Carta 27 / 11 de fevereiro de 2015

O que estava escrito na carta: “eu me perco em PENSAMENTOS E SENTIMENTOS 11/02”.

Sacode tua vida como um guizo sobre a minha / E então deixe-me só / Fingindo que é de alegria que eu estou chorando (FILIPE CATTO, Ascendente Em Câncer)

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É muito claro que, por diversas vezes, somos lembrados constantemente que o nosso lado emocional e o racional não se cruzam muito. Quando eles se encontram parece que é sempre para que um deles subjugue o outro e ganhe predominância sobre nossas atitudes e decisões, como um todo. No meio disso está a gente, soldado que foi intimado para a guerra e se encontra no meio de um fogo cruzado enquanto pensa por que diabos está ali sendo que fez de tudo para não se alistar no Exército.

Quando tentamos pensar nessa velha dicotomia da emoção e razão, somos levados a crer que o embate entre as duas formam o que nós somos. Contudo, às vezes parecemos tão distantes de nós mesmos que sequer nos reconhecemos nesse suposto ponto de equilíbrio. É quando sua persona emocional desafia completamente sua persona racional. Quando me apaixonei pelo Menino das Cartas não pensei que aconteceriam tantas discussões internas em mim. Quando tive certeza que comecei a amá-lo, então, realmente acreditei que talvez as coisas ficassem mais claras ao meu entendimento. Engano.

Por várias vezes eu me sentia completamente em controle de toda a situação. Conseguia entender o que acontecia à minha volta e fazer uma interpretação fechadinha daquilo para a minha vida. Nesses dias era fácil conviver comigo mesmo. Ir para o estágio, vigiar constantemente para não ser assaltado novamente, fazer todo meu trabalho diário, voltar para a casa, pensar um pouco no meu TCC mas sem cobrança, já que fevereiro ainda era um mês de férias, escolher maneiras de relaxar perante ao computador, conversar com algumas pessoas para manter um bom astral, jantar, escovar os dentes e dormir.

Quando se é racional as coisas seguem uma lógica muito natural, em que tudo o que fazemos tem como objetivo apenas passar pelo dia. Damos importância à coisas que nos fazem bem e continuamos nossas tarefas do cotidiano sem complicações. Com isso, conseguimos até dar um espaço para as emoções boas, justamente porque sabemos que elas também são essenciais para que aqueles momentos sejam tranquilos e descomplicados.

Algumas outras vezes, porém, não era fácil tentar lidar com as emoções que ainda estavam presas dentro de mim. Se fosse um tempo antes, bem antes, eu estaria feliz por estar perdido no meio de tanta ilusão com gosto de jujuba. Depois de um tempo, porém, tudo pendia mais para um lado de Feijõezinhos de Todos os Sabores: eu não sabia se sortearia um feijãozinho com gosto de alcaçuz ou de poeira de porão.

As emoções são muito selvagens quando tentam comandar nossas decisões. Mesmo aquelas que têm como meta nos deixar bem, caem em uma corrida desenfreada e batem em todos os cantos que estão pela frente. A questão principal é que sentimentos negativos também estão sempre à espreita e, quando tudo está solto, eles entram em conflito com os positivos. Se atraem e depois reagem, o que nos deixa meio sem chão diante a tudo que acontece bem na nossa frente. A sensação de impotência é grande porque você é apenas o vetor que faz com que as coisas aconteçam. As emoções podem te deixar neutralizados quando elas querem tomar conta do lugar.

Já é complicado lidar com o seu eu-racional e o eu-emocional quando eles sabem exatamente o que querem fazer. Quando essas suas personas estão perdidas, então, a coisa não é tão fácil de compreender. Depois de tantas conversas fracassadas que eu o Menino das Cartas tivemos após ele partir, tentei regular tudo o que acontecia dentro de mim, mas talvez, de tanto forçar, tenha trincado alguma coisa ou outra.

Quando você não sabe o que pensar das situações que estão acontecendo a sua volta, sua concepção de mundo fica extremamente prejudicada. Nada é uma base para que se entenda o que está acontecendo e fica cada vez mais complicado se apoiar em algo. É como se seus neurônios se recusassem a fazer sinapses e, assim que tentam, parece faltar a lubrificação natural dessas células, daí um processo de queimadura lento e gradativo se instala na sua cabeça. Não é nada divertido.

Se suas emoções, que já são um espírito livre por si só, também estão desgovernadas, a situação fica ainda mais complicada. Pense que, de uma hora para outra, tudo o que você sente começa a ser amontoado. Alegria que é posta em cima de tristeza que está embaixo de três camadas de amargura que divide espaço com esperança que quase empurra o medo pra fora que se agarra em desejo sexual que se espreme no meio de dúvidas. Todas bem compactadas enquanto estremecem por causa da sua natureza inquieta. Elas precisam correr e quando finalmente se veem livres, percebem que estão acorrentadas e daí uma puxa para um lado e outra puxa para o outro. Eu me sentia exatamente assim, sem parâmetro nenhum e apenas me cansando dia após dia porque já não aguentava mais viver com esse pandemônio dentro de mim.

Quando João, que tirou a foto do vigésimo sétimo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ele me mostrou, alguns dias depois, sua compreensão daquilo em palavras. “Noite passada sonhei contigo. Um turbilhão de sensações que a mim retornam junto à imagem do teu rosto. Eu só queria te esquecer. Queimar cada lembrança e deixar que as horas ao teu lado virem cinzas. De olhos abertos eu me perco em pensamentos e sentimentos. E parece que isso nunca terá fim. Não para mim”.

No cerne da imagem de João, reconheci um conforto no meio daquelas cinzas de uma carta de baralho queimada. Às vezes uma das únicas maneiras de colocar um fim nas nossas inquietudes é atando fogo. Não que assim elas sumam, porque sabemos que nada se perde, tudo se transforma. De qualquer maneira, dessa forma elas poderiam virar fagulhas, depois subir aos céus e desaparecer ao olho nu.

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