Carta 1 / 13 de agosto de 2014

O que estava escrito na carta: “Tô preocupado em saber se você vai chegar bem na Hungria 13/08”.

You terrify me, we’ve still not kissed and yet I’ve cried / You got too close and I pushed and pushed hoping you’d bite (SIA, Fair Game)

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Dia 24 de abril de 2014. O primeiro dia em que o vi pessoalmente. Nos conhecemos em março do mesmo ano, dia 22. Eu me lembro bem da data porque uma semana depois fiz uma promessa. Nascido e criado em uma família católica, fazer promessa era algo que não estava longe da minha realidade. Essa, em especial, foi por algo tão único que ainda não revelei para ninguém o motivo. Algumas pessoas devem saber o porquê, mas nunca confirmei, e nem pretendo. Esse é o tipo de coisa que faço: guardo meus sentimentos. Tudo o que sinto demasiadamente demais, seja bom ou ruim, dificilmente compartilho com outras pessoas. A relação que tive com o Menino das Cartas também foi assim.

A maneira como eu e ele nos conhecemos não foi nada especial. Na verdade é tão século XXI que qualquer um adivinharia como foi. Nosso primeiro encontro também não foi especial. Muitos casais devem ter começado da mesma maneira. Marcamos um cinema no shopping perto de onde eu fazia estágio. Eu chegaria no lugar em menos de 20 minutos. Em 10 se me apressasse. E como me apressei naquele dia. Já fazia mais de um mês em que trocávamos mensagens. Os saudosos SMS. Eu não tinha ainda um celular que me permitia a instalação de aplicativos. Não era por escolha, mas sim coisa de garoto classe média ascendente. O horário: 19 h. Ou mais ou menos.

O nervosismo corria por todo o meu corpo. Sabe quando as luzes parecem fortes demais e qualquer lugar em que você senta a bunda parece ser desconfortável após uns 30 segundos? Eu estava assim.

Eu não tinha borboletas no meu estômago, mas sim lagartas que remexiam em casulos a qualquer mínimo pensamento sobre aquele encontro. Às vezes ficava difícil respirar. Eu estava realmente nervoso. Pensei em comer o chocolate da minha mochila um bom número de vezes. Mas eu não poderia fazê-lo. Era uma espécie de presente. Em uma de nossas conversas acabamos falando de chocolate e ele havia me dito como gostava de Bubbly. O areado redondinho da Lacta. Ótimo. Eu tinha uma barra em casa, então levaria para o encontro. O combinado era que comeríamos o chocolate tomando um sorvete. Isso se ele chegasse a tempo.

Comecei a receber algumas mensagens que apontavam o contrário. O trânsito estava complicado e lento porque, pelos indícios, havia acontecido um acidente. Já eram quase 19 horas, o horário do filme. Ele claramente não iria chegar a tempo.

_ O trânsito está péssimo. Não sei se vou conseguir chegar.

_ Tudo bem, eu te espero. Podemos ver em outra sessão.

_ Mas não vai ficar tarde para você ir embora? Se você quiser eu entendo, não quero te prender. Não precisa fazer isso por mim.

_ Eu pego um táxi. Sem problemas.

_ Eu te empresto o meu Body Card para você pagar o táxi.

_ O que é isso? — realmente perguntei surpreso porque: a) não conhecia esse cartão e b) comecei a achar um pouco demais alguém que eu iria conhecer pela primeira vez em um mês já se dispor a me emprestar um cartão.

_ Foi uma piada. Eu falando que pagaria sua corrida com meu corpo.

Esse era o nosso tipo de humor e eu achava bastante espirituoso e leve. Ao menos ele não me emprestaria um cartão para pagar meu táxi, o que me deixaria realmente sem graça. Mas se ele me emprestasse algum dinheiro tenho certeza que já começaria a gostar mais daquele garoto.

Eu havia chegado ao cinema umas 16h30 da tarde. Sim, estava disposto a esperá-lo por duas horas para assistirmos o filme. Agora, com o atraso, conseguiríamos entrar apenas na sessão das 22 h. Mais de cinco horas esperando por uma pessoa. Eu queria mesmo conhecê-lo. Gastei um pouco mais de dinheiro do que eu estava disposto. Pedi um chá gelado na cafeteria de um supermercado caro. Comi biscoitos de maçã desidratada porque o shopping era realmente chique. Havia um McDonalds, mas eu não queria ficar com hálito de carne processada.

