Carta 31 / 11 de março de 2015

O que estava escrito na carta: “acho que não dá mais 11/03”.

És que hoy se me agotó la esperanza / Porque con lo que nos queda de nosotros / Ya no alcanza (SHAKIRA, Lo Que Más)

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O corpo sempre tem suas maneiras de nos avisar quando algo não está nos trilhos. Uma erupção que aparece na pele por causa de um estresse no trabalho; o coração que acelera e abraça a arritmia quando esperamos ansiosamente por uma notícia; as bolsas debaixo dos olhos que aumentam quando a tristeza começa a entrar de novo na nossa vida. Dentre essas diversas reações, o cansaço é uma das que mais atesta que está na hora de repensar tudo o que você tem feito.

Às vezes as pálpebras ficam pesadas no meio da noite e você apenas adormece, sem nem mesmo se dar conta. Nem sempre podemos contar que alguém vai aparecer do seu lado para te acordar, te ajudar a trocar de roupa, ajeitar sua cabeça no travesseiro, cobrir seu corpo com uma manta nem leve nem pesada, apagar as luzes do ambiente e depois fechar a porta com cuidado para não te despertar.

Quando o cansaço é forte demais e a sorte é de menos, o corpo fica somente jogado de qualquer maneira em um canto. Você então pode acordar no meio da noite por causa do desconforto ou, pior ainda, acordar somente no outro dia. Daí o pescoço começa a doer e músculos que você esqueceu que existiam reaparecem apenas para lembrar que eles ainda estão ali e que podem deixar seu dia bem mais desagradável do que já estava programado para ser.

O cansaço emocional funciona quase da mesma maneira, mas ele tem algumas particularidades que fazem você demorar um pouco para compreendê-lo. Essa pequena dificuldade traz um sentimento muito mais de desistência do que de qualquer outra coisa. Quando estamos cansados emocionalmente é porque não aguentamos nem mesmo mais chorar. Tudo começa a desandar por motivos que muitas vezes não conseguimos controlar. Não temos mais força nem para impor alguns pensamentos positivos e impelir o universo de nos ajudar de alguma maneira com aquilo que não sai das nossas cabeças.

Em março de 2015 eu comecei a me sentir cansado de toda a relação que eu tinha estabelecido com o Menino das Cartas. Não que ele fosse o culpado por essa sensação. Mas talvez o tempo, com seu passar lento e processual, tenha se encarregado sozinho disso mesmo. Em 11 de março de 2015 faltavam apenas 11 dias para o dia 22, em que completaria um ano em que eu e ele havíamos nos conhecido e trocado as primeiras palavras fáceis e sinceras.

Havia pensado que essa data tinha ficado marcada em minha mente porque muitos aspectos únicos rondavam-na e me faziam lembrar dela facilmente. Conheci o Menino das Cartas uma semana antes de começar a cumprir uma promessa. Como católico, essas decisões são realmente pesadas e importantes para mim, mesmo que eu possa me encaixar dentro da classificação de católico não-praticante (o que não me faz menos católico, afinal já fiquei meses sem me relacionar com um homem e nem por isso fui taxado como um gay não-praticante. Às vezes as nomenclaturas têm uma mania de deixar o mundo ainda mais estranho).

Depois de tempos percebi que aquela data havia ficado na minha cabeça não porque ela era tão especial, mesmo que ainda fosse, mas também porque eu costumo guardar mentalmente o número do dia do mês que conheci as pessoas que me despertaram algum tipo de sentimento romântico. O encontro com o rapaz do dia 12 e a vez que conheci o menino do dia 18, por exemplo, vão sempre estar disponíveis para que eu possa acessá-los quando quiser.

Esse movimento de guardar o dia na cabeça não é completamente natural. Algumas vezes preciso rolar as mensagens no celular para descobrir quando foi que eu e alguém dizemos o primeiro “Oi”. Quando o cumprimento acontece pessoalmente, o processo é mais fácil, mas mesmo assim ainda demanda alguns segundos de conta nos dedos para recapitular os dias passados até encontrar aquele que foi tido como especial. Mas uma vez que isso é feito, acabou, é complicado simplesmente conseguir apagar a informação da minha mente.

Quando Mateus, que tirou a foto do trigésimo primeiro post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, me disse que ela representava muitas questões pessoais. A pressão de viver longe da família, tentar ter sucesso em uma área que não tem afinidade nenhuma e ainda sentir culpa por querer buscar outras possibilidades, fazia com que a vontade de Mateus de desistir de tudo batesse na porta constantemente. Esse é o principal ponto do cansaço: ele te deixa tão exausto que abre espaço para que a tristeza comece a crescer dentro de um lugar pequeno e se expanda rapidamente.

A alegria ocupa muito espaço e energia. A tristeza se reproduz bem mais facilmente, porque ela só precisa de qualquer canto minimamente fértil para crescer. Qualquer área estável e sem muita movimentação já tem as propriedades necessárias para que aquele sentimento se desenvolva. É como o feijão das experiências científicas do ensino fundamental, que cresce até mesmo em um algodão dentro de um copo velho de requeijão.

Meu cansaço em relação ao que eu sentia pelo Menino das Cartas era porque tudo isso me deixava constantemente abatido. Eu ainda mantinha aqueles meus sentimento apenas para mim, sem dividir com outras pessoas, e conseguia fazer algumas obrigações que não poderiam ser deixadas de lado, mas, no geral, eu ainda não estava bem comigo mesmo.

Decidi não chamá-lo mais para conversar. Eu não sabia se conseguiria cumprir essa promessa, já que ela foi feita apenas para mim e não para alguma entidade divina mais poderosa que eu. Era forte o desejo de não me render novamente à conversas que, no final, me deixariam mal. No fundo, eu ainda esperava que um dia pudéssemos conversar tranquilamente sobre as coisas que aconteciam no mundo, fossem amenidades ou mesmo questões políticas seriamente pautadas. Mas talvez aquele não fosse o momento para isso.

Dessa vez eu deixei o cansaço falar por mim. Foi necessário um grande peso de realidade e sentimentos negativos revirados no estômago para que essa decisão fosse tomada. Foi uma resolução boa, eu acreditava, mas ainda era triste perceber como a gente, às vezes, precisa realmente se sentir no chão para compreender que ficar deitado olhando para o teto não vai resolver nenhum dos nossos problemas.

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