Carta 34 / 01 de abril de 2015

O que estava escrito na carta: “as águas de março devem ter fechado um pouco o meu coração 01/04”.

Talvez cada um reme pr’um lado / Mas os mares que te cercam / Talvez sejam iguais aos meus (SANDY & JUNIOR, Segue Em Frente)

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Durante todos os meses em que escrevi acerca do Menino das Cartas eu fiquei interessado sobre a noção de tempo. As duas concepções desse assunto que mais me encantaram vieram da ciência e da religião. O ponto de vista científico que me fez pensar sobre o tempo surgiu para mim em uma das reuniões que tive sobre meu Trabalho de Conclusão de Curso.

Naquele dia, uma sexta-feira, o orientador da minha monografia convidou um professor do curso de Comunicação para participar da reunião. Na pequena sala, estavam eu e mais alguns poucos colegas, 6 ou 8, como era de praxe nos nossos encontros semanais. O professor falou muito sobre o conceito de narrativa, sujeito e ação comunicacionais. Um assunto interessante dominado por alguém que sabia ensinar encheu a minha cabeça naquela tarde e eu adorei.

Então, em uma de suas falas, o professor introduziu uma dúvida básica :

_ Vocês sabem o que é o tempo?

Não respondemos, obviamente, porque sabíamos que qualquer resposta não conseguiria chegar perto da resolução correta. Ele então continuou mais ou menos assim:

_ Quando Santo Agostinho — sim, a ciência em questão veio de um santo — se faz essa pergunta ele começa a filosofar sobre a questão. Em certo ponto, ele só diz que é possível entender o tempo porque os humanos o dividiram em Passado, Presente e Futuro. Um é o que aconteceu, o outro o que acontece e o terceiro o que irá acontecer.

“Isso só é possível porque damos um ‘espaço’ para o tempo e então conseguimos apreendê-lo. Contudo, pela conceituação do tempo, ele se transforma em algo que não pode ser apreendido porque não existe. O tempo Presente só é possível medir em um espaço, mas se ele é tão único, ele não tem espaço. A não ser que consideremos este espaço em uma ampla faixa e passemos a chamá-la de ‘Presente’.

“O Passado, contudo, não pode existir. Se ele é o tempo que ficou para trás, o tempo que não existe mais, como seria possível medir algo que não existe mais? Isso somente poderia ser feito enquanto o Passado fosse o Presente, que é o único tempo que há, mas assim que vira passado, deixa de existir e de poder ser compreendido.

“O Futuro, por estar em um campo inatingível por nós, também não pode ser medido. Como o Passado, o Futuro não existe justamente porque não conseguimos acessar aquilo que ainda não existe. Assim, Passado e Futuro estariam fora da capacidade humana, e o único tempo que poderíamos compreender é o Presente. Tudo isso seria possível, claro, se o tempo fosse algo espacial. Mas ele não é. A única forma de compreender o conceito de tempo é através da linguagem. Somente a linguagem constitui memória e a linguagem só adquire sentido através do tempo”.

Ele disse muitas outras coisas e cada uma delas de muitos outros jeitos. Algumas que cruzam esse tópico principal e outras que vão além dele. Neste dia eu saí da reunião entendendo um pouco mais da complexidade do tema, já que mesmo antes de a faculdade estar tão próxima de mim eu me perguntava como o Presente poderia existir se quando pensamos nele, ele já não é mais Presente. Claro, não era uma dúvida que eu tinha enquanto assistia Os Anjinhos e depois Pernalonga, mas sim naqueles momentos em que as crianças pensam de verdade em alguns aspectos da vida que elas não entendem de jeito nenhum. Acabam recriando até mesmo a sequência Fibonacci.

A concepção religiosa, que é basicamente mitológica, sobre o tempo me aconteceu no local que eu menos imaginaria que isso seria possível: no trabalho. Alguns poderiam chamar de experiência divina e outros apenas de coincidência e eu realmente não me importo com essa classificação. De qualquer forma, o ensinamento sobre o tempo que eu precisava ouvir esteve ali na minha frente no momento em que eu mais precisei dele. Dentro de uma conversa muito maior e que falava sobre as angústias mais comuns, aquelas que todos os humanos têm, o tempo apareceu para mim por meio da fala de uma colega de trabalho: “Nós, humanos, vivemos no cronos, o tempo do relógio, e Deus vive no kairós, o tempo das oportunidades”.

Desde então eu tenho conseguido compreender algumas coisas da vida que antes nem precisavam ser discutidas, mas que agora ainda me parecem mais esclarecidas. Minha aplicação prática desses dois ensinamentos foi que o tempo só existe na memória, a única coisa que consegue dar um corpo para ele; também talvez o único tempo que exista seja o das oportunidades, probabilidades, aleatoriedades. Isso pareceu me tirar do lugar já conhecido de onde eu sempre estive e me forçar a caminhar para outro. Um que eu não sabia se me deixaria mais leve, pesado, com mais dúvidas ou mais respostas sobre o que acontece por volta da gente.

A nossa ânsia por resoluções e fatos completamente não duvidáveis nos fazem desejar por uma maneira mais direta de superar um coração partido. Em algum momento, no entanto, percebemos que o único jeito de que as coisas se resolvam é deixar que o Tempo aja. Odiamos isso não porque é, provavelmente, a coisa mais cliché que existe e porque não conseguimos nos desprender do nosso tempo cronológico. Para nós, as coisas precisam acontecer neste âmbito, é inconcebível deixarmos margem para um outro conceito de tempo que é baseado em aleatoriedade. Cronos é o único tempo que abraçamos, o kairós é inaceitável. Temos a necessidade de controlar todo nosso espaço. Mas tempo e espaço são duas coisas distintas. Deter o suposto comando de um, não nos garante o do outro.

Custa abraçar, se é que um dia realmente abraçamos, as probabilidades que giram ao nosso redor. Essa aleatoriedade não dá para prever. Ela comanda nossa vida e o máximo que conseguiremos é fazer com a que a memória lembre de momentos perdidos de oportunidades para que fiquemos mais atentos para reconhecer quando outra aparece.

Agora eu já estou ciente de que outros marços ainda estarão esparramados aos montes pela frente, assim como outros meses também vão estar. Se as águas de março abriram meu coração em 2014, quando conheci o Menino das Cartas, e pareceram costurar o mesmo órgão um ano depois, talvez um novembro possa abrí-lo de novo. A imagem de Larissa, que fez uma ilustração do trigésimo quarto post-it que colei nas cartas de baralho, me mostrou exatamente isso desde a primeira vez que a vi.

Pode acontecer de um janeiro fechar meu coração e um maio tentar reabrir, mas ainda haverão outros desses meses e de mais outros para que qualquer possibilidade se apresente. No meio disso, só espero ainda encontrar uma terceira relíquia de pensamentos sobre o tempo. Assim, quem sabe eu termino a minha missão de acolhê-lo como um velho amigo.