Mais um SMS. Ele estava chegando. Fui para o andar do cinema e o esperei em um dos bancos perto da entrada. Queria facilitar para que ele me visse. Comecei a repensar novamente minha roupa. Não coloquei minha melhor calça porque eu estaria no estágio antes do encontro, mas eu realmente não poderia ter colocado minha melhor calça? A camisa estava até boa, mas eu realmente não poderia ter escolhido uma melhor? Que tipo de primeira impressão eu iria passar? De qualquer maneira tinha chocolate na minha mochila, era um presente fofo. Mas eu não poderia ter escolhido outra mochila? As lagartas nos casulos se remexeram muito mais.

Alguns minutos depois ele chegou. Era diferente das fotos. Todos nós somos. Alguns centímetros mais baixo que eu, cabelo baixo, uma barriguinha mínima mas presente, olhos marcantes, cílios um pouco finos. Ele estava mais bem vestido que eu. Com um casaco fino mas quente por cima da composição. Até comentei como minha roupa não estava boa. Eu estava realmente nervoso.

Me deu um “Oi, Maurício”, um apelido não canonizado meu, e ouvi a primeira vez aquela voz fina, arrastada e vinda de uma língua um pouco presa. Ele era diferente das fotos e era lindo. Eu o abracei e dei um beijo na bochecha. É assim que cumprimento todo mundo. Fomos então comprar os ingressos. Não havia muito tempo até o filme começar, mas descemos e compramos um sorvete. McDonalds liberado dessa vez. Subimos e sentamos no lugar em que eu o esperei.

Conversamos de algumas poucas coisas. A conversa fluía. Foi assim desde o primeiro dia. Ele tinha um olhar que parecia astucioso demais para alguém que cursava algo que não era de humanas. Tinha também uma risada fraca de alguém que se contém para não chamar atenção. Peguei o chocolate, fingindo que havia me esquecido que ele estava na minha mochila, e ele agiu surpreso, talvez também fingindo. Misturamos um pouco no sorvete. Acabamos de comer e entramos no cinema.

Lembrei que odiava as salas deste cinema. As poltronas ficam ao nível do chão e não há degraus. O piso se eleva gradativamente, mas não tanto, então todos os lugares ficam um pouco com a mesma visão da tela. Eu odeio isso. Eu já havia lido o livro que deu origem ao filme: “Divergente”. Expliquei algumas coisas da trama, porque ele não sabia de nada. O filme começou.

Não sei porque ainda marco encontros no cinema se nunca beijo na sala. Quer dizer, eu saí da minha casa, paguei o transporte, paguei ou pagarei por alguma comida e ainda paguei para ver o filme, então, me desculpe, eu vou ver o filme. Alguns comentários ali, outros aqui, porque é assim que se vê um filme no cinema, até que ele fala a primeira coisa que eu não gostei:

_ Nossa, ela tá grávida ou o que? — risos dele.

_ Por quê? — perguntei, realmente sem entender. Ou não querendo entender.

_ Porque ela tá gorda, olha só.

_ É claro que não tá gorda! — era a Kate Winslet. E ela não estava gorda.

_ Claro que tá, olha ali! Essa barriga. No mínimo ela tá muito inchada.

_ Então você tem algum problema com pessoas gordas? — eu não estava gostando deste comentário. Já fui gordo e algumas das pessoas que amo são ou já foram gordas. E eu estava no meu quinto período da faculdade. Já entendia o conceito de gordofobia.

_ Claro que não. Eu só comentei, porque ela tá gorda.

_ Ela não está, mas então tá, se você acha. — eu não falei nada disso com alguma autoridade ou firmeza na voz. Nem desconforto demonstrei. A gente acaba escondendo algumas coisas quando quer que outras fiquem em evidência e, naquele instante, eu só queria que o nosso encontro fosse bom.

Em algum momento do filme comecei a sentir um pouco de frio. Então ele fez aquilo. Tirou o casaco e colocou em mim. Passei um tempo considerável da minha vida cinematográfica assistindo a comédias românticas. A maioria é boba, algumas são realmente inteligentes e todas elas ajudam a construir mais um quarto no hotel da idealização amorosa que, vez ou outra, nos hospedamos. Logo, o gesto de passar o casaco para fora do corpo dele e colocá-lo sobre o meu envolve alguns ângulos geométricos em um movimento simples que os filmes me ensinaram carregar um mundo inteiro de simbolismo.

