoa.

Quando Natália, que tirou a foto sobre o vigésimo primeiro post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, vi naqueles dois corpos a vontade de estar juntos. E da memsa maneira daquele texto que estava colado na carta, eu já havia escrito essa minha vontade de seguir em frente em um poema.

sangria

vai angariar

me deixa me virar do avesso

tropeçar e arrancar unha,

outra cresce.

outro ano,

amo outro

Em 2015 eu não cheguei a amar outra pessoa, mas gostei muito de alguns rapazes. Um deles apareceu bem no final do meu ano e o carreguei para 2016, com uma vontade de fazer aquele sentimento se desenvolver. Eu sentia que algo especial poderia se desenvolver ali. O destino entrou no meio e depois de uma viagem dele para o Rio, em janeiro, as coisas acabaram por causa de um enorme mal entendido por parte dele. Tentei fazer a minha parte, mas o sentimento não vingou mesmo assim. O cenário era novamente aquela cidade que me fez sentir tão bem e tão mal no mesmo dia. Mas é que as coisas são assim mesmo: os momentos felizes acontecem e, com um corte certeiro, são interrompidos. Mas tudo bem, depois aparecem outros.

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