Eu me aninhei um pouco no ombro dele. Aninhar é o verbo porque foi a primeira vez que alguém colocava um casaco sobre mim, então a partir dali a noite foi poética. Mais tarde, quando falei o quão atencioso foi ele fazer o que fez, ele só disse algo como “Eu poderia estar apenas sendo gentil, porque sou uma pessoa gentil”. Acho que ele estava correto.

O filme acabou. O shopping estava praticamente vazio. Não era a semana e nem mesmo a noite de estreia, então não tinha um número considerável de pessoas na sessão. Além disso, era um filme ruim. Ele não achou, mas, claro, ele não leu o livro. Livros são 89% das vezes melhores que as adaptações. Saímos pelo estacionamento e chegamos até a rua. Eu ainda usava o casaco dele.

Conversamos um pouco mais. Não lembro sobre o que falamos, mas lembro de me sentir leve. Toda essa coisa de comédia romântica, ou só romance, te deixa mesmo daquelas maneiras que as pessoas antes de você já descreveram. Entramos no táxi, paramos em um lugar específico para ele descer e pegar o ônibus. Quando fomos nos despedir nos beijamos naquele ponto cego que não fica nem na bochecha nem no canto dos lábios. Ele saiu do carro:

_ Me avisa quando chegar bem em casa. — ele se preocupava.

Eu mal poderia esperar chegar em casa para mandar uma mensagem para ele avisando que havia chegado. Então não esperei. Enviei uma de dentro do táxi em que já agradecia pela noite. Ele retribuiu. Cheguei em casa e avisei. Ele ainda não havia chegado. Comecei a falar algumas coisas de como a noite tinha sido boa, tomei coragem e emendei com um “E eu nem te dei um beijo! Fiquei nervoso e não consegui pensar em um momento para fazer isso. Eu já tinha te dito também que fico nervoso perto de pessoas bonitas. Talvez no táxi eu poderia ter te beijado, mas não sei”.

Quando ele chegou em casa, respondeu:

_ Eu pensei em te beijar no táxi, mas fiquei com vergonha por causa do taxista. Mas isso é bom porque agora te devo um beijo. Cheguei em casa, inclusive.

Ele disse que me devia um beijo. Não que isso seja moeda ou fosse um ato de escâmbio, mas, nossa, como foi bom ler aquilo. Será que em apenas um mês ele já estava na mesma página que eu?

_ Olha, isso é bom. — respondi.

_ Então temos que marcar um próximo encontro pra isso acontecer. Agora vou dormir, você chegou bem em casa então tá tudo bem. Obrigado pela noite, de novo. Beijos.

_ Obrigado pela noite, foi ótima. Dorme bem.

139 minutos de um filme ruim. 5 horas, pra mais, de uma espera péssima. Um táxi realmente caro para um estagiário pagar. Uma noite de sono incrível.

Sabe, ele me passou o casaco e me pediu para avisar quando chegasse bem em casa. Quando penso sobre, não lembro de alguém antes dele que me pediu isso. Ele se preocupava. E desde esse dia eu me preocupei com ele, em retorno.

Carlos, que tirou a foto do primeiro post-it que colei nas cartas de baralho, me contou algo parecido. Ele também teve ou tem ou tinha, não importa o tempo verbal porque nesse ponto é a história dele e não a minha, alguém que ele também se preocupava se ia chegar bem. Ele fez a carta viajar de Minas para outro estado e tirou a foto na praia. Em volta de uma areia banhada de um mar que também chega e vai. Essa carta foi com ele e voltou para mim, a única desse projeto que caiu nas minhas mãos novamente.

Desde que a recebi novamente, me lembrei de como depois desse 24 de abril eu me preocupei com o Menino das Cartas. Me preocupei todas as vezes posteriores ao primeiro encontro em que ele mostrou algum sinal de tristeza. Me preocupei em saber como tinha sido o dia dele. Me preocupei se ele não estava se preocupando demais comigo e com os meus problemas. Me preocupei até o dia em que ele viajou para fora do país para fazer o intercâmbio e muitas outras vezes depois disso. Me preocupei em saber se ele chegaria bem, onde quer que ele fosse.